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Tradicional prédio de SP proíbe uso de shorts no saguão e moradores se revoltam

Do UOL:

O Carnaval deixou um rastro de discórdia entre os condôminos do edifício Planalto, um dos mais tradicionais do centro de São Paulo, com 60 anos de existência. Por considerar as fantasias de alguns moradores indecorosas, a administração desenterrou uma norma do regulamento interno que proíbe o trânsito pelas dependências do edifício “em trajes praianos e/ou sumários (sem camisa, maiô, shorts etc)”. Fixou em todos os elevadores o aviso:

Indignados, os supostos difusores da impudicícia foram bater na porta da administração. Queriam saber, entre outras coisas, qual o conceito de “trajes sumários” e quem faria avaliação para liberar a entrada dos condôminos. “Bermuda pode?”, perguntavam-se, confusos. “E biquíni com canga?” (O prédio possui um espaço na cobertura, onde é permitido tomar sol). De acordo com o arquiteto Daniel Korn, 24 anos, a funcionária que o atendeu estava de bermuda. Mas não soube explicar quantos centímetros de pano nas laterais caracterizavam um short.

Basicamente, há dois perfis de moradores no Planalto. O primeiro, dos que se sentiram incomodados com as fantasias de Carnaval, é composto por idosos que vivem no prédio faz muitos anos; o segundo é integrado por moradores mais jovens, com idades entre 20 e 35 anos, que exercem profissões ligadas a comunicação, à arte, à estética, e em geral foram morar ali atraídos pela arquitetura modernista do prédio, uma das obras mais incensadas do empreiteiro João Artacho Jurado (1907-1983).

Os dois grupos sempre se estranharam: “Não se trata apenas do gigantesco choque geracional, mas também do cultural”, diz a socióloga Ariadne Natal, 30 anos. “O convívio poderia ser rico, mas na prática há uma série de confrontos.”

O perigo é a multa

Para Ariadne, a questão dos trajes no Carnaval deveria ser resolvida de forma pacífica, com prevenção ou argumentação, mas “a sociabilidade é regulada e politivista”. “Tudo aqui pode acabar em multa.”

Ela conta que a administração afixou um aviso na cobertura ameaçando quem subir no parapeito (abaixo). “O perigo é a multa e não a queda”, ela ri.

(…)

Homem de maiô

Correu no Planalto a informação de que um dos motivos que levaram à ressureição da norma dos trajes sumários foi o registro, no sábado de Carnaval, de um “homem de maiô” desembarcando do elevador do edifício. O produtor de eventos Risaldo Carvalho, 26 anos, não tem dúvida de que esse homem era ele: “Eu estava sozinho, ia encontrar meus amigos, quando o porteiro me parou. Eu senti que ele ficou sem graça de fazer aquele papel. Esses funcionários ficam num fogo cruzado, imagina. São a face do condomínio dizendo para pessoas que eles vêem todos os dias que a roupa delas não é adequada.”

Para Carvalho, no caso dele houve um componente homofóbico. “Nitidamente, ele considerou minha fantasia ‘feminina demais’. O problema é que essa regra é muito arbitrária e abre espaço para interpretações absurdas. Aquilo estragou minha noite.”

No dia seguinte, Carvalho foi para o bloco usando short, camiseta e vestido. “Entrei correndo para não passar de novo pelo constrangimento de ser parado.” Ele diz que foi ameaçado de receber uma notificação: “Pena que não mandaram”, diz ele. “Eu revidaria com um processo usando a lei (estadual) 10.948 (de 5 de novembro de 2001, que “dispõe sobre penalidades a serem aplicadas à prática de discriminação em razão da orientação sexual e dá outras providências”).