“Eu deixei o catolicismo quando saí do armário — e o papa não me convence a voltar”

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Por Michael Arceneaux, no Guardian

 

Ao falar sobre a importância de sua fé — especialmente em meio à tragédia —, o vice-presidente Joe Biden disse algo ao apresentador de TV Stephen Colbert que me fez sentir tanto empatia quanto inveja.

“Todas as coisas boas que aconteceram foram em torno da cultura e da teologia da minha religião”, falou Biden.

Como Biden e Colbert, eu fui criado como católico e, por muitos anos, compartilhei uma postura semelhante na fé. Ela estava lá quando eu me senti triunfante e quando me senti absolutamente terrível (o que aconteceu muito mais vezes do que qualquer criança deveria experimentar). Eu era tão devoto que estava quase seguindo o sacerdócio.

Nessa mesma época em que eu estava tão convicto da minha fé que um padre achou que eu seria um bom colega, eu também vivia em profunda negação de minha homossexualidade. Nunca considerei seriamente o sacerdócio, mas a ideia me fez perceber como a igreja onde eu encontrava conforto era também um lugar para viver uma vida que não envolvia grandes quantidades de culpa.

Então, eu deixei  a igreja, o que não é uma escolha incomum entre os americanos adultos. Um estudo recente do Pew Research Center mostra que, entre todos os adultos americanos católicos, 52% deixaram a Igreja em algum momento de suas vidas.

O estudo diz que, destes, cerca de um quinto encontra seu caminho de volta. Mas a maioria, como eu, nunca mais volta. Se você, ao contrário de Colbert e Biden, não é um homem branco cisgênero, a cultura não está falando com você.

Desde a eleição de papa Francisco em 2013, tem havido muita discussão sobre se ele pode ou não trazer de volta ao rebanho pessoas como eu, no que se convencionou chamar “Efeito Papa Francisco”. Supostamente, um líder mais suave e moderno.

Em uma entrevista recente com o padre Thomas Rosica, assessor de imprensa da Santa Sé, o próprio Colbert disse que espera que aqueles que há muito abandonaram a fé voltem. Colbert, que ensinava catecismo, se refere a Francisco como “Papa da Esperança”.

Há de fato um monte de motivos para os liberais e as minorias gostarem de Francisco. Ele aborda questões como o divórcio, combate as alterações climáticas e defende os pobres. Mesmo assim, quando se trata de questões LGBT e dos direitos reprodutivos, a conversa se concentra mais sobre a tolerância real.

Foi impactante ouvir Francisco declarar: “Se alguém é gay e procura o Senhor e tem boa vontade, quem sou eu para julgar?” E o fato de que ele se reuniu com ativistas LGBT é importante. No entanto, um dia depois de uma marcha do orgulho gay em Roma em junho, o papa salientou a importância de as crianças terem pais heterossexuais.

No início deste mês, o Vaticano teria dito a um bispo espanhol que as pessoas transexuais não podem ser padrinhos porque “mostram publicamente uma atitude contrária à exigência moral para resolver o problema de identidade sexual de alguém de acordo com a verdade do sexo.”

Depois, há a questão do aborto. Em tese, o fato do papa Francisco facilitar o caminho para a absolvição de mulheres que tiveram aborto sugere simpatia com as mulheres. Mas, como Jill Filipovic observa no New York Times, “ao invés de um passo adiante para as mulheres, é uma jogada de relações públicas que encobre os problemas reais que as posições da Igreja anti-contracepção e anti-aborto causam às mulheres ao redor do mundo.”

O mesmo vale para o tratamento da comunidade LGBT do Vaticano. O papa Francisco é uma espécie de versão mais bem executada de George W Bush, um “conservador compassivo.” É a mesma condenação, só que agora servida de maneira mais gentil.

Com mais foco na situação dos pobres, eu imagino que Francisco fará algo de bom em sua posição, mas o quão reformador ele realmente é merece mais análise. Até agora, ele certamente não é reformador o suficiente para me levar de volta à missa.

Eu sou negro e gay, eu respeito os direitos reprodutivos das mulheres, e eu não acredito que ninguém deva ser obrigado a viver de maneira restritiva apenas porque o gênero não se encaixa na norma. Eu quero uma cultura e uma teologia que falem de tudo isso. A Igreja Católica do Santo Padre Francisco ainda não é uma escolha.

 

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