Exclusivo: antro da cloroquina, laboratório de Didier Raoult levou material genético do Brasil para a França

Atualizado em 26 de maio de 2021 às 4:50
Em vídeo, Didier Raoult sugere que vacinação pode provocar sintomas de Covid-19. Foto: IHU Mediterranée-Infection/YouTube

Se o professor Didier Raoult levou diferentes conselhos de Medicina da França a denunciá-lo por defender a cloroquina para tratar Covid-19, seus métodos começam a suscitar dúvidas sobre os trabalhos que realizou com organismos coletados no Brasil.

Sua equipe de pesquisadores enviou uma amostra de 30 piolhos, de pacientes de três estados da Amazônia, e uma amostra de bactéria intestinal de um homem de 49 anos, morador de Manaus, para o Institut Hospitalier de Marseille, na França.

Pelo menos três artigos foram publicados com análises dessas amostras. O mais recente, em 2020, intitulado “Clostridium massiliamazoniense sp. nov., New Bacterial Species Isolated from Stool Sample of a Volunteer Brazilian (Novas espécies bacterianas isoladas de amostra de fezes de um voluntário brasileiro)”.

A metodologia dos artigos suscita dúvidas quanto à ética dos trabalhos pelo fato de não mencionarem uma autorização das autoridades brasileiras para o envio das amostras ao exterior.

Um dos artigos cita como autorização apenas a do próprio laboratório dirigido por Raoult e de um homem brasileiro. “O paciente informou e assinou um consentimento, assim como uma aprovação foi obtida pelo comitê de ética do Institut Fédératif de Recherche 58 (Universidade Aix-Marseille, Marselha, França) sob o número 09-022”, relata.

Em uma outra pesquisa conduzida pela equipe do professor no Brasil, uma amostra de 30 espécimes de piolhos foi coletada em pacientes do Amazonas, Amapá e Pará. Eles foram enviados ao laboratório de Marselha, que então isolou o DNA dos insetos para análise.

O material serviu para verificar a diferença de genoma dos piolhos da Amazônia de insetos da mesma espécie oriundos de outros locais do planeta e apontar sua possível anterioridade à chegada de Cristóvão Colombo ao Brasil.

Assim como no caso do “voluntário” de Manaus, o artigo publicado no American Journal of Tropical Medicine and Hygiene por Raoult e sua equipe explica que a coleta e envio dos piolhos para a França foi aprovada pelo comitê de ética de seu laboratório.

Diferente do caso das bactérias intestinais, não houve consentimento por escrito. “Um consentimento verbal foi obtido de todos os pacientes envolvidos”, justifica.

Em nenhum momento os artigos mencionam a autorização por parte das autoridades sanitárias brasileiras para a coleta e o envio dos organismos para o exterior.

A lei 13.123, sancionada em 2015 pela presidente Dilma Rousseff, estabelece que compete ao CGen (Conselho de Gestão do Patrimônio Genético), subordinado ao Ministério do Meio Ambiente, “o acesso e remessa de amostra que contenha o patrimônio genético”.

A lei precisa que “a remessa para o exterior de amostra de patrimônio genético depende de assinatura do termo de transferência de material, na forma prevista pelo CGen”.

O artigo 14 da mesma lei diz que “a conservação ex situ (fora do habitat natural) de amostra do patrimônio genético encontrado na condição in situ (no habitat natural) deverá ser preferencialmente realizada no território nacional”.

O objetivo da lei, mais conhecida como Marco da Biodiversidade, é regulamentar a exploração do patrimônio genético brasileiro e viabilizar a pesquisa nacional, estimulando cientistas estrangeiros a produzir pesquisas em território brasileiro.

Os artigos publicados por Raoult apontam que a coleta e envio para a França das bactérias e piolhos pela equipe do professor Didier Raoult aconteceram respectivamente em 2013 e 2011. Ou seja, antes da sanção da lei que obriga a autorização das autoridades brasileiras para esse tipo de prática.

“Uma aprovação ética é necessária para o envio de amostras biológicas ao exterior. A aprovação ética da França não é automática no Brasil. Um consentimento assinado não é suficiente para aprovação, precisa submeter ao CEP (Comitê de Ética e Pesquisa) e pelo visto não foi submetido aqui”, explica a doutora Flor Ernestina Martinez Espinosa, membro da Comissão Nacional de Ética em Pesquisa (CONEP) no período de 2012 a 2016, com base nas informações expressas nos artigos.

A médica pesquisadora da Fundação de Medicina Tropical Dr. Heitor Vieira Dourado estima que o envio das amostras coletadas no Brasil pela equipe do professor Raoult ocorreu dentro da legalidade, do ponto de vista da ética em pesquisa em seres humanos. “Não sabemos do ponto de vista do SisGen (Sistema Nacional de Gestão do Patrimônio Genético e do Conhecimento Tradicional Associado)”, pondera.

Perguntado pelo DCM se solicitou uma autorização das autoridades brasileiras para o envio à França dos organismos coletados na Amazônia, o laboratório dirigido por Didier Raoult não respondeu.

Um dos co-autores do estudo e ex-colaborador do laboratório, o brasileiro Jônatas Abrahão disse que “sim, o envio das amostras de piolho e bactérias está registrado no SisGen”.

Questionado sobre por que os registros não são citados nos artigos, o pesquisador da Universidade Federal de Minas Gerais justifica que “o SisGen só foi criado em 2016”.

“Assim, atividades científicas (incluindo remessas) anteriores a este período, passaram a ser cadastradas retrospectivamente no sistema. Devido ao grande volume de dados, os pesquisadores tiveram um tempo para realizar todos os registros. Até o início deste ano, era possível atualizar estas atividades anteriores a 2015 no sistema, em algumas universidades”, afirma.

