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Como não perceberam os alertas? Cenipa aponta sobrecarga mental na cabine da Voepass

Escombros do avião em Vinhedo (SP). Foto: Nelson Almeida/AFP

O relatório final do Cenipa sobre a queda do avião da Voepass em Vinhedo (SP), que matou 62 pessoas em agosto de 2024, aponta que a alta carga de trabalho na cabine reduziu a capacidade da tripulação de perceber e interpretar alertas emitidos pela aeronave. Divulgado na quinta-feira (23), o documento recorre aos conceitos de cegueira por desatenção e surdez por desatenção para explicar como avisos visuais e sonoros podem deixar de chegar à consciência em situações de sobrecarga.

Os fenômenos não aparecem como causas diretas do acidente, mas como mecanismos cognitivos que ajudam a entender por que determinados alertas podem não ter recebido atenção suficiente. De acordo com o Cenipa, os pilotos gerenciavam acúmulo de gelo, falhas no sistema de degelo, comunicações com a torre e procedimentos de aproximação, além de manterem conversas pessoais. O relatório cita que um sinal sobre perda de desempenho surgiu durante comunicações com o controle de tráfego, sem registro nas gravações da cabine de que os pilotos tenham discutido o aviso.

A psicóloga e doutora em neuropsiquiatria Maria da Conceição Correia Pereira, especialista em fatores humanos na aviação, afirma que os termos não indicam distração, negligência ou falta de preparo. “Quando a gente fala de fator humano, é importante destacar que isso não significa culpa ou negligência. A psicologia cognitiva e a neurociência mostram que o nosso cérebro possui limites naturais, especialmente para processar informações”, disse. Na cegueira por desatenção, a pessoa olha para uma informação, mas o cérebro prioriza outra tarefa; na surdez por desatenção, o som chega normalmente, mas não ganha significado diante da carga cognitiva elevada.

O relatório também aponta medidas para reduzir esse risco. Após o acidente, a fabricante ATR desenvolveu uma nova versão do sistema de monitoramento de desempenho da aeronave e criou um intervalo mínimo de 60 segundos antes que um alerta desapareça do painel, para evitar que avisos rápidos demais percam importância para a tripulação. A Voepass afirmou que a tripulação era experiente, capacitada e certificada, e que a empresa sempre adotou procedimentos de segurança alinhados a padrões internacionais.