“Eu sou porque você é”: a lição deixada pela partida de Chadwick Boseman. Por Sacramento

Chadwick Boseman e seu Pantera Negra. Foto: Reprodução/Instagram

A morte de Chadwick Boseman chegou a mim de supetão, na forma de um tweet da agência de notícias Associated Press postado dois minutos antes. Ainda sem querer acreditar, compartilhei a notícia com alguns amigos, junto a impropérios destinados ao Deus misericordioso do cristianismo, capaz de levar o astro de Pantera Negra e curar velhacos de facadas e enfermidades.

Após aceitar a perda, fui vivenciar o luto nas redes sociais. Não tardou para a figura do ator reinar no feed do Instagram. De intelectuais a ídolos do rap, passando pelos meus amigos e amigas, foram muitas as homenagens ao ídolo.

MC Sofia, Sílvio Almeida, Lázaro Ramos, Taís Araújo, o pagodeiro Salgadinho, Tia Má, as atrizes Cris Vianna, Dandara Mariana e Luana Xavier, o ator Rafael Zulu, Anderson Silva, Bethania Gomes, filha da referência do movimento negro Beatriz Nascimento, Snoop Dogg e Spike Lee foram alguns dos que postaram fotos de Boseman, a maioria delas na figura do herói T’Challa, o Pantera Negra.

Enquanto deslizava os dedos pela tela do celular, senti uma conexão entre mim e aquelas pessoas com trajetórias tão diferentes uma das outras. Éramos, naquele momento, membros de uma comunidade a lamentar a morte do amigo em comum.

Lembrei do lema “nossos passos vêm de longe” e me veio em mente que os vínculos transcendem a admiração em comum com Chadwick Boseman. Vêm de séculos passados, quando nossos ancestrais foram arrancados da África e escravizados nas américas.

Enquanto meus pensamentos divagavam sobre as origens que me conectam a Michelle Obama, lembrei da filosofia ubuntu, uma preciosidade do continente africano. Embora possa mudar o rumo da humanidade, o ubuntu não desperta a atenção das grandes potências como o metal vibranium da fictícia Wakanda.

Em linhas gerais, ubuntu pode ser resumido pela ideia do “eu sou porque você é” e se baseia em valores como solidariedade e compaixão. O conceito tem origem nos povos bantus, grupo étnico da África Subsaariana e ajudou a moldar o pensamento de dois líderes na luta contra o apartheid da África do Sul: Nelson Mandela e o arcebispo Desmond Tutu.

De acordo com Tutu, autor de uma teologia ubuntu, para sermos humanos precisamos reconhecer a responsabilidade que temos uns com os outros. O ubuntu se contrapõe ao individualismo e prioriza o bem estar da comunidade, porque segundo o conceito, se o outro sofre, sofrerei junto, assim como o bem que o outro recebe também é bom para mim.

Estamos todos conectados, diz a visão ubuntu. Pude sentir esta conexão quando vibrei com o sucesso do filme Pantera Negra. Agora, unido a tantas outras pessoas no luto pela morte de Boseman, percebo-a com mais intensidade.

Para mim, esta foi a última lição do astro.

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