Ex-motorista, auxiliar de costura: o drama da fome que colocou caras novas na fila por comida. Por Hellen Alves

Pessoas na fila para receber refeições na Tenda Franciscana no Centro de SP – Foto: Reportagem

Por Hellen Alves

A pandemia de coronavírus evidenciou a vulnerabilidade vivenciada por muitas pessoas, que, sem renda, moram nas ruas e dependem de doações para se alimentarem, mas também levou um novo grupo de famílias à pobreza, que agora também enfrentam o drama da fome. 

Rosangela Pezoti, assistente social e coordenadora dos projetos do Serviço Franciscano de Solidariedade (SEFRAS), conta que, no começo da pandemia, logo quando foi decretada a quarentena, os comércios fecharam, grupos deixaram de distribuir alimentos no Centro de São Paulo e, como consequência, aqueles que dependiam dessas iniciativas passaram a viver com a incerteza da alimentação. 

Com isso, a quantidade de pessoas que procuraram a ajuda da instituição aumentou expressivamente e, nesse contexto, o SEFRAS passou a realizar a entrega de marmitas na Tenda Franciscana em frente ao Largo São Francisco – sendo a tenda um dos projetos que compõem a Ação Franciscana de combate à COVID-19. 

Dezenas de pessoas se aglomeram diariamente em uma fila que dobra o quarteirão, a distância de 1,5 m entre uma pessoa e outra não é respeitada e muitas não usam máscara de proteção. 

Entrega de refeições na tenda no almoço – Foto: Reportagem

‘Quando começou a tenda, a gente só tinha pão para entregar, mas depois foi uma mobilização muito grande, imagina, são 7 meses que a tenda está funcionando, e são 500 marmitas no almoço e 500 na janta’, lembra Rosângela. 

A instituição tem como missão a solidariedade defendida por São Francisco, que em vida pregava a fraternidade universal e também a dignidade das pessoas. 

‘A dignidade começa pelas coisas básicas: alimentação, moradia, respeito. E nós, enquanto SEFRAS, tentamos dar essa resposta baseada nessa experiência que temos do Franciscanismo, e a Tenda Franciscana tem esse espírito da solidariedade  a partir da distribuição do alimento e contato com as pessoas, de mostrar a dignidade delas’, explica frei Héricles Gomes. 

Ele relata que a tenda é filha do chamado Chá do Padre, que é uma ação que o SEFRAS já realizava de segunda a segunda das 7h às 19h – no qual a população mais necessitada, além de ter acesso às refeições, também consegue lavar roupas, tomar banho, instruções para emissão de documentos, informações sobre cursos profissionalizantes, entre outras orientações. 

‘A gente começou a perceber muitas pessoas recém-chegadas nas ruas, foi uma sequência: as pessoas perderam o trabalho, não conseguiram pagar onde estavam morando e foram para rua’, comenta Rosângela. 

Ela aponta que as pessoas já não tinham o que comer e a pandemia tornou isso mais evidente, colocando ainda mais pessoas nessa situação de pobreza. Até a última semana de outubro, o SEFRAS entregou 1 bilhão de refeições. 

A mudança no perfil das pessoas que necessitam das doações também foi notada por Igor Alexsander, 26 anos, líder comunitário de Paraisópolis e coordenador do G-10 Favelas, que é um bloco de líderes e empreendedores das 10 maiores favelas do Brasil. 

Doação de cestas básicas em Paraisópolis – Foto: Arquivo pessoal

‘Pessoas que nunca imaginamos que precisariam de uma marmita, hoje precisam estar na fila para serem ajudados. Comerciantes da comunidade que ganhavam seu dinheiro, tiveram seu comércio fechado e agora estão na fila esperando cerca de 1 hora e meia para conseguir se alimentar’, conta Igor. 

