Europeus reclamam de Trump por ameaçar a Europa, mas querem que Irã e Venezuela explodam

Atualizado em 21 de janeiro de 2026 às 12:57
Macron em Davos

A reação europeia às ameaças de Donald Trump contra a Groenlândia revela um padrão antigo, desconfortável e raramente admitido. Quando o alvo é um território europeu, a retórica muda, os princípios aparecem e a soberania vira valor inegociável. Quando o assunto são países do Sul Global, a lógica racista impera.

A frase de George Orwell resume bem o cenário: todos os países são soberanos, mas alguns são mais soberanos do que outros.

Nos últimos dias, líderes europeus se levantaram publicamente para afirmar que o futuro da Groenlândia pertence exclusivamente ao seu povo. A presidente da Comissão Europeia, Ursula von der Leyen, repetiu em Davos e no Parlamento Europeu que a integridade territorial da ilha não está em negociação e que ameaças tarifárias ou militares dos Estados Unidos podem empurrar as relações transatlânticas para uma espiral perigosa.

A Groenlândia foi descrita como lar de um povo livre, soberano, com direito absoluto de decidir seu próprio destino. Macron brilhou com seu Ray Ban psicodélico em Davos esbravejando contra “bullies”.

O problema é a seletividade. A mesma Europa que agora fala em “mundo sem lei” e em necessidade de abandonar a cautela tradicional raramente usa essa linguagem quando se bombardeia, sanciona ou estrangula economicamente países como Irã, Venezuela, Palestina ou Síria.

Em “Discurso sobre o colonialismo”, publicado em 1950, Aimé Césaire diz que a Europa só se escandalizou com Hitler porque os métodos coloniais — massacres, extermínio, campos de concentração, hierarquização racial — foram aplicados dentro da própria Europa e contra populações brancas.

Antes disso, práticas semelhantes já eram usadas há séculos em colônias na África, na Ásia e nas Américas, sem gerar indignação moral comparável. O que chocou a Europa não foi o crime em si, mas o fato de ele ter sido cometido “em casa”.

A contradição fica ainda mais explícita quando líderes europeus admitem que vivem em um mundo definido pela força bruta, mas só se mostram escandalizados quando essa força ameaça um território branco, europeu, estratégico para rotas comerciais e recursos críticos.

Para o resto do mundo, o discurso muda: sanções coletivas, colapsos econômicos, sequestros e genocídios são toleráveis, quando não apoiados ativamente.

No fundo, o embate com Trump não é apenas sobre a Groenlândia, mas a respeito de merece proteção e quem pode ser sacrificado em nome da tal ordem internacional.

Kiko Nogueira
Diretor do Diário do Centro do Mundo. Jornalista e músico. Foi fundador e diretor de redação da Revista Alfa; editor da Veja São Paulo; diretor de redação da Viagem e Turismo e do Guia Quatro Rodas.