Exclusivo: Assange vai à Islândia para lançar um novo WikiLeaks. Por Sara Vivacqua

Atualizado em 21 de outubro de 2025 às 16:12
Assange em Roma, com a mulher Stella e os filhos no funeral do Papa Francisco

O fundador do WikiLeaks, Julian Assange, foi visto na semana passada em Reykjavík,  na Islândia, durante um jantar no restaurante Vitabar, acompanhado do islandês Kristinn Hrafnsson, editor-chefe do WikiLeaks, segundo revelou o jornal islandês Vísir.

Hrafnsson confirmou que Assange está na Islândia em uma curta visita e levantou expectativas sobre seu retorno e o futuro do WikiLeaks. “Talvez esteja se aproximando o momento de algum grande acontecimento — o próximo passo que ele tomará. Mas não quero prometer nada em nome dele”, disse Kristinn ao Vísir.

Fontes do círculo mais próximo do WikiLeaks revelaram a mim que o grupo já vinha se preparando, antes mesmo da libertação de Assange, para um grande retorno com o projeto WikiLeaks TV — um canal audiovisual voltado para temas de política e liberdade de expressão.

De acordo com uma fonte interna, o grupo chegou a manter reuniões com os produtores de Russell Brand, explorando a ideia de um formato de debates e entrevistas. Ex-ator de Hollywood, Brando virou nos últimos anos negacionista das vacinas, adepto de teorias da conspiração e apoiador de Donald Trump

Assange teria se mostrado muito relutante com o projeto, por não se ver como um comentarista político tradicional: ele teme que a iniciativa desvirtue o propósito original do WikiLeaks — a divulgação de documentos e vazamentos, e não a opinião editorial.

Um “dadaísmo político” no coração do WikiLeaks

O que poderia parecer um recomeço promissor carrega o risco imanente de se tornar o fim do próprio WikiLeaks — e até mesmo de Assange como figura idealizada.

Trata-se de uma avaliação pessoal, fundamentada em minha experiência direta, adquirida no convívio com os principais membros e nas dinâmicas internas do grupo, durante minha atuação no núcleo duro da campanha pela libertação de Assange em Londres.

As tensões internas beiram o caos ideológico. Dentro do WikiLeaks coexistem posições políticas imaturas e contraditórias, que vão desde o apoio à Palestina até flertes com discursos da extrema-direita americana — desde que expressem uma retórica “anti-sistema” ou “anti-Estado”.

É um verdadeiro dadaísmo político: um mosaico de ideologias unidas aparentemente pelo ressentimento contra as instituições, e que, involuntariamente, chegam até mesmo a alinhar-se com ideologias fabricadas e de viés imperialista, como o apoio a figuras associadas a revoluções coloridas.

Kristinn Hrafnsson é a única figura dentro do WikiLeaks com consistência política; os demais, inclusive Assange, oscilam entre posições desconexas e, muitas vezes, aderem de forma arrogante a debates de política interna, sem compreender as complexidades locais.

O irmão de Assange, Gabriel, e o pai, John Shipton, participaram da Conferência do Partido Libertário de 2024, que também contou com a presença de Trump. Essa presença, no entanto, não se trata apenas de uma estratégia de campanha pela libertação de Assange; há interseções ideológicas declaradas com a retórica pseudo-antissistema do movimento MAGA.

O perfil oficial do WikiLeaks nas redes sociais frequentemente retuíta Elon Musk, inclusive quando este defendeu intervenção dos Estados Unidos no Brasil, para “barrar decisões judiciais” do Supremo Tribunal Federal e impedir a condenação dos golpistas de 8 de Janeiro, bem como de propagadores de ideologias de ódio e desinformação.

Elon Musk — o mesmo que defendeu o golpe de Estado na Bolívia contra o presidente eleito Evo Morales e agora defende o mesmo no Brasil.

O WikiLeaks também retuíta com frequência Glenn Greenwald, inclusive quando ele difunde teorias infundadas de “ditadura” no Brasil ou tenta desacreditar o STF com factoides, facilmente absorvidos pelo público norte-americano, desconhecedor da complexidade política brasileira.

