Eu, negro, sobrevivente das estatísticas no Brasil

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O risco de um jovem negro de 12 a 29 anos ser assassinado no Brasil é 2,5 vezes maior do que para um jovem branco, de acordo com os números do relatório do Índice de Vulnerabilidade Juvenil à Violência e Desigualdade Racial 2014. O estado da Paraíba, onde o risco relativo é 13 vezes maior, é o primeiro na lista do estudo elaborado em parceria pela Secretaria Nacional de Juventude (SNJ), Fórum Brasileiro de Segurança Pública, Ministério da Justiça e Unesco.

Considerando que no Espírito Santo, onde nasci e cresci, a chance é quase seis vezes maior e que estou na casa dos 30, sou um sobrevivente. Porém, ao contrário dos entusiastas da meritocracia, não sinto orgulho por ter ficado de fora desta estatística mórbida.

Saber que o tom escuro da pele aumenta o risco de morrer jovem incomoda. Igualmente angustiante é não ver perspectivas de melhorias a curto prazo. Embora seja fácil encontrar na escravidão as raízes históricas dessa vulnerabilidade, as razões atuais são múltiplas e envolvem desigualdade social, falta de estrutura em bairros da periferia e a guerra obtusa às drogas, questões que só serão resolvidas com muita boa vontade política e compromisso dos cidadãos em criar uma sociedade mais justa.

Por outro lado, há parlamentares trabalhando para aumentar a letalidade entre a juventude negra, por meio de bandeiras como a redução da maioridade penal e o afrouxamento das regras para obtenção do porte de arma. Eles têm o apoio dos ditos cidadãos de bem, que acreditam no mito da democracia racial e acham que a única solução para a violência urbana é encher as ruas de polícia.

Ações recentes como implantação de cotas raciais para facilitar o acesso de negros ao ensino superior e a cargos no funcionalismo público poderão mudar este panorama no futuro, mas nem a Pollyanna do livro infantil acreditaria que só o fato de cursar faculdade livra a pele do jovem negro.

A história absurda de Alcides do Nascimento Lins ensina que o diploma é inócuo contra armas de fogo. Natural de Pernambuco, ficou conhecido nacionalmente em 2007 depois de ingressar no curso de Biomedicina da Universidade Federal de Pernambuco.

De família pobre, filho de uma ex-catadora de material reciclável, foi aprovado na UFPE em primeiro lugar entre os alunos de escola pública, contrariando as estatísticas que o empurravam para longe da educação superior. Não teve o mesmo êxito para vencer os números cruéis da violência.

Em 2010 foi morto na própria casa, enquanto estudava. Dois criminosos invadiram a residência procurando por um vizinho do universitário. Como Alcides não soube responder, foi baleado. Tinha 22 anos. No estado onde Alcides morava o jovem negro tem 11,5 mais risco de morrer que um branco.

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