O G-10 é uma iniciativa que existe antes mesmo da pandemia e tem como objetivo fazer com que o Brasil olhe para a favela, tornando as comunidades grandes polos de negócios e atrativas para investimentos, de forma a “transformar a exclusão em Startups e Empreendimentos de Impacto Social”.

‘As favelas do Brasil já eram afetadas por falta de políticas públicas e com a pandemia isso veio a piorar’, aponta Igor. Ele relata que foram cadastradas mais de 32 mil famílias no programa de ajuda da associação de moradores. 

Eles já entregaram cerca de 100 mil cestas básicas e, em 16 de outubro, Dia Mundial da Alimentação, bateram a meta de 1 milhão de marmitas distribuídas na favela de Paraisópolis. 

Fome e o fim do auxílio emergencial 

Marcelo Borba, 47 anos, era motorista de aplicativo e dirigia um carro alugado, mas, em março, devido à baixa procura por corridas, ficou sem renda e não pode mais pagar o aluguel do carro e também de sua casa, passando a morar na rua. ‘Eu fiquei na rua durante todo esse tempo da pandemia, ontem (27) foi meu primeiro dia na ocupação’.

Ele está de favor em uma ocupação no Largo do Paissandu e enfrenta diariamente a fila de distribuição das marmitas na Tenda Franciscana tanto no almoço quanto na janta, além disso, recebe também a doação de cesta básica que entrega para sua mãe. 

Marcelo ao lado de voluntários do SEFRAS – Foto: Arquivo pessoal

Ao ser questionado como ficaria caso o SEFRAS deixasse de fazer as doações, ele respondeu que acredita que sofreria muito porque não sabe se virar na rua. Marcelo está recebendo o auxílio emergencial e tem esperança de conseguir um novo emprego antes de dezembro, quando essa ajuda financeira seja suspensa. 

Simone França trabalhava como auxiliar de costura e está desempregada desde 2018, nesse meio tempo chegou a realizar alguns ‘bicos’, mas não conseguiu nada fixo e estava na fila da tenda empurrando um carrinho de bebê rosa, sua filha tem apenas 3 meses. ‘Eu venho pegar doação, para eu conseguir roupa para ela, para eu comer, para tudo’.

Ela mora há 4 anos em uma ocupação no Ipiranga e está preocupada com a perspectiva do fim do auxílio emergencial: ‘Ia ficar muito difícil, eu não sei nem o que eu faria, ia ter que ficar na rua pedindo, eu recebo R$300 e não está dando para nada, mesmo assim tem que vir porque ela não toma leite do peito e eu consigo tudo na doação’. 

‘Vai ficar difícil, ninguém está conseguindo serviço, não está conseguindo fazer bico. Eu ia trabalhar nas eleições, mas não consegui por causa da bebê’, relata.

Tanto Rosangela, do SEFRAS; quanto Igor, da Associação de moradores de Paraisópolis, apontam que muitas pessoas não conseguiram acesso ao auxílio emergencial devido à dificuldades no cadastro e até mesmo no saque da quantia. 

Por exemplo, para cadastro é necessário acesso à internet e para o saque é preciso apresentar documento oficial, duas coisas que muitos moradores de rua não tem. Tivemos também muitas pessoas cujo auxílio foi recusado, mesmo cumprindo com os requisitos. 

‘Lutamos por uma renda básica permanente para pessoas em dificuldades financeiras, pois a crise está se agravando e, infelizmente, se não tem o que comer e não tiver trabalho, vamos ver os pais e mães de famílias desesperados para levar o pão de cada dia pra casa’, avalia Igor. 

‘Percebemos que o auxílio é utilizado para o pagamento do aluguel. O fim do auxílio traz a perspectiva de que vá aumentar a população de ruas nas capitais’, aponta frei Héricles . Ele ressalta que mais pessoas passariam a enfrentar dificuldades para se alimentar, engrossando as filas das doações. 

Em qual situação estamos e como chegamos aqui?

