‘Tenho medo do meu vizinho’: crimes de ódio em alta nos EUA de Trump têm minorias como alvo

Da BBC:
“Ei, idiota… a eleição acabou… você perdeu de todos os lados”, dizia a carta que chegou à caixa de correio de John Gascot. Também acusava ele e seu marido de viverem em uma “casa gay”, decorada com uma bandeira de arco-íris para “provocar estranhos”. A correspondência era anônima.
“Eu estava com raiva (do resultado da votação). Minha primeira reação foi pintar a minha casa com as cores do arco-íris. Foi um ato de covardia”, diz Gascot, que é artista e membro ativo da comunidade LGBT no Estado americano da Flórida.
Três anos atrás, ele se mudou com seu companheiro de 20 anos para o bairro onde vivem em São Petersburgo, na Flórida, e sempre sentiu que “as pessoas eram muito acolhedoras com os vizinhos”. Apesar disso, a “carta de ódio” anônima recebida em dezembro, poucas semanas após a eleição de Donald Trump à Presidência dos Estados Unidos, os deixou em alerta.
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A história do casal é apenas uma de muitas. São Petersburgo é lar de uma comunidadde LGBT vibrante, e estão se multiplicando ameaças relacionadas à discriminação. Na verdade, atitudes desse tipo estão se tornando mais frequentes em todo o país, somando 11% de todos os “crimes de ódio”.
Muitos – tanto observadores como vítimas – culpam o clima político atual nos Estados Unidos por essa escalada do ódio. “Desde as eleições, as pessoas sentem-se encorajadas a manifestar seu ódio ou desagrado”, diz Gascot. “(Os republicanos) fizeram uma campanha baseada no medo. Então, como algo assim não iria ocorrer?”
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Um estudo realizado três meses após o dia da eleição americana oferece mais evidências de uma espécie de “efeito Trump”. O Southern Poverty Law Center (SPLC), organização que monitora extremistas nos Estados Unidos, contabilizou 1.094 incidentes de ódio entre novembro de 2016 e fevereiro de 2017, como parte do projeto #ReportHate (denuncie o ódio, em inglês).
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Os crimes de ódio são difíceis de rastrear. O FBI, que deveria acompanhar essas ocorrências, computa certa de 6 mil casos anualmente. Mas um relatório do Escritório de Estatísticas de Justiça, de junho, estima 250 mil. Por que essa diferença?
Uma das razões, dizem os especialistas, é que as agências legais não têm de se reportar ao FBI. Então, os números do FBI podem estar desatualizados. Além disso, 46% das vítimas não procuram a polícia.
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Em um ambiente polarizado, não chega a ser uma surpresa que alguns desses números sejam contestados e que algumas vozes críticas rejeitem a ideia de que exista um pico de crimes de ódio nos Estados Unidos de Trump.
Eles argumentam que a proliferação de grupos de ódio é um fenômeno que começou antes da candidatura do atual presidente – na virada do século, motivada em parte pela rejeição da imigração latina e por projeções demográficas que mostravam que os brancos deixarão de ser maioria nos Estados Unidos a partir de 2040.
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O artista John Gascot sentiu a necessidade de “transformar algo feio em algo legal”, depois de receber a carta de ódio anônima. Decidiu realizar um workshop gratuito para jovens LGBT, para oferecer um espaço seguro para estudantes que geralmente são marginalizados e têm medo de se expressar.
“A arte ajuda, mas não se trata apenas de arte. Se trata de ajudá-los a se sentirem confortáveis a serem quem são, oferecendo às gerações futuras aquilo que nós não tivemos”, comenta Gascot.
“Essa eleição tirou muita gente da complacência. E isso é positivo, apesar de tudo.”
