Temer: “Eu não exerço presidencialismo de cooptação”
Michel Temer deu uma entrevista a Kennedy Alencar que vai ao ar pelo SBT. Algumas pérolas:
Jornalista: Presidente, até numa discussão um pouco sobre o conceito do presidencialismo brasileiro, o programa do PSDB falou em “presidencialismo de cooptação”. O senhor foi um aliado importante no governo Fernando Henrique. Foi líder do PMDB, presidente da Câmara. O vice-presidente nacional do PSDB, o Alberto Goldman, disse: “Olha, o Fernando Henrique governou do mesmo jeito”. Eu pergunto: o senhor considera que o governo do senhor pratica presidencialismo de cooptação? E como avalia o presidencialismo que foi praticado pelo Fernando Henrique
Presidente: Eu não exerço presidencialismo de cooptação. O que acontece é o seguinte, Kennedy: eu acho um pouco estranho que as pessoas, primeiro, se esqueçam do passado, como você acabou de dizer. Em segundo lugar, não há outra forma de você governar se você não tiver uma coligação, uma composição com os partidos políticos. Quando se fala em cooptação, para deixar mais claro para o nosso telespectador, está-se falando assim: “Ah, o presidente liberou emendas parlamentares”. As pessoas não sabem que hoje, de dois ou três anos para cá, as emendas, as tais emendas parlamentares e de bancada, são emendas impositivas, ou seja, elas se impõem para o governo. Então, quando nós vamos liberando as emendas, nós estamos cumprindo o que determina a regra normativa.
Jornalista: O Fernando Henrique foi injusto com o senhor, então? O senhor acha?
Presidente: Eu deixo por conta dele. Ele é que examine.
Jornalista: Porque ele dá umas alfinetadas, presidente. Desculpe-me insistir um pouco nisso. “Ah, o Ponte para o Futuro é uma pinguela. É o que temos. Há um presidencialismo de cooptação”, vira e mexe. Ele sugeriu, por exemplo, até que o senhor antecipasse as eleições, no auge da crise da JBS. Por que o Fernando Henrique tem essa mania de umas alfinetadas em relação ao senhor?
Presidente: Você sabe que há pouco me perguntaram essa coisa da pinguela? Eu sou do interior de São Paulo, você sabe, e lá eu morava numa chácara que tinha um riachinho lá por perto. Nós, crianças, nós queríamos atravessar o riacho, então tinha uma pinguela. E nós atravessamos a pinguela, e atravessamos muitas vezes, com um sucesso extraordinário. Então, se é ponte, se é pinguela, o que importa é que nós estamos atravessando a ponte, atravessando a pinguela. Primeiro ponto. Segundo ponto, o presidente Fernando Henrique teve a minha colaboração durante a sua campanha. Aliás, a primeira reforma da Previdência que o governo dele conseguiu aprovar foi graças ao fato de ele ter me solicitado que eu fosse o relator, exatamente para compor as várias tendências. Ele conhece bem o governo.
Jornalista: Eu me lembro da emenda da reeleição, por exemplo, o papel que o senhor teve para ajudar a aprovar.
Presidente: Sem dúvida, sem dúvida alguma. E naquela época ele não cooptou ninguém, não. Porque disseram muito que houve compra de votos para a reeleição etc. E eu sou testemunha de que não houve nenhuma cooptação, como seguramente sou testemunha hoje física de que não há nenhuma cooptação no meu governo.
(…)
Jornalista: Presidente, nesse episódio que envolve o Ministério Público, o senhor teve um encontro recente com a futura procuradora-geral, dra. Raquel Dodge, às dez horas da noite, no Jaburu. Um procurador da República, o Carlos Fernando Santos Lima, criticou a Raquel Dodge, dizendo que ela não deveria ter tido aquele encontro. Vira e mexe, há encontros do senhor com o Gilmar Mendes, com outros políticos, tarde da noite, e eles são criticados. Como o senhor responde a essas críticas, presidente
Presidente: Acho que é preciso acabar com essa história de você não poder conversar com as pessoas. Quem fala que dez horas da noite é tarde, deve ser porque trabalha até as seis e acha que depois das seis ninguém pode trabalhar. O presidente da República trabalha permanentemente. E ele não tem local de trabalho. Aqui, o Planalto, é meu local de trabalho, o Jaburu é meu local de trabalho, o escritório em São Paulo é meu local de trabalho. E eu, ao longo do tempo, não só agora, mas também no passado, quando presidi a Câmara por três vezes, eu sempre trabalhei até meia-noite ou até onze horas da noite.
Então, o fato de receber alguém no Jaburu não pode ser tido como um gesto criminoso. E, como de resto, veja o caso do nosso ministro Gilmar Mendes, que é um grande constitucionalista. Eu o conheço há mais de 35 anos, exatamente da área e das lides de Direito Constitucional. Ora, veja bem, no instante em que ele é ministro e eu sou presidente, eu não posso mais falar com ele, não posso me encontrar? Veja o caso da nossa presidente do Supremo Tribunal Federal, uma pessoa de uma respeitabilidade extraordinária, a ministra Cármen Lúcia. Igualmente, eu a conheço há muitos anos passados, porque ela era também procuradora do Estado em Minas Gerais, e eu era procurador em São Paulo, e também da área de Direito Constitucional. Agora as pessoas são proibidas! É preciso acabar com isso. Isso é uma coisa explorada negativamente, porque cada um tem, digamos, consciência das suas funções institucionais. O fato de eu conversar com você não significa que você vai me proteger.
Então nós precisamos acabar com isso. Eu estou disposto a acabar com essa cultura. Eu converso com quem eu quiser, na hora que eu achar mais oportuna e onde eu quiser. Às vezes, se diz: “Ah, não está na agenda!”. Não importa se está na agenda ou não está na agenda.
Olhe, ontem mesmo, acabei de dizer antes de iniciar o programa, eu fiquei até quinze para meia-noite aqui. Eu atendi, da agenda, umas quinze pessoas, mais ou menos. Mas, depois das sete da noite, vieram mais uns catorze ou quinze que não estavam na agenda. E nem sei se foram colocados na agenda. Então, eu não vou me perturbar, me preocupar com essas afirmações, digamos, sem sentido. Aliás, para fazer justiça à procuradora Raquel Dodge, ela foi lá para conversar sobre a posse, a coisa mais natural do mundo. Você conversar sobre o instante…
Jornalista: Fala-se que bastaria um telefonema para resolver isso, que não precisaria…
Presidente: Às vezes, não. Aliás, ela teve a delicadeza de marcar… Nós marcamos para o dia 18, pela manhã, porque logo em seguida eu tenho que ir aos Estados Unidos. E ela teve a delicadeza de marcar comigo…
(…)
Jornalista: O senhor convidou mesmo o João Doria para se filiar ao PMDB? E o senhor acha que o Henrique Meirelles pode ser um candidato a representar o governo na eleição?
