Você tomava? O “fortificante” das crianças que tinha teor alcoólico próximo ao de espumante

Há 25 anos, o governo federal proibiu que tônicos, fortificantes e estimuladores de apetite tivessem álcool na fórmula, medida que obrigou o Biotônico Fontoura a mudar sua composição. Antes da alteração, o produto tinha 9,5% de etanol, teor próximo ao de um vinho espumante e cerca do dobro de uma cerveja comum vendida no Brasil.
O farmacêutico Cândido Fontoura Silveira criou o fortificante em 1910, no interior de São Paulo, para tratar queixas de fraqueza da mulher, Elvira Siqueira de Castro. A fórmula reunia fosfatos, sais de ferro e vinho espanhol e, com o tempo, passou a circular na região de Bragança Paulista. Em 1916, Monteiro Lobato se aproximou de Fontoura, ajudou a popularizar o produto e teria sugerido o nome Biotônico, o “tônico da vida”.
A associação com Lobato ganhou força com Jeca Tatuzinho, versão do personagem Jeca Tatu usada em folhetos de educação sanitária e propaganda do fortificante. Entre 1926 e 1973, saíram 35 edições do folheto, com tiragens médias de um milhão de exemplares; o Almanaque Fontoura chegou a 100 milhões de exemplares impressos em 1982. Especialistas ouvidos pela BBC News Brasil afirmam que não há evidências científicas de eficácia do produto como estimulador de apetite; o componente com efeito comprovado era o sulfato ferroso, indicado em casos de anemia por deficiência de ferro, que deve ter confirmação por exames. A Hypera Pharma, dona da marca desde 2007, afirma que a retirada do álcool integrou atualizações para acompanhar avanços científicos e mudanças regulatórias.
