
Para a surpresa de ninguém, os Estados Unidos votaram contra a resolução histórica adotada pela Assembleia Geral da Organização das Nações Unidas (ONU), nesta quarta-feira (25), que reconhece o tráfico de africanos para a escravidão nas Américas entre os séculos XV e XIX como o crime mais grave contra a humanidade.
A decisão, tomada em uma sessão especial, ocorreu para marcar o Dia Internacional em Memória das Vítimas da Escravidão e do Tráfico Transatlântico de Escravos, celebrado em 25 de março. A resolução foi proposta por Gana, que lidera a iniciativa para buscar justiça para os descendentes das 12,5 milhões de pessoas capturadas e forçadas a trabalhar como escravos.
123 países votaram a favor da resolução e apenas três, Estados Unidos, Israel e Argentina, se opuseram. Reino Unido, Espanha e Portugal se abstiveram. A União Europeia, assim como os EUA, argumentou que a resolução poderia criar uma hierarquia entre os crimes contra a humanidade, colocando a escravidão em um patamar superior a outros crimes históricos.
Dan Negrea, embaixador dos Estados Unidos na ONU, afirmou que seu país se opõe ao “uso cínico de injustiças históricas como moeda de troca… para realocar recursos modernos para pessoas e nações que têm pouca relação com as vítimas históricas” para justificar a redistribuição de recursos.

Durante a sessão, o presidente ganês, John Dramani Mahama, criticou a oposição dos Estados Unidos e de países europeus, acusando-os de tentarem apagar a história das vítimas da escravidão. A medida também solicita reparações, incluindo indenizações financeiras, pedidos formais de desculpas e a devolução de artefatos históricos.
O professor Justin Hansford, especialista em direito da Universidade Howard, afirmou à Reuters que esta resolução representa um marco importante no reconhecimento da escravidão transatlântica como um crime contra a humanidade e na crescente exigência por reparações.
Ele destacou a relevância histórica do momento: “Esta é a primeira votação no plenário da ONU. Não consigo enfatizar o suficiente a importância deste passo”, afirmou.
O Secretário-Geral da ONU, António Guterres, complementou que o reconhecimento da injustiça histórica deve ser seguido de ações concretas e ousadas. A resolução pede que os países emitam pedidos formais de desculpas, devolvam bens culturais saqueados e considerem reparações financeiras como forma de reparar os danos causados pelo tráfico de africanos.
A resolução, porém, também enfrenta resistência. Críticos apontam que países e instituições atuais não podem ser responsabilizados pelas atrocidades cometidas por potências coloniais no passado.
A oposição é particularmente forte entre líderes ocidentais, que defendem que a culpa não pode ser atribuída às gerações atuais. Mesmo assim, o movimento por reparações ganhou força nos últimos anos, com vários países da África e do Caribe pressionando a ONU a tomar ações mais concretas.
“A história não desaparece quando ignorada, a verdade não enfraquece quando adiada, o crime não apodrece… e a justiça não expira com o tempo”, afirmou o representante ganês, Ablakwa, durante o discurso na Assembleia da ONU.
We did it for Africa and all people of African descent. pic.twitter.com/ZPECQJx5t7
— Sam Okudzeto Ablakwa (@S_OkudzetoAblak) March 25, 2026