Wagner Moura espera ódio da direita e crítica da esquerda ao seu filme sobre Marighella
Reportagem de Guilherme Genestreti na Folha.
Poucos dias atrás, conta Wagner Moura, a equipe de produção do filme “Marighella” recebeu um alerta. Pelas redes sociais, um grupo ameaçava invadir o set do longa que ele dirige sobre o mais famoso guerrilheiro que lutou contra a ditadura militar.
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Sob o calor de polarização tão aguda, uma preocupação indisfarçável ronda a produção. E Wagner Moura não esconde que esse é um filme “que tem lado”. “Queria lançar antes das eleições, mas não vai ficar pronto a tempo.”
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Sob a pele de Seu Jorge, Marighella surge e aponta o revólver para um motorista desavisado. O diretor dá ao ator as instruções. “Tem que botar pressão no carro”. Moura sobe a voz para mostrar o tom do que deseja: “Para o carro e aí vira, bang, bang, bang, e atira nos policiais”.
A cena entrega que se tratará de uma obra de ação. “É porque quero um filme que popularize a história dele e traga um exemplo de resistência, sobretudo para jovens negros”, afirma o realizador.
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Essa é uma das licenças da produção orçada em R$ 10 milhões da O2 Filmes, cofundada por Fernando Meirelles.
“Estou preparado para ser odiado pela direita e criticado pela esquerda.” O diretor diz achar inspiração em José Padilha, com quem trabalhou em “Tropa de Elite”, para fazer um “cinema popular, mas potente e com linguagem.”
Situado em algum lugar entre a hagiografia da esquerda e a demonização da direita, o guerrilheiro baiano Carlos Marighella teve uma vida que renderia vários filmes.
Ele comandou greve, foi detido por escrever poemas políticos, viveu as sucessivas proscrições do Partido Comunista Brasileiro, levou tiro da polícia num cinema cheio de crianças e criou o grupo de guerrilha urbana ALN (Ação Libertadora Nacional), que participou do sequestro ao embaixador americano Charles Elbrick em troca da libertação de presos políticos.
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A sua morte, em 1969, numa operação comandada pelo delegado Sérgio Paranhos Fleury, é um dos marcos do fim da guerrilha urbana. No local em que foi alvejado, na alameda Casa Branca, em São Paulo, hoje existe um marco de pedra na calçada, cercado por prédios de alto padrão.
Do catatau biográfico de mais de 700 páginas escrito pelo jornalista Mário Magalhães, uma das fontes do roteiro, o diretor decidiu enfocar seus cinco últimos anos.
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Na mesma semana em que Moura rodava cenas da cinebiografia do guerrilheiro que escreveu o manifesto “Por que Resisti à Prisão”, a sentença contra Lula era confirmada em segunda instância. Ele se diz “chocado” com os paralelos entre os períodos.
“Sempre achei boba a defesa cega que se faz do PT. Mas negar a Lula o direito de se candidatar é compactuar com o golpe”, afirma o ator e diretor, que se define como “à esquerda” do ex-presidente e da “política de conciliação que o elegeu e o derrubou”.
Moura espera que Lula seja candidato nas eleições, mas não quer votar nele, salvo “num segundo turno contra um golpista”. “A esquerda tem é que se reinventar, apresentar um novo projeto.”
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Em seu site de notícias, o grupo MBL faz campanha: “Pede pra sair, Wagner Moura” e chama de “escândalo” que seu filme sobre o “terrorista Marighella” tenha sido autorizado a captar os R$ 10 milhões por leis de incentivo.
“Os primeiros ataques sempre vêm contra os artistas, porque o nosso material é a política”, responde Moura.
Arte e política estão densamente imbricadas na obra. Salvo Marighella, os outros personagens militantes têm os nomes dos próprios atores que os interpretam. “Eles querem assinar o que estão dizendo. É uma galera engajada. Não tem nenhum coxa.”
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