
Há muito tempo, desde o final dos anos 90, não é preciso passaporte para entrar no Paraguai e em qualquer país do Mercosul. Basta a carteira de identidade.
Em 1998, fui enviado a Assunção por Zero Hora para ver de perto o clima tenso criado com a libertação de Lino Oviedo.
O general agitador havia sido libertado depois de tentar um golpe contra o presidente Juan Carlos Wasmosy. O golpista fazia reuniões na sede do partido Colorado, reencontrando bases para um dia concorrer a presidente, como tentou mais adiante e perdeu.
Vou contar a situação que vivi naquele 1998 no Aeroporto Internacional Silvio Pettirossi, de Luque, na Grande Assunção, inspirado agora pelas notícias sobre a prisão de Silvinei Vasques com passaporte falso. O golpista entrou, claro, por terra em Assunção.
Estava tentando usar passaporte falso no aeroporto, quando foi para o embarque com a intenção de seguir para El Salvador. Vasques foi preso na tentativa de saída, não na entrada.
Pois em 1998, com passaporte vencido, eu fiz o que muita gente fazia: puxei minha carteira de identidade, quando me apresentei na imigração. E passei por um vexame.
Minha CI era do final dos anos 70. Minha cara era de alguém com 20 anos menos, era um cabeludo e barbudo. O agente pegou minha identidade, me olhou e percebeu que, além de antiga, estava bem prejudicada.
Uma ponta do plástico, descolada, abria uma boca de jacaré. O homem pegou essa boca, esgarçou e separou a plastificação em duas partes. Tirou a identidade de dentro e jogou o documento para um lado e o plástico para outro.

Imagem: Cedido ao UOL
Esculhambou minha CI. Perguntou se eu tinha passaporte. Eu gelei e disse que não. Não me olhou, não disse uma palavra. Só vi sua cara de malvado e o sinal com a mão para que eu saísse dali e fosse em frente. Como se dissesse: vocês, brasileiros, estão pensando o quê?
Eu havia sido humilhado. Tentei consertar o estrago e recoloquei o papel no plástico, temendo que o sujeito me chamasse de volta.
Fiquei três dias sob tensão no Paraguai, porque a sensação era de que a qualquer momento algo muito grave poderia acontecer no país com Oviedo solto e agitando.
Na saída, cometi o erro de não levar, na carteira ou na bolsa com o material de trabalho, o papelzinho de registro de entrada, que se preenche no voo.
Um registro da imigração que não é exigido na saída em muitos países, entre os quais os Estados Unidos que expulsam imigrantes. Eu precisava provar que havia entrado legalmente e que estava saindo.
No Paraguai, precisava. E onde estava o papel? Sob tensão, atrasado, perguntei ao homem do guichê se eu poderia sair sem o papel. Como se insinuasse que no Paraguai pode tudo.
Não podia. Mandaram que eu saísse da fila, fui para um canto, abri a mala e, não sei como, depois de revirar tudo, encontrei o papel no bolso de uma camisa usada. E lá fui eu de novo: me apresentei com a carteira de identidade esfacelada.
Conseguir sair, com a sensação estranha de que havia escapado, na entrada e na saída, de ser retido no Paraguai, o país estigmatizado como emissor de documentos falsos, esconderijo de bandidos e fabricante de produtos piratas.
O que sei é que meses depois fui tirar uma identidade nova, a mesma que tenho até hoje. Quase vinte anos depois. E que pretendo renovar, se um dia retornar a Assunção, a capital de um país que hoje compete com o Uruguai como o mais tranquilo da América do Sul.
Que achou dessa, Silvinei Vasques?