Estupro, extorsão e tortura: Justiça aceita denúncia contra pai de santo primo de Daniel Vorcaro

Atualizado em 19 de janeiro de 2026 às 21:54
pai de santo Henrique Vorcaro Garcia sorrindo para a câmera
O pai de santo Henrique Vorcaro Garcia – Reprodução

A 3ª Vara Criminal de Belo Horizonte recebeu, na última quarta-feira (14), a denúncia do Ministério Público de Minas Gerais contra o policial civil e pai de santo Henrique Vorcaro Garcia, de 54 anos. Outras cinco pessoas também foram denunciadas. O religioso é primo de Daniel Vorcaro, fundador do Banco Master, que é investigado em outro inquérito por suspeita de fraude bancária.

Segundo o MP, ele é apontado como líder de uma associação criminosa que atuava em terreiros de umbanda identificados como Ilê Axé Guian, com endereços nos bairros Santa Efigênia, na região Leste, e Sion, na região Centro-Sul da capital mineira.

As acusações vieram a público inicialmente em novembro do ano passado, após reportagens da Band Minas com base em relatos de frequentadores dos terreiros. De acordo com a denúncia, o grupo utilizava a estrutura religiosa e a influência espiritual exercida sobre os fiéis para obter vantagens financeiras e praticar crimes contra pessoas descritas como em situação de vulnerabilidade emocional e econômica.

Entre os crimes atribuídos aos denunciados estão associação criminosa, estupro, extorsão, estelionato, posse ilegal de arma de fogo e tortura. O Ministério Público afirma que os atos incluíam abusos sexuais apresentados como rituais religiosos, cobranças de valores elevados por serviços espirituais e ameaças de morte física ou espiritual.

Além de Henrique Vorcaro, foram denunciadas Flávia Miriam Leite, apontada como sua principal colaboradora, e familiares do pai de santo, entre eles a mãe, uma irmã e a esposa. Henrique e Flávia chegaram a ser presos preventivamente em novembro, mas, como o processo tramita sob segredo de Justiça, não há informações públicas sobre a situação atual dos denunciados.

Henrique Vorcaro no centro de montagem, falando e gesticulando para a câmera
Henrique Vorcaro – Reprodução

Vítimas descrevem abusos, ameaças e tortura em rituais no terreiro

Em depoimentos à polícia e à imprensa, vítimas detalharam a dinâmica dos abusos atribuídos a Henrique Vorcaro Garcia dentro do terreiro Omolokô Ilê Axé Guian, no bairro Santa Efigênia, na Região Leste de Belo Horizonte.

Uma das mulheres relatou que os episódios ocorriam em uma sala reservada, onde, segundo ela, o pai de santo fechava a porta, colocava música e chamava a assistente para, então, iniciar os abusos sexuais. O relato integra o conjunto de denúncias que levaram ao afastamento judicial de Henrique das atividades religiosas e à sua prisão.

Além dos abusos, as vítimas afirmaram que o pai de santo promovia humilhações públicas, fazia cobranças financeiras frequentes e recorria a ameaças para manter controle sobre os frequentadores do terreiro.

Testemunhas relataram à polícia episódios de intimidação, inclusive com a exibição de arma de fogo, como forma de gerar medo e impedir denúncias. Os relatos também mencionam a participação de Flávia Miriam Lima, apontada como auxiliar direta de Henrique e igualmente presa no âmbito da investigação.

Uma das vítimas, de 46 anos, que pediu para não ser identificada, afirmou que os abusos eram apresentados como parte de rituais de limpeza espiritual. “A princípio, você acredita nas coisas que ele fala. Ele te convence que aquilo é certo, que aquilo é real, que aquilo é válido. Depois que a gente toma consciência que não havia trabalho espiritual, não havia espiritualidade alguma ali, não havia nada”, declarou. Segundo ela, a suposta autoridade religiosa era usada para justificar os atos e silenciar questionamentos.

Outro depoimento citado na investigação é o de uma jovem de 22 anos, que relatou ter sido submetida a agressões e tortura em fevereiro de 2024. De acordo com o relato, durante uma sessão de desenvolvimento mediúnico, ela teve o pé e a perna direita queimados com álcool e fogo.

A vítima também afirmou que os médiuns eram obrigados a participar de rituais pagos, como o chamado “descarrego de pólvora”, cobrado em cerca de R$ 100 a cada dois meses. “Eles não me deram nenhum tipo de apoio, ajuda”, afirmou. A defesa de Henrique Vorcaro e de sua assistente informou que está adotando medidas para sustentar a alegada inocência religiosa dos acusados.

Jessica Alexandrino
Jessica Alexandrino é jornalista e trabalha no DCM desde 2022. Sempre gostou muito de escrever e decidiu que profissão queria seguir antes mesmo de ingressar no Ensino Médio. Tem passagens por outros portais de notícias e emissoras de TV, mas nas horas vagas gosta de viajar, assistir novelas e jogar tênis.