EUA plantam notícias sobre “táticas iranianas” e “drones” em Cuba para justificar ataque

Atualizado em 17 de maio de 2026 às 17:31
Trump e Rubio

O governo dos Estados Unidos voltou a recorrer a um roteiro conhecido da política externa americana: divulgar relatos alarmistas sobre uma suposta ameaça militar estrangeira enquanto a própria inteligência relativiza o risco real.

Desta vez, o alvo é Cuba. Reportagem publicada pelo site Axios afirma que Havana teria adquirido mais de 300 drones militares da Rússia e do Irã e discutido cenários de ataque à base americana de Guantánamo, embarcações dos EUA e até Key West, na Flórida.

O problema é que a própria matéria desmonta a narrativa central ao admitir que “funcionários do governo dos EUA não acreditam que Cuba represente uma ameaça iminente ou esteja planejando ativamente ataques”. O texto ainda reconhece que as alegações se baseiam em inteligência sem verificação independente.

O discurso lembra diretamente a campanha feita por Washington antes da invasão do Iraque em 2003, quando informações não comprovadas sobre armas de destruição em massa foram usadas para criar ambiente político e midiático favorável à guerra. Agora, a retórica reaparece em torno da presença de drones iranianos e russos em território cubano e da proximidade da ilha com o território americano.

Segundo a publicação, o diretor da CIA, John Ratcliffe, viajou a Cuba e advertiu autoridades locais contra qualquer hostilidade. O texto também afirma que o governo Trump avalia novas sanções e pretende ampliar a pressão sobre Havana. Ao mesmo tempo, integrantes do governo americano descrevem Cuba como uma “plataforma para adversários” e falam em “ameaça crescente”.

O Axios reconhece que Cuba não possui capacidade militar comparável à crise dos mísseis de 1962 e sequer teria aviões de combate operacionais em condições adequadas de voo. Um alto funcionário resumiu o cenário: “Ninguém está preocupado com caças vindo de Cuba”.

Ainda assim, a narrativa é construída em torno da ideia de que a ilha estaria aprendendo “táticas iranianas” e se preparando para uma eventual deterioração das relações com Washington. O texto também tenta associar Cuba à guerra da Ucrânia, ao Irã e à Rússia para ampliar o clima de ameaça internacional.

O governo cubano respondeu afirmando que qualquer país possui direito à autodefesa previsto na Carta da ONU e acusou os Estados Unidos de fabricar pretextos para agressões. “Não desperdiçam um único momento fabricando pretextos, criando e espalhando falsidades”, declarou a embaixada cubana.

Kiko Nogueira
Diretor do Diário do Centro do Mundo. Jornalista e músico. Foi fundador e diretor de redação da Revista Alfa; editor da Veja São Paulo; diretor de redação da Viagem e Turismo e do Guia Quatro Rodas.