Estadão ataca Lula por tentar reeleição em disputa difícil com fascista

Atualizado em 30 de março de 2026 às 9:20
O presidente Lula. Foto: Marcelo Camargo/Agência Brasil

Em editorial publicado nesta segunda-feira (30), o Estadão atacou o presidente Lula (PT) por buscar a reeleição em 2026 justamente num cenário de disputa apertada contra um nome ligado ao bolsonarismo. Sob o título “Lula encurralado é um perigo”, o jornal trata a tentativa de novo mandato do petista como sinal de fraqueza e desespero, enquanto suaviza o peso político do adversário que aparece no texto como principal ameaça eleitoral: o senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ), herdeiro direto de um campo marcado pelo golpismo e por práticas autoritárias.

O editorial abre dizendo que a pesquisa Atlas/Bloomberg teria “espalhado brasas onde já havia muito fogo nas aflições do presidente Luiz Inácio Lula da Silva em sua ambição pela reeleição” e sustenta que o levantamento expõe “um presidente de fôlego rarefeito”. Em outro trecho, o jornal afirma que o empate técnico entre Lula e Flávio Bolsonaro no segundo turno seria “politicamente devastador” para o presidente, preferindo construir uma narrativa de decadência petista em vez de enfrentar o significado de ver um representante do bolsonarismo competitivo na corrida presidencial.

Ao longo do texto, o Estadão usa expressões carregadas para reforçar esse enquadramento. Fala em “janela do desespero para Lula e o PT”, descreve o governo como uma “administração errática” marcada por “mediocridade” e afirma que a reeleição de Lula “deixou de ser uma hipótese provável”. Mais do que uma leitura eleitoral, o editorial atua como peça de pressão política, ao sugerir que uma eventual reação do governo diante das dificuldades poderia resultar em “medidas de apelo imediato”, ampliação de gastos “de forma temerária” e “o populismo de sempre”.

O Estadão trata como ameaça o fato de Lula tentar permanecer no poder por meio do voto, mas não dedica o mesmo tom de alarme ao avanço de Flávio Bolsonaro, nome vinculado a um projeto político que atacou as instituições, incentivou o extremismo e ajudou a corroer o debate democrático no país. Em vez de encarar esse histórico, o jornal prefere transformar Lula no centro do perigo e deslocar o foco do que realmente está em jogo em 2026.

O editorial também tenta associar Lula a um ambiente geral de desgaste por meio de uma colagem de crises, escândalos e insatisfações, como se tudo convergisse automaticamente para uma inviabilidade eleitoral. É um expediente conhecido: ampliar a sensação de colapso, sugerir isolamento e produzir a ideia de que o presidente perdeu a conexão com o país:

“Convém acrescentar um elemento corrosivo: a sombra da corrupção. Escândalos como o do INSS reavivam memórias que o lulopetismo jamais apagou. Mesmo no caso do Banco Master, que democraticamente atinge nomes do bolsonarismo, da direita, do Centrão e até mesmo do STF, Lula e seu partido se veem claramente contaminados – sem ignorar que o PT da Bahia é citado continuamente na lista de relações mal explicadas. Ainda que episódios específicos não tenham, isoladamente, o poder de definir uma eleição, eles reforçam um ambiente de desconfiança que pesa, sobretudo, sobre um partido cuja história recente é indissociável de escândalos de grande magnitude”.

O Estadão recorre a uma fórmula do conservadorismo brasileiro: apresentar qualquer aproximação com a base popular, defesa do papel do Estado ou combate à desigualdade como sinal de radicalização. Já o bolsonarismo, mesmo com sua carga autoritária, aparece diluído como alternativa eleitoral legítima, quase banal.

“Diante desse cenário, a reação do presidente tem sido preocupante para os petistas. Em vez de ampliar o diálogo, Lula se fechou ainda mais à esquerda, apostando numa retórica de confronto social e em pautas de forte apelo ideológico, mas baixa capacidade de expansão eleitoral. O resultado é um eleitorado fiel, porém limitado, e insuficiente para garantir vitória numa disputa que será decidida na margem. Como apontam analistas, algo entre 3% e 4% do eleitorado deve decidir a eleição de 2026. São eleitores voláteis e sensíveis ao desempenho do governo. É justamente nesse terreno que Lula encontra suas maiores dificuldades”, diz o jornal.

Se havia apreensão no entorno do presidente, os novos dados tendem a acionar outro estágio: o desespero. Não será surpresa se o governo intensificar medidas de apelo imediato, expandir gastos de forma temerária ou radicalizar o discurso para reverter a tendência adversa. O populismo de sempre, enfim. Há, contudo, limites para isso. Eleições exigem credibilidade, diálogo e resultados. Hoje, Lula tem dificuldade em oferecer os três. E é por isso que sua reeleição deixou de ser uma hipótese provável, e a campanha será uma disputa incerta e perigosamente inclinada contra ele”.

Augusto de Sousa
Augusto de Sousa, 31 anos. É formado em jornalismo e atua como repórter do DCM desde de 2023. Andreense, apaixonado por futebol, frequentador assíduo de estádios e tem sempre um trocadilho de qualidade duvidosa na ponta da língua.