Exclusivo: documentos provam que Sabesp adiou anúncio de crise hídrica

O Cantareira
O Cantareira

 

Esta é a nova reportagem da série do DCM dedicada a investigar o papel da Sabesp e de seu controlador, o governo de São Paulo, na crise da falta de água. As demais matérias estão aqui. Fique ligado. 

 

O diretor metropolitano da Sabesp, Paulo Massato Yoshinomoto, prestou um depoimento ao Ministério Público no dia 14 de novembro de 2014, às 15h40. O DCM teve acesso ao documento integral de sua fala, que revela quando, afinal de contas, a empresa considerou crítica a situação do sistema Cantareira, quatro meses antes da utilização do volume morto.

“A partir de dezembro de 2013 notamos uma queda da vazão do afluente às represas do sistema Cantareira. No entanto, em janeiro deste ano de 2014, verificamos uma queda anormal do regime de chuvas, motivo pelo qual consideram esse mês como marco inicial da atual crise hídrica”, disse Massato ao MP.

Na época, o nível das represas do sistema caiu de 29% para 16%. De acordo com Samuel Barrêto, gerente do departamento de água da ONG The Nature Consevancy (TNC), o nível necessário para a Cantareira operar por um ano é de 30%.

A estimativa da organização tanto é verdadeira que no dia 15 de maio de 2014, quatro meses depois da crise decretada dentro da Sabesp, a Cantareira baixou até 8,4%. Ao invés de decretar o racionamento imediato, a companhia realizou o bombeamento do volume morto das reservas locais, água que fica num nível abaixo das comportas de abastecimento, na intenção de elevar a represa até 18%.

Nem a Sabesp e nem o governador Geraldo Alckmin relataram publicamente na época a real situação de calamidade do sistema responsável por 73,2% da receita bruta operacional da empresa. A seca na região sudeste é inédita, no entanto a Sabesp sabia que o fornecimento de água entraria em colapso.

Um documento recentemente foi enviado à CPI que investiga a Sabesp desde 2014. O arquivo, chamado “Plano de Contigência II”, menciona abertamente que o racionamento de água não foi decretado antes de propósito. Diz o documento: “O Plano de Contingência II está, então, evitando que a população seja submetida ao rodízio e aos malefícios correspondentes à sua implementação, cujos mais impactantes são os riscos à Saúde Pública devido às pressões negativas que as redes ficam submetidas”.

O mesmo arquivo diz que o caso de racionamento trará problemas de abastecimento aos diferentes imóveis de São Paulo.

Quem é Paulo Massato

O diretor metropolitano Massato entrou na Sabesp há 32 anos, em 1983, sendo 11 deles na mesma função. “Ocupei o cargo de superintendente de manutenção, de 1987 até 1990. De 1990 a 1995, atuei como superintendente de produção de água. De 1995 a 2002, como superintendente de planejamento. Após, de 2002 até 2004, novamente como superintendente de produção de água e de 2004 até os dias atuais, tenho atuado como diretor metropolitano”, disse Massato em depoimento ao Ministério Público.

Em janeiro deste ano, ele declarou em áudio vazado em uma reunião interna: “Alguém brincou aqui, mas é uma brincadeira séria. Vamos dar férias. Saiam de São Paulo porque aqui não tem água, não vai ter água para banho, para limpeza da casa, quem puder compra garrafa, água mineral. Quem não puder, vai tomar banho na casa da mãe lá em Santos, Ubatuba, Águas de São Pedro, sei lá, aqui não vai ter”.

 

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Massato gerenciou o setor de perdas da Sabesp entre 1996 e 2003, quando trabalhava no setor de planejamento da instituição. Depois, com as previsões catastróficas para 2010, ele não poderia ter emitido esse aviso anteriormente? Quem “brincou” dentro da Sabesp?

Uma denúncia anônima surgiu no mesmo período em que Paulo Massato prestou depoimento ao Ministério Público, em novembro do ano passado. No documento, assinado por um ex-funcionário, ele é apontado como amigo de diretores das empresas vencedoras de licitações de vazamentos de água, o que poderia ter atenuado a seca da Cantareira. A facilitação era feita via Associação Brasileira de Ensaios Não Destrutivos (ABENDI).

Como a crise só foi decretada quando o nível caiu para 16%? Quatro meses depois, o sistema passou a operar no volume morto, com alguns poucos picos.

Por que a Sabesp não falou publicamente sobre a crise

“O que temos atualmente é um inquérito de cinco volumes. No atual estágio, estamos fazendo um levantamento pericial das oito empresas acusadas na denúncia e que participam de cartel. Estamos apurando o que cada companhia fez e quais contratos deixaram elas nesta determinada posição”, disse ao DCM Marcelo Milani, do MP.

Na primeira reportagem da nossa série sobre a Sabesp, apuramos que a ABENDI teria participado em 38 licitações de contenções de vazamentos. O promotor disse que teve acesso a mais documentos e, ao todo, seriam 42 contratações que vão ser investigadas pelo Ministério Público. “Temos o valor de um rombo em torno de R$ 1 bilhão, mas precisamos ainda averiguar a veracidade desta informação”, complementou Marcelo Milani.

A Sabesp e as empresas de capital misto, ou mesmo as públicas, colecionam denúncias, de acordo com o promotor Milani.

A crise da Cantareira foi declarada internamente na empresa em janeiro de 2014. O volume morto passou a ser utilizado quatro meses depois e os níveis do sistema nunca voltaram ao padrão de dezembro de 2013, com cerca de 30%, o necessário para um ano sem problemas. Por que o racionamento não foi decretado?

Dilma Pena, presidente da Sabesp até o ano passado, falou em um áudio que vazou da companhia que “ordens superiores” impediram que a população fosse alertada da falta d’água. O assunto só voltou à tona no final do ano.

Em outubro de 2014, o tucano Geraldo Alckmin foi reeleito em primeiro turno para o seu segundo mandato consecutivo — quarto, considerando o período em que ficou entre 2001 e 2006. No mês seguinte, surgiu a denúncia anônima apontando para formação de cartel interna com fornecedores da Sabesp, citando o nome de Massato como facilitador.

Foi só acabarem as eleições para que aparecessem vazamentos e acusações no Ministério Público.

 

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