Ex-dirigente do BC gastou quase R$ 200 mil em dinheiro de Vorcaro na Disney

Atualizado em 26 de agosto de 2026 às 6:21
Paulo Sérgio Neves de Souza, ex-dirigente do Banco Central. Foto: reprodução

O empresário Léo Serrano, da consultoria de serviços de luxo SL Consulting, afirmou à Polícia Federal (PF) que o ex-banqueiro Daniel Vorcaro pagou US$ 38 mil, cerca de R$ 195,7 mil, por um serviço de concierge destinado a Paulo Sérgio Neves de Souza, servidor do Banco Central (BC) e ex-diretor de Fiscalização da instituição.

O relato foi feito durante depoimento de Serrano na sede da PF em São Paulo, na manhã de segunda-feira (24). Segundo o empresário, esse foi o único assunto abordado pelos investigadores durante a oitiva.

Serrano declarou que, diferentemente de outros serviços prestados a Vorcaro, no caso de Neves de Souza a SL Consulting forneceu apenas o concierge. O custo foi bancado pelo então proprietário do Banco Master.

O serviço teria sido prestado durante uma viagem no início de 2024 aos parques da Disney e da Universal. De acordo com o depoimento, o concierge acompanhava Neves de Souza dentro dos parques e resolvia pagamentos, filas e outras questões práticas.

Na época da viagem, Neves de Souza já não comandava a Diretoria de Fiscalização do Banco Central, mas ocupava o posto de chefe-adjunto do Departamento de Supervisão Bancária.

A relação entre o servidor e Vorcaro é investigada pela PF. Mensagens encontradas no celular do ex-banqueiro indicam que ele mantinha contatos frequentes com Neves de Souza e Belline Santana, também servidor do BC, para discutir assuntos relacionados à crise do Banco Master.

Daniel Vorcaro, ex-CEO do Banco Master. Foto: reprodução

Segundo relatório da investigação, os dois servidores “atuaram de forma recorrente na defesa e promoção de interesses privados de Daniel Bueno Vorcaro”. A PF afirma que eles teriam revisado documentos enviados ao próprio Banco Central e repassado informações potencialmente internas ao empresário.

Uma das mensagens citadas pela investigação foi enviada por Neves de Souza em 17 de fevereiro de 2025, ao alertar Vorcaro sobre uma movimentação financeira identificada pelos sistemas do BC. “Favor verificar e me ligar quando puder pois essa movimentação caiu no filtro da área de monitoramento”, escreveu.

A movimentação envolvia uma saída de R$ 488,8 milhões de um fundo e a entrada de R$ 545,5 milhões da Master Holding Financeira.

Em outubro de 2025, Vorcaro, Santana e Neves de Souza também integravam um grupo de WhatsApp chamado “Master”. O canal havia sido criado 47 dias antes da liquidação da instituição e era usado para tratar de documentos, reuniões e alternativas para a crise.

As mensagens mostram ainda discussões sobre contatos com Ailton de Aquino, diretor de Fiscalização do BC, que não é investigado e foi ouvido como testemunha. Em uma conversa, Neves de Souza afirmou: “Estou consultando o Ailton aqui”.

Na manhã de 17 de novembro de 2025, horas antes da prisão de Vorcaro, o servidor escreveu: “Bom dia Daniel! Semana decisiva”. Quando o banqueiro perguntou se deveria procurar Aquino, recebeu a resposta: “Sim. Liga e insiste”. Santana acrescentou que considerava a iniciativa “fundamental, nesse momento”.

A PF também investiga possíveis vantagens financeiras recebidas pelos servidores. No caso de Neves de Souza, além da viagem custeada, os investigadores analisam a venda de um sítio por R$ 4,8 milhões a uma empresa ligada ao cunhado de Vorcaro.

Economista formado pela PUC de São Paulo e servidor concursado do Banco Central desde 1998, Neves de Souza chegou ao comando da Diretoria de Fiscalização durante a gestão de Roberto Campos Neto. Ele foi afastado judicialmente em março, durante a terceira fase da Operação Compliance Zero. Sua defesa pediu ao Supremo Tribunal Federal a retirada do sigilo do depoimento e afirma que os esclarecimentos contestam pontos apresentados no relatório da PF.

Augusto de Sousa
Augusto de Sousa, 31 anos. É formado em jornalismo e atua como repórter do DCM desde de 2023. Andreense, apaixonado por futebol, frequentador assíduo de estádios e tem sempre um trocadilho de qualidade duvidosa na ponta da língua.