Estratégia do mercado? Por que “Haddad presidente” cresceu nas apostas

Atualizado em 4 de abril de 2026 às 13:35
Fernando Haddad, ex-ministro da Fazenda. Foto: reprodução

Fernando Haddad voltou ao centro das especulações sobre a disputa presidencial de 2026 mesmo deixar o Ministério da Fazenda e confirmar que irá concorrer ao governo de São Paulo. Segundo avaliação do cientista político Dawisson Belém Lopes, professor associado de Política Internacional e Comparada da UFMG, o ex-ministro cresceu no mercado de apostas para a Presidência ao mesmo tempo em que o senador Flávio Bolsonaro passou a perder força nesse ambiente.

A movimentação, para o professor, ajuda a revelar como interesses do sistema financeiro e da grande imprensa operam para influenciar o debate eleitoral antes mesmo da definição formal das candidaturas.

Em publicação nas redes sociais, Dawisson destacou a mudança recente nesse tabuleiro. “Nas especulações da bolsa de apostas, a novidade é Fernando Haddad, que já alcança o 3o lugar entre os favoritos. Flávio Bolsonaro começou a fazer água, por motivos que nem ouso sondar”, escreveu no X.

A leitura do professor sugere que a ascensão de Haddad nas apostas não pode ser vista apenas como reflexo espontâneo de preferência eleitoral, mas também como sintoma de uma engrenagem mais ampla de produção de expectativas em torno de nomes considerados viáveis pelo mercado.

A teoria implica em uma tentativa de convencimento de que Haddad seria um candidato da esquerda mais palpável para que pudesse substituir o presidente Lula (PT), em um cenário semelhante ao ocorrido nos Estados Unidos, em 2024, quando os democratas trocaram Joe Biden por Kamala Harris e abriu caminho para a vitória de Donald Trump.

No início da semana, Dawisson já havia comentado a estratégia por trás da inclusão de Haddad em pesquisas eleitorais encomendadas por agentes financeiros. Ao compartilhar uma manchete de Lauro Jardim no jornal O Globo, segundo a qual “bancos encomendam pesquisas com Haddad no lugar de Lula e resultado surpreende”, o professor afirmou que esse tipo de operação segue um roteiro previsível e recorrente no país.

Para ele, trata-se de um mecanismo que começa no sistema financeiro, passa pelos institutos de pesquisa, ganha impulso na imprensa e acaba influenciando o comportamento de marqueteiros, influenciadores e agentes da política profissional.

Ao explicar esse processo, Dawisson escreveu: “Manchete ilustra bem como opera o ecossistema pesquiseiro no Brasil. Em 5 passos, funciona assim:

1. Agentes do sistema financeiro encomendam, a partir de seus interesses concretos, a prospecção de uma candidatura presidencial;

2. Empresa privada que conduz pesquisa de opinião (chamada pelo eufemismo de ‘Instituto’) inclui candidatura no cardápio e realiza sondagem eleitoral;

3. Colunista da grande imprensa, sob a alegação do interesse jornalístico, divulga ‘rumores’ e cria factoide sensacionalista (‘resultado surpreende’);

4. Marqueteiros e influenciadores entram em campo, buscando capitalizar em cima da realidade projetada e amplificar tendências;

5. Atores da política profissional (partidos, políticos de carreira, grupos de interesse) começam a redesenhar suas estratégias a partir dos novos elementos artificialmente inseridos no contexto.

O loop acima se repete infinitamente ao longo de 4 anos. Até os financiadores (e seus colaboradores) encontrarem a opção ideal para constar na cédula eleitoral”.

Augusto de Sousa
Augusto de Sousa, 31 anos. É formado em jornalismo e atua como repórter do DCM desde de 2023. Andreense, apaixonado por futebol, frequentador assíduo de estádios e tem sempre um trocadilho de qualidade duvidosa na ponta da língua.