
A gestão de Márcio Canella (União Brasil) na Prefeitura de Belford Roxo, no Rio de Janeiro, pagou R$ 28,9 milhões a pelo menos cinco empresas citadas pela Polícia Federal no inquérito que apura um esquema de lavagem de dinheiro ligado ao crime organizado. Os contratos começaram em 2025 e constam do Portal da Transparência e de publicações no Diário Oficial do município.
Canella foi preso pela PF em 15 de outubro, após o primeiro turno das eleições em que se tornou o segundo deputado estadual mais votado do Rio. No relatório que embasou a oitava fase da Operação Unha e Carne, investigadores o descrevem como “patrono político” e “articulador de alto escalão” da organização investigada.
A PF aponta o ex-prefeito como possível elo entre o poder público e uma rede de postos de combustíveis que também teria sido usada para lavar recursos. A investigação não afirma, no trecho disponível do inquérito, que os contratos da prefeitura tenham sido ilegais.
Duas empresas controladas por Márcio Samary Machado, conhecido como Márcio Nit, receberam R$ 18,1 milhões do município. A ECO 805 Comércio e Serviços obteve R$ 10,44 milhões, enquanto a Elite Turística recebeu R$ 7,65 milhões.
Empresas contratadas e menções no inquérito da PF
Márcio Canella, 2º deputado estadual mais votado e ex-prefeito de Belford Roxo, é preso pela PF na Operação Unha e Carne 8 https://t.co/YM5XDs79oI #g1 pic.twitter.com/k2G7OLrzOb
— g1 (@g1) October 15, 2026
Os demais pagamentos envolveram R$ 7,16 milhões para a FAB Mix Concretos, R$ 2,31 milhões para a DAGG Tavares Projetos e R$ 1,34 milhão para a Opção Ativa. Até 3 de abril, data em que Canella deixou a prefeitura para disputar as eleições, os desembolsos já alcançavam R$ 25,1 milhões.
Márcio Nit figura como sócio da ECO 805, fornecedora de kits escolares, e da Elite Turística, responsável pela gestão da frota de transporte escolar municipal. O Supremo Tribunal Federal o classificou como “operador e intermediário financeiro da organização criminosa”, com atuação em pagamentos, quitação de obrigações e movimentação de recursos entre pessoas e empresas sob investigação.
A PF relaciona Nit ao inspetor da Polícia Civil Pablo Jukiá Felix Ferreira, chamado de Pablo Russo, apontado como integrante do núcleo operacional central do esquema e gestor de uma rede de mais de 20 postos de combustíveis. Pablo Russo também foi preso na oitava fase da Operação Unha e Carne.
Segundo os investigadores, Pablo Russo enviou a Nit, em 30 de março de 2026, um boleto de R$ 748.689,86, e recebeu o comprovante de pagamento no dia seguinte. O valor foi pago por uma empresa da qual o cunhado de Nit é sócio; a PF não detalhou a motivação da transação.
Em 11 de maio, Pablo Russo recebeu um comprovante de pagamento para a FAB Mix feito pela Elite Turística. A FAB Mix tinha contrato para construir uma escola em Belford Roxo, e a PF avalia que a operação indica atuação de Pablo como “operador de fluxos financeiros entre empresas do grupo”.
A DAGG Tavares Projetos, contratada para reformar a Vila Olímpica municipal, pertence a Dimitri Alecrim Gomes Gaudard Tavares. A polícia suspeita que ele tenha ocultado e dissimulado recursos de atividades criminosas e afirma que Pablo Russo acessava credenciais e informações sobre pagamentos, contratos e licitações da empresa.
A Opção Ativa, empresa de reboques, também aparece no inquérito por um contrato com dispensa de licitação no Detran, então presidido por Marcus Amim. A Prefeitura de Belford Roxo, hoje comandada por Mariana Malta, que adotou o nome Mariana Canella, não respondeu aos questionamentos, e a defesa de Márcio Canella não foi localizada.