De acordo com o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), 10,3 milhões de brasileiros vivem em situação de insegurança alimentar grave. 

A pesquisa, que se refere aos anos de 2017 e 2018, aponta ainda que o total de brasileiros que passam fome cresceu, segundo o órgão, em 3 milhões de pessoas em cinco anos.

Esses dados comprovam que, em 2018, o Brasil retornou ao Mapa da Fome – lista de países com mais de 5% da população ingerindo menos calorias do que o recomendável. 

Quatro anos antes da coleta dos dados divulgados em 17 de setembro, o Brasil tinha oficialmente saído do Mapa da Fome das Nações Unidas. 

É importante ressaltar que essa conta não inclui pessoas em situação de rua, mas os fatores que levaram o Brasil de volta ao Mapa da Fome tem relação direta com moradores de rua. 

Também precisa ser considerado que o Brasil atingiu um índice de 14,4% de desemprego no trimestre encerrado em agosto, atingindo 13,8 milhões de pessoas, com um fechamento de 4,3 milhões de postos de trabalho em apenas 3 meses.

Os dados são da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios Contínua Mensal (PNAD Contínua) na última semana de outubro. Trata-se da maior taxa já registrada na série histórica da pesquisa, iniciada em 2012.

Rosangela Pezoti, atua no SEFRAS há 13 anos, comenta que o Brasil já vivia uma crise econômica, mas a pandemia serviu para o agravamento da situação e aponta que existem alguns termômetros que indicam o aumento da vulnerabilidade alimentar e o empobrecimento: o trabalho infantil, a violência e o aumento da população de rua.

‘As últimas eleições colocaram à frente do Brasil um governo que não tem condições de pensar o país, é um pensamento que não olha o país como um todo, extremamente conservador e com medidas econômicas também muito conservadoras, que já é provado que essas medidas de austeridade, que são tão pregadas por esse grupo liberal, não funcionam do ponto de vista do crescimento econômico’, afirma Rosangela. 

Ela também enfatiza que o Estado não gera empregos, não promove o crescimento e não consegue distribuir a renda; e denuncia a falta de investimentos em políticas públicas, como educação, para qualificar a população e promover qualidade de vida. 

‘As pessoas ocupam tanto de sua vida com sua sobrevivência, mas de outro lado não existe uma motivação política para uma organização mais coletiva para reivindicação’, diz Rosangela sobre o modelo neoliberal adotado pelo governo. 

Ela ressalta que o SEFRAS atua também na conscientização da importância da organização coletiva para reivindicação de direitos. ‘Essa despolitização levou a gente a ter um Frankenstein no governo federal’, indica Rosangela sobre o governo de Jair Bolsonaro. 

Como saímos dessa? 

Rosangela Pezoti acredita que o trabalho de base é capaz de promover mudanças e ajudar na reconstrução do Brasil. 

‘Isso que a gente está vivendo hoje não é normal, não é normal ter pessoas na rua, não é normal a gente ter 160 mil mortos na pandemia, não é normal a gente ter fome nesse país que produz tanto, eu acredito muito que o trabalho de base vai conseguir mudanças. Um trabalho de discussão, de problematização, de desinstalar as pessoas dessa “normalidade”’, declara Rosangela. 

Já o frei Héricles Gomes, também do SEFRAS, indica que para sairmos dessa é necessária a revisão de nosso modelo político-econômico e a aprovação de uma renda básica que garanta o alimento e a dignidade das pessoas. 

“Nós devemos pensar muito no humano, nessa geração de renda, precisamos pensar em um projeto político e econômico que atinja as bases, as pessoas que mais necessitam, então a geração de uma renda básica é agora o que nós precisamos ter em mente para que essas pessoas que estão no Mapa da Fome pelo menos possam se alimentar e ter moradia digna e, com isso, a roda da economia ela vem girando, devemos pensar menos na especulação financeira e mais nas pessoas”, indica frei Héricles.

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