
Países ocidentais registraram piora no Índice de Percepção da Corrupção (IPC) de 2025, com queda de pontuação em democracias consolidadas e retração das lideranças no combate ao problema, segundo relatório divulgado nesta terça-feira (10) pela ONG Transparência Internacional.
O levantamento aponta avanço da corrupção percebida no setor público em nações tradicionalmente bem avaliadas, como Estados Unidos, Canadá, Reino Unido e Suécia.
A 31ª edição do IPC avaliou mais de 180 países e territórios e mostrou redução expressiva no número de nações com pontuação acima de 80 — faixa considerada indicativa de governança limpa. Há dez anos, 12 países estavam nesse grupo; em 2025, apenas cinco. A escala do índice vai de 0, para países percebidos como altamente corruptos, a 100, para os considerados muito limpos.
Mesmo com a Dinamarca mantendo a liderança pelo oitavo ano consecutivo, com 89 pontos, seguida por Finlândia (88) e Singapura (84), a Transparência Internacional apontou uma perda de protagonismo político no enfrentamento à corrupção.
“Vários governos não consideram mais o combate à corrupção uma prioridade”, afirmou François Valerian, presidente da entidade. “Os governos podem ter tido a impressão de que […] já haviam feito de tudo para combater a corrupção e precisavam se voltar para outras prioridades.”
Estados Unidos atingem pior marca histórica
Os Estados Unidos alcançaram sua pior pontuação desde o início da série histórica do IPC: 64 pontos, uma queda de 10 pontos em relação a 2016. A Transparência Internacional indicou que o ambiente político no país vem se deteriorando há mais de uma década e observou que os dados ainda não refletem completamente os acontecimentos mais recentes desde o retorno de Donald Trump à Casa Branca.
Relatórios anteriores já haviam destacado escândalos éticos envolvendo a Suprema Corte como fator de queda no ranking. “Não podemos atribuir tudo a Trump, porque houve reformas preocupantes que começaram antes dele”, disse Valerian.
O relatório também citou práticas como o “uso de cargos públicos para perseguir e restringir vozes independentes”, a “normalização de políticas conflituosas e transacionais”, a politização do Ministério Público e ações que “minam a independência judicial”, avaliadas como sinais de tolerância a práticas corruptas.
Reino Unido e Europa também recuam
O Reino Unido apresentou a maior queda de percepção de integridade na última década, com 70 pontos, 11 a menos do que há dez anos. A Transparência Internacional associou o recuo a falhas na aplicação de padrões éticos para ministros, parlamentares e altos funcionários, além de escândalos envolvendo contratos públicos durante a pandemia de covid-19.
Outros países ocidentais também registraram perdas significativas, como Nova Zelândia, Suécia e Canadá. A Alemanha teve queda mais moderada ao longo da década, embora tenha apresentado leve melhora em relação ao ano anterior.
A França perdeu quatro pontos em dez anos, chegando a 66, em meio à redução da repressão à corrupção e ao aumento de riscos de conluio entre agentes públicos e interesses privados.

Retrocessos globais e avanço do crime organizado
O relatório apontou que 50 países tiveram quedas significativas desde 2012, com destaque para Turquia, Hungria e Nicarágua, em um contexto de retrocesso democrático, enfraquecimento institucional e do Estado de Direito.
A corrupção também tem facilitado a entrada do crime organizado na política latino-americana, alcançando inclusive países antes vistos como referências regionais, como Costa Rica e Uruguai.
Os declínios foram classificados como “acentuados, duradouros e difíceis de reverter”. “Quanto mais concentrado o poder, maior o abuso de poder. Quanto mais secreto o poder, mais fácil é abusar dele”, disse Valerian.
A Transparência Internacional também alertou para a crescente interferência política sobre organizações não governamentais, especialmente aquelas críticas aos governos. O relatório apontou aumento de repressão e cortes de financiamento em países como Geórgia, Indonésia e Peru, além de maior dificuldade para jornalistas, organizações da sociedade civil e denunciantes exporem casos de corrupção.
Brasil
O Brasil permaneceu na 107ª posição, com 35 pontos, sua pior colocação no ranking, apesar de um avanço de um ponto em relação a 2024.
O país ficou abaixo da média global e das Américas, ambas com 42 pontos. “O resultado mantém o país em um patamar historicamente baixo, reforçando uma trajetória marcada por fragilidade institucional e baixa efetividade dos mecanismos de integridade”, afirmou a Transparência Internacional.
Países com pior e melhor desempenho
Regimes autoritários, como Venezuela e Azerbaijão, figuram entre os piores colocados, com corrupção descrita como sistêmica. Mais de dois terços dos países avaliados ficaram abaixo de 50 pontos.
Na base do ranking estão países afetados por conflitos e regimes altamente repressivos, como Líbia, Iêmen, Eritreia, Somália e Sudão do Sul.
Na outra ponta, o relatório destacou avanços de países que saíram da parte inferior para o meio do ranking, como Albânia, Angola, Costa do Marfim, Laos, Senegal, Ucrânia e Uzbequistão, além de ganhos de longo prazo em nações já bem posicionadas, como Estônia, Coreia do Sul, Butão e Seychelles.