
O jornal O Estado de S. Paulo recorreu à Trustee DTVM em parte da operação montada para captar R$ 142,5 milhões no mercado e tentar aliviar a crise financeira da empresa, que acumulava prejuízo de R$ 159 milhões. O ponto mais sensível do caso é que a gestora escolhida para atuar como agente fiduciário tem como controlador Maurício Quadrado, sócio de Daniel Vorcaro no Banco Master e em outros negócios, além de ser alvo de investigações da Polícia Federal por suspeitas de lavagem de dinheiro e gestão fraudulenta.
Quando foi contratada pelo Estadão, em 25 de março de 2024, Maurício Quadrado já havia sofrido bloqueio de bens em uma investigação da PF sobre suposto pagamento de propina a funcionários da Caixa em troca da liberação de empréstimos. Hoje, de acordo com informações do Metrópoles, ele e a Trustee também aparecem sob investigação em apurações ligadas ao Banco Master e a um esquema de ocultação de dinheiro associado à adulteração de combustíveis, operado inclusive por integrantes do PCC.
Em 2023, o Estadão registrava um prejuízo equivalente ao dobro do caixa disponível, segundo balanço citado no texto. Diante desse quadro, a empresa optou por captar recursos com empresários em vez de buscar financiamento direto em instituições financeiras.
No ano seguinte, a operação foi estruturada em duas emissões de debêntures: uma primeira, de R$ 45 milhões, em março de 2024, e outra de R$ 97,5 milhões, em maio do mesmo ano. A contratação da Trustee foi aprovada em assembleia presidida por Francisco Mesquita Neto.

Como agente fiduciário, a Trustee assumiu a função de intermediar a relação entre quem vendeu e quem comprou as debêntures, fiscalizando pagamento de juros, amortizações, indicadores de saúde financeira da empresa, uso dos recursos captados e cumprimento das regras da CVM. Na prática, trata-se de um posto estratégico dentro de uma operação desenhada para socorrer as finanças do jornal.
Além dos R$ 45 milhões captados com apoio da Trustee, o Estadão levantou outros R$ 97,5 milhões fora do mercado financeiro regulamentado. Segundo a ata da assembleia de 15 de maio, os recursos vieram da Santalice Administração Ltda., do grupo Cutrale, que aportou R$ 15 milhões, e do Província Fundo de Investimento em Participações Multiestratégia, que colocou R$ 82,5 milhões.
O fundo é gerido pela Galápagos Capital. Depois do aporte, Marco Bologna virou integrante do Conselho de Administração do jornal, e outros investidores também passaram a indicar representantes em instâncias decisórias da empresa. Segundo o texto, esse mesmo grupo de financiadores também exigiu que o comando executivo do Estadão deixasse de ser ocupado por um nome da família Mesquita e passasse a ser exercido por um profissional de mercado.
Mesmo com a entrada do dinheiro, o último balanço do Estadão, publicado em 9 de abril, apontou novo prejuízo de R$ 16,8 milhões em 2025. Os empréstimos só começarão a repercutir em cobrança em 2034, prazo que pode ser prorrogado até 2044.

Em 2024, Erick Bretas assumiu a presidência executiva do jornal. Questionado sobre a contratação da Trustee, ele afirmou que “o serviço de agente fiduciário é dos mais simples do mercado de capitais, quase equivalente ao de um despachante”.
“Eles fazem requerimentos, encaminham serviços burocráticos. Os problemas da Trustee, até onde sabemos, foram na gestão de fundos, não na prestação desse básico serviço de agente fiduciário”, disse. “O Estadão é uma empresa entre tantas outras 100% idôneas que usam esse tipo de serviço quando emitem debêntures.”

Bretas tem passagem pelo Grupo Globo, onde foi diretor do Globoplay. Ele dirigia a área de produtos digitais e canais pagos quando saiu da empresa após 26 anos. Nas redes sociais, o CEO do Estadão ataca diariamente o Supremo Tribunal Federal, com foco especial na relação de ministros da Corte, como Alexandre de Moraes e Dias Toffoli, com o Banco Master.