O ex-colaborador do IHU de Marselha também foi perguntado se o registro foi feito portanto entre dois e quatro anos depois da remessa de organismos enviada à França e se não houve um pedido de autorização do laboratório às autoridades brasileiras antes do Marco da Biodiversidade. O DCM aguarda uma resposta.

Abrahão conta ter resolvido se desligar do laboratório de Raoult. “Depois da pandemia, o pessoal do IHU seguiu caminhos científicos diferentes dos que trabalho e me interesso. Por isso, encerramos nossa colaboração recentemente”, explica.

Os artigos citados pela reportagem não foram localizados no banco de dados do Conep (instância máxima de avaliação ética em protocolos de pesquisa envolvendo seres humanos).

Perguntados se um pedido de autorização lhes foi feito pelo IHU de Marselha, o Ministério do Meio Ambiente e o Conselho de Gestão do Patrimônio Genético não responderam.

Mesmo depois de seu protocolo ser considerado ineficaz contra a Covid-19, Didier Raoult continua defendendo o uso de hidroxicloroquina

Histórico de controvérsias

Médico especializado em microbiologia, o professor Didier Raoult, diretor do IHU de Marselha e um dos pioneiros na defesa do tratamento da Covid-19 com hidroxicloroquina, foi recentemente desmentido por cientistas franceses mais uma vez.

Na última semana, o diretor do laboratório Institut Hospitalier de Marselha (França) sugeriu em seu canal no YouTube que a vacina Pfizer-BioNTech pode induzir o aparecimento de sintomas do coronavírus.

“Temos agora um número significativo de pessoas, 46 pacientes que tiveram Covid na semana seguinte à injeção (…), é bastante intrigante”, afirmou.

“Trata-se de portadores assintomáticos em quem a vacinação provocou uma reação que lhes tornou sintomáticos? Essa é uma boa pergunta”, disse.

O jornal francês Le Figaro consultou cinco cientistas do país. A maioria, diz a publicação, considerou o novo anúncio do Dr. Raoult “sem fundamento”.

“Eu não comento dados não publicados”, aponta ao periódico o professor Jean-Daniel Lelièvre, chefe do serviço de imunologia clínica e doenças infecciosas do Hospital Henri Mondor, na região parisiense. “Lembrando que o anúncio de Didier Raoult não tem respaldo de estudo cientifico”, observa o jornal.

“Ainda mais porque todos os dados na vida real de que dispomos mostram que a vacina diminui as infecções sintomáticas”, completa.

“Na prática, Didier Raoult não está completamente errado: é possível que pessoas se infectem e desenvolvam a Covid nos dias seguintes à injeção, em particular após a primeira dose. Mas o que ele apresenta como um fenômeno ‘novo’, ‘muito estranho’ está na verdade bem documentado e é completamente esperado”, diz o jornal de Paris.

“É absolutamente normal que haja pessoas que adoeçam depois da primeira dose. Diversos estudos mostraram perfeitamente que entre o momento em que se recebe a primeira dose e o momento em que se está protegido, há um certo tempo: em torno de 12 dias para as vacinas RNA mensageiro, e três semanas para a vacina AstraZeneca. Durante esse intervalo, podemos nos infectar”, garante ao diário Alain Fischer, presidente do Conselho de orientação de estratégia vacinal anti-Covid-19.

“Não há magia: a proteção não ocorre em segundos depois de receber a primeira dose. Isso reflete o fato de que a proteção imunitária acontece progressivamente. É o caso para todas as vacinas contra a Covid, mas também para as outras”, esclarece Fischer.

“É portanto possível que uma pessoa se infecte nos 10 dias seguintes à primeira dose, mas a causa não é a vacina, contrariamente ao que insinua Didier Raoult”, diz o Le Figaro.

“É igualmente possível se infectar nos dias anteriores à injeção, casos sintomáticos podem portanto aparecer após a vacinação. ‘Pode ser que haja um laxismo da parte de pessoas que acabam de se vacinar, mas isso é uma suposição’, diz Alain Fischer. ‘É a ocasião de lembrar que é preciso se proteger nos dias seguintes'”.

Previsões fracassadas

O principal jornal conservador francês lista uma série de previsões equivocadas realizadas por Didier Raoult.

“Dando a entender que as vacinas estão implicadas na aparição da doença, Didier Raoult faz o jogo dos anti-vacinas. O diretor do IHU de Marselha não comete seu primeiro erro desde o começo da pandemia”.

“Em fevereiro de 2020, ele havia, por exemplo (como as autoridades sanitárias francesas) subestimado completamente o potencial pandêmico do vírus: ‘há pouquíssimas doenças infecciosas que se espalham pela Terra inteira ao mesmo tempo, isso não existe. É muito raro'”.

“Ainda em fevereiro, ele havia afirmado que a Covid-19 é ‘provavelmente a infecção mais fácil de tratar’”, cita.

A OMS (Organização Mundial da Saúde) desaconselharia o tratamento da Covid-19 com hidroxicloroquina, contrariando o protocolo do microbiologista.

“Em abril, ele havia previsto o fim da pandemia para o mês seguinte e em maio ele dizia que não haveria segunda onda”, aponta.

“Em setembro, ele fingia que o vírus tinha se tornado menos perigoso, antes de dizer o inverso duas semanas mais tarde”, recorda.

“No dia 9 de maio, na revista Paris Match, ele afirmou que ‘as chances de uma vacina para doença emergente se tornar uma ferramenta de saúde pública eram próximas de zero. (…) Encontrar uma vacina é um desafio idiota'”, lembra o Le Figaro.

Poster em vitrine de Marselha (França) ridiculariza Didier Raoult: “Pastilhas Raoult para cuidar da coronavírus”. Foto: Willy Delvalle/DCM