O mais impressionante é que isso ocorreu após o presidente Lula ter recebido os membros do WikiLeaks em Brasília e organizado o encontro entre Stella Assange e o Papa Francisco.

O grupo também foi recebido por cinco presidentes latino-americanos, justamente num momento em que representantes europeus e norte-americanos condenavam ativamente Assange. Por que endossariam posições de intervencionismo americano na politica interna da America Latina?

Sara Vivacqua e Lula ladeados por Joseph Farrell e Kristinn Hrafnsson, do Wikileaks (Fotos Cláudio Kbene)

Durante o tour da America Latina, membros do WikiLeaks chegaram a cogitar visita ao ditador Bukele, no El Salvador. Esse foi um marco para mim da ignorância arrogante do WikiLeaks com relação à imensa e rica história política da America Latina, e do próprio imperialismo americano,  no qual se julgam experts.

O apoio do WikiLeaks a posturas intervencionistas americanas na América Latina, expressas por figuras como Elon Musk — em um continente historicamente marcado pela Doutrina Monroe e pelas ditaduras apoiadas pela CIA — é a alegoria mais completa da imaturidade e arrogância ideológica que caracterizam o WikiLeaks.

Essa postura revela a aplicação de uma métrica imperialista de percepção da realidade interna de países fora do ciclo anglo-saxão.

O elogio a Navalny e as contradições de Stella Assange

Em entrevista à seção Life Style do London Evening Standard, Stella Assange, esposa de Julian, comparou o caso do marido ao de Alexei Navalny — figura celebrada pela mídia ocidental como herói anti-Putin, mas que, na Rússia, foi autodeclarado etno-nacionalista e organizador das “Marchas Russas”, de caráter xenofóbico, defendendo abertamente o extermínio de imigrantes.

Em um de seus vídeos, Navalny chegou a afirmar que “precisamos eliminar as moscas e as baratas”, enquanto mostrava homens muçulmanos como “alvos”. Em outro momento, comparou imigrantes ilegais a dentes podres que “precisam ser arrancados com firmeza”.

Stella Assange, em seu círculo, sempre defendeu tais intervenções como estratégicas para a libertação de seu marido. Mas onde começa a coerência e o comprometimento com a causa, e onde termina o oportunismo político?

Nos últimos anos, Stella tem se aproximado de figuras controversas, como Russell Brand e Mark Schellenberger — este último defensor público da ideia de intervenção militar norte-americana no Brasil para “conter a ditadura do Supremo Tribunal Federal”, além de organizador de encontros com a ala mais esquizofrênica do bolsonarismo.

A questão que se impõe é: quais são, afinal, os verdadeiros compromissos éticos do WikiLeaks?

Talvez nem eles mesmos saibam — foi essa, ao menos, a minha impressão mais honesta, depois de ter participado do núcleo íntimo da campanha pela libertação de Julian Assange.

A plataforma como palco de uma crise

O projeto WikiLeaks TV, apoiado por Kristinn Hrafnsson e outros membros em busca de um novo destino, pode se tornar o palco onde essas contradições explodam diante das câmeras.

A exposição televisiva pode revelar o quanto o grupo se fragmenta entre libertários dogmáticos, pregadores do individualismo e defensores da liberdade de expressão como princípio absoluto e sem limites, apoiando-se em teóricos conspiratórios e figuras do anti-sistema.

O WikiLeaks nasceu como um espaço de transparência e denúncia, e seu legado é revolucionário e indelével.

Mas vale a pena viver entre a nostalgia do que se foi e se reinventar como algo que nunca se propôs a ser — mesmo que isso signifique trair seu legado?

Sara Vivacqua
Sara Vivacqua é advogada, graduada em Direito pela Ruprecht-Karls-Universität Heidelberg (Alemanha), e mestre (honours)em Jornalismo Investigativo pela Birkbeck, University of London, com menção máxima (distinction) na dissertação final sobre os povos Yanomami. Atuou como procuradora no Government Legal Department (GLD) junto ao Ministério do Meio Ambiente do Reino Unido, e é conhecida por sua atuação na campanha pela libertação de Julian Assange em Londres