‘Surpresa é que mal-estar na AL tenha demorado tanto para se manifestar’, diz Nobel de Economia

Gerardo Lissardy entrevistou Joseph Stiglitz na BBC.
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BBC News Mundo – Como o senhor avalia os protestos recentes em diferentes países da América Latina?
Joseph Stiglitz – De alguma forma, a surpresa foi que o mal-estar tenha demorado tanto para se manifestar, principalmente no Chile. Porque o Chile é um dos países que sempre se destacou nas estatísticas da OCDE [Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico] com um dos mais altos níveis de desigualdade. Nos anos anteriores, houve algum descontentamento, preocupação com a falta de oportunidades educacionais, greves…
Historicamente, a América tem um alto nível de desigualdade. Em alguns países, houve avanços na redução da desigualdade por um longo período. O Brasil, com os governos de Fernando Henrique Cardoso e Lula, e a Argentina, com os Kirchner, tiveram reduções significativas na desigualdade, e também a Bolívia. Mas o nível de desigualdades ainda é muito alto.
Vivemos em um mundo globalizado. Há 50 anos, um cidadão talvez não percebesse que seu país tinha um nível de desigualdade acima do normal. Mas, no mundo de hoje, existem rankings que mostram que alguns países reduziram significativamente a desigualdade. As pessoas sabem o que está acontecendo em outros lugares.
O que o Chile mostra claramente é que, ainda que a explosão de protestos possa ter sido causada por algo muito pequeno, havia um mal-estar profundo instalado, e você nunca pode prever quando ele explodirá. Mas é compreensível que isso tenha ocorrido.
No meu livro O preço da desigualdade (Bertrand, 2012), descrevo o alto nível de desigualdade nos Estados Unidos, o mais alto entre os países avançados. Afirmei ali que isso não era política nem socialmente sustentável, que haveria consequências. E a conseqüência foi em parte a eleição do presidente Donald Trump.
Em diferentes países, o descontentamento pode assumir diferentes formas. Mas é completamente compreensível que haja descontentamento.
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