Evento da Globo em NY foi patrocinado por dono da Refit, alvo da PF hoje, além de Vorcaro

Atualizado em 15 de maio de 2026 às 15:55
Ricardo Magro, dono da Refit

A presença do banqueiro Daniel Vorcaro no Summit Valor Econômico Brazil-USA, realizado pela Globo em Nova York em maio de 2024, não foi o único elo do evento com empresários investigados.

Outro patrocinador do encontro foi Ricardo Magro, dono do grupo Refit e alvo central da Operação Sem Refino, deflagrada pela Polícia Federal nesta sexta-feira (15). O colunista do Globo, Lauro Jardim, foi mediador de uma das mesas, após ser citado de maneira carinhosa por Vorcaro (assista o vídeo abaixo).

Magro é investigado por suspeitas de lavagem de dinheiro, evasão de divisas, ocultação patrimonial e fraudes fiscais bilionárias no setor de combustíveis. A operação autorizada pelo ministro Alexandre de Moraes, do Supremo Tribunal Federal (STF), determinou bloqueio de R$ 52 bilhões ligados ao conglomerado empresarial do grupo Refit.

Ele vive há cerca de dez anos em Miami, nos Estados Unidos, e pode ser incluído na lista de Difusão Vermelha da Interpol. Autoridades brasileiras apontam o empresário como um dos maiores devedores fiscais do país, com passivo estimado em R$ 26 bilhões junto à União e aos estados. Lula pediu a Trump que o extradisse ao Brasil.

Acumula um histórico pesado. Em 2016, foi preso sob suspeita de participação em esquema que teria causado prejuízos ao Postalis, fundo de pensão dos Correios. Antes disso, comprou a Refinaria de Manguinhos em 2008, durante o governo Sérgio Cabral no Rio de Janeiro.

A investigação da PF também envolve o ex-governador do Rio de Janeiro Cláudio Castro (PL). Os investigadores apuram benefícios fiscais concedidos em 2023 ao grupo Refit para ampliar operações ligadas ao mercado de óleo diesel da Refinaria de Manguinhos.

Caio Castro, “embaixador” da Gulf, parceira da Refit, em evento da Globo em Nova York

O grupo já havia aparecido na Operação Carbono Oculto, que apurava suspeitas de fraudes fiscais e possíveis conexões do setor de combustíveis com o PCC.

No seminário do Valor Econômico, principal jornal de economia do Grupo Globo, o executivo Fréderic Kachar enalteceu no palco “o privilégio de ser amigo de todas as lideranças” presentes, citando nominalmente Daniel Vorcaro e Ricardo Magro.

A Gulf Combustíveis, marca controlada pelo grupo Refit no Brasil, apareceu como uma das financiadoras das palestras. Um vídeo institucional da empresa foi exibido antes de uma entrevista com a então embaixadora dos EUA no Brasil, Elizabeth Bagley.

A relação entre a Globo e empresários investigados ganhou ainda mais repercussão após a revelação do caso envolvendo Daniel Vorcaro e o filme sobre Jair Bolsonaro. O dono do Banco Master deu ao menos R$ 61 milhões para “Dark Horse”, cinebiografia de Jair Bolsonaro, após pedidos feitos por Flávio Bolsonaro (PL-RJ).

As investigações do Intercept Brasil mostram que o dinheiro foi enviado para um fundo no Texas ligado a aliados de Eduardo Bolsonaro.

Segundo a PF, a nova operação busca comprovar o uso da estrutura societária da Refit para ocultar patrimônio e movimentar recursos no exterior. A investigação aponta que parte das operações teria sido estruturada para dificultar rastreamento fiscal e financeiro pelas autoridades brasileiras.

Kiko Nogueira
Diretor do Diário do Centro do Mundo. Jornalista e músico. Foi fundador e diretor de redação da Revista Alfa; editor da Veja São Paulo; diretor de redação da Viagem e Turismo e do Guia Quatro Rodas.