Estadão sai em defesa de Zema por fake news contra STF

Atualizado em 23 de abril de 2026 às 12:47
Gilmar Mendes e Romeu Zema. Foto: reprodução

Em editorial publicado nesta quinta-feira (23), o Estadão saiu em defesa do ex-governador de Minas Gerais Romeu Zema (Novo), escancarando uma escolha política: tratar como simples “discurso político” um ataque produzido com inteligência artificial contra ministros do Supremo Tribunal Federal (STF) e, ao mesmo tempo, transformar a reação institucional da Corte em prova de “abuso de poder”.

Ao adotar essa linha, o jornal acaba oferecendo verniz liberal a uma prática típica da extrema direita: usar desinformação, caricatura agressiva e conteúdo sintético para corroer a legitimidade das instituições.

No texto intitulado “A criminalização da democracia”, o Estadão afirma que “o que ameaça o STF e a democracia não são os discursos políticos, é o abuso de poder” e sustenta que Zema apenas publicou vídeos “satíricos”.

No editorial, o jornal questionou “até que ponto a PGR e a mais alta corte do País estão dispostas a proteger a liberdade de expressão como pilar do Estado Democrático de Direito?”. De acordo com o texto, “se Zema passar à condição kafkiana de investigado sem ter cometido crime algum, restará evidente que tanto a PGR como o STF estão dispostos a sacrificar o mais cívico dos direitos individuais sob o altar dos interesses particulares de Suas Excelências”.

O problema dessa tese é que ela apaga o elemento central do caso: não se trata só de ironia ou crítica dura ao Judiciário, mas de um vídeo que simula diálogos e associa ministros a condutas ilícitas no contexto do escândalo do Banco Master. Foi justamente esse caráter que levou Gilmar Mendes a pedir a Alexandre de Moraes a inclusão de Zema no inquérito das fake news.

Manchete do Estadão

Ao escrever que Zema “não inventou fatos. Ridicularizou-os”, o editorial tenta reduzir o impacto político e informacional do conteúdo. Mas essa é uma falsa simplificação. Uma charge ou sátira tradicional não opera do mesmo modo que um vídeo sintético, com aparência de realidade, produzido para circular em massa nas redes sociais e reforçar suspeitas já exploradas pela direita radical contra o STF.

Nesse ponto, o Estadão não está só defendendo liberdade de expressão: está normalizando uma técnica de manipulação que embaralha crítica política com fabricação de cena. Segundo o veículo, defendendo o próprio interesse, “quando o STF age para proteger seus membros em vez de proteger a Constituição, vai no sentido diametralmente oposto, tisnando a confiança que alicerça sua autoridade”.

O próprio Supremo tem decisões e iniciativas públicas voltadas ao combate à desinformação e aos ataques organizados contra a Corte. Em 2020, a maioria dos ministros confirmou a legalidade do inquérito das fake news. Em 2021, o tribunal criou um programa específico para enfrentar fake news e discursos de ódio contra o STF.

Além disso, a Corte já fixou entendimento de que a liberdade de expressão não protege acusações falsas divulgadas com dolo ou grave negligência. Ignorar esse contexto, como faz o editorial, significa tratar como censura qualquer tentativa de reagir à erosão deliberada da confiança institucional.

Por fim, o Estadão cobrou o PGR Paulo Gonet que, “ao examinar o caso, a PGR deve rejeitar a inclusão de Zema no inquérito das fake news, pois não há crime a apurar, e sim um discurso político a ser resguardado”.

Augusto de Sousa
Augusto de Sousa, 31 anos. É formado em jornalismo e atua como repórter do DCM desde de 2023. Andreense, apaixonado por futebol, frequentador assíduo de estádios e tem sempre um trocadilho de qualidade duvidosa na ponta da língua.