Exclusivo: Empresário usado pela Lava Jato para detonar Dilma em 2014 é acusado de golpe em SP. Por Joaquim de Carvalho

A capa da revista Época, às vésperas da eleição de 2014, e Hermes: faltava credibilidade ao empresário, mas ninguém questionou.

Esta reportagem faz parte do nosso projeto de crowdfunding sobre a Lava Jato. Outras virão. Fique ligado.

Nas duas reportagens anteriores, viu-se como Sérgio Moro se empenhou para manter a Lava Jato com ele.

Foi uma investigação em que parecia haver interesse pessoal do juiz.

Em 2006, Moro tomou conhecimento de que a Polícia Federal gravou interceptação telefônica de uma conversa entre advogado e cliente, o que é ilegal, mas mesmo assim avançou na investigação.

Às vésperas de ser obrigado a ceder metade dos inquéritos sob sua jurisdição a outro juiz, ele tomou uma decisão, manuscrita, o que é incomum, que criou um vínculo com o trabalho que a PF vinha desenvolvendo.

Ele não queria perder Alberto Youssef.

Era como se ele fosse dono do doleiro.

Vamos ver agora um pouco de outra estratégia usada pelo juiz para alcançar seus propósitos na investigação que, anos depois, ganharia uma marca: Lava Jato.

É o uso da imprensa para manter acesa a chama do interesse público.

Ou, em outras palavras, o fogo que faz queimar reputações, principalmente de nomes ligados ao PT, que parece ser um alvo há muito definido.

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Em setembro de 2014, algumas semanas antes do primeiro turno da eleição presidencial, a revista Época publicou uma reportagem com o empresário Hermes Freitas Magnus, apresentado como o homem que detonou o Petrolão.

A reportagem é de capa, em que aparece um tambor cor de laranja, com um adesivo da Petrobras, e um furo, por onde vaza petróleo. “A Petrobras e o mensalão – depoimento exclusivo revela o elo entre os dois esquemas”.

É uma reportagem que fez barulho no momento em que Dilma Rousseff e Aécio Neves disputavam o voto dos eleitores, mas sua principal fonte, o empresário, apresenta um relato que não se sustenta.

O depoimento é de 22 de julho de 2014, mas só foi vazado nas semanas que antecederam a eleição.

O vídeo da audiência presidido por Sérgio Moro mostra um homem de paletó preto, com óculos escuros pendurados na camisa também preta, que gesticula bastante.

Hermes era dono da Dunel Indústria e Comércio, empresa usada pelo então deputado José Janene para lavar dinheiro recebido do esquema do mensalão.

A empresa era fabricante de componentes eletrônicos e se instalou em Londrina, cidade de Janene.

“Foi muito de numerário em espécie, em maleta, em tudo o que vocês puderem imaginar, dentro da minha presa. Pagaram políticos dentro da minha empresa. Ou seja, o dinheiro não se limitou a isso”, diz ele, no depoimento.

O homem suspira, solta um éééééééé e completa: “Dinheiro falso, tudo o que vocês puderem imaginar tentaram me envolver.”

No depoimento, disponível em vídeo no youtube, ele diz que privava da intimidade de Janene a ponto de ter ouvido dele a declaração de que apenas José Dirceu e ele (Janene) eram capazes de derrubar Lula.

Diz também que consultou um tio advogado, ex-padre, que suspeitou de lavagem de dinheiro e o orientou a deixar o negócio.

Só que ele não deixou, apesar de relatar ter sido ameaçado de morte e de ter uma casa incendiada na cidade de Penha, em Santa Catarina.

“Eles queriam que eu assinasse um contrato de mútuo”, afirma. “Mas eu não assinei”, diz.

Em um ponto do depoimento, Alberto Youssef, que estava preso, mas acompanhava a audiência, pede para falar com o advogado e diz, indignado: “Ele está mentindo, ele é mentiroso.”

Aí se ouve a voz fina de Moro: “Não, mas aí não. Daí eu não permite esse tipo de comentário.”

Youssef aponta para Hermes e repete: “Ele está mentindo”.

Moro continua: “Depois o seu advogado vai poder questionar qualquer declaração que foi feita.”

Youssef continua exaltado.

Moro adverte:

“Eu vou pedir para tirar o senhor da sala se o senhor continuar.”

Youssef se cala, e a audiência continua.

Youssef diz a Moro que o empresário mente e o juiz ameaça tirar o doleiro da sala

Termina com uma resposta de Hermes à pergunta de Moro sobre a quem pertencia o dinheiro investido na empresa – “era de José Janene ou de quem exatamente?”

Hermes responde:

“O José Janene capitaneava tudo isso. Mas ele dizia que era da CSA (a empresa de Youssef), que era um condomínio de investimentos e lá estavam várias pessoas.”

O homem então levanta e encolhe as duas mãos, como se quisesse dizer: “vá saber.”

Moro insiste: “O senhor tinha presente que esses valores vinham pela CSA?”

Ele diz que sim, mas se surpreendeu quando soube de um fornecedor que não foi a CSA que o pagou.

A reportagem alimentou a especulação de que, por trás da CSA, estavam Lula e o PT.

Depois da reportagem em Época, Hermes deu entrevista a várias emissoras de TV, Globo inclusive, aos jornais e continuou falando, inclusive a publicações que ele procurou no exterior.

Uma de Lisboa, Público, e outra de Berlim, a Deutsche Welle. O título da matéria do jornal português fala por si:

“Denunciante do maior caso de corrupção no Brasil garante que dinheiro passou pelo BES”(banco de Portugual)

Sempre que a Lava Jato começa a esfriar, Hermes reaparece em entrevistas que seguem o mesmo roteiro: ele teria sido vítima de um esquema corrupto e violento, num país que se nega a lhe dar proteção.

A última foi em dezembro do ano passado, no Jornal da Band, da TV Bandeirantes. A reportagem é apresentada desta forma:

“Uma das testemunhas-chave que desencadearam a operação Lava-Jato vive hoje fora do Brasil. Apesar do medo de sofrer retaliações pelo que revelou, o empresário quer voltar ao país, mas pede proteção.”

Em uma das reportagens, ele conta que conseguiu asilo nos Estados Unidos, mas não quis ficar lá, porque, como asilado, não poderia voltar ao Brasil.

Em outras reportagens, conta que morou em Portugal e tentou obter residência permanente na Alemanha.

Diz que viaja pelo mundo com dinheiro do próprio bolso. Estaria fugindo do perigo no Brasil.

A história que Hermes conta daria um bom roteiro de filme, mas não bate com o Hermes da vida real.

Primeiramente, a investigação que resultou na Lava Jato começou antes de 2008, quando ele se associou a Janene.

Foi em 2006, através de uma escuta telefônica que apontou indícios de que Youssef continuava lavando dinheiro para Janene.

Depois, se ele diz ter sofrido ameaça entre 2008 e 2010, quando Janene morreu, por que continuou ligado ao grupo e fazendo negócios no Brasil, inclusive em São Paulo?

O incêndio que ele relata ter havido em uma casa de sua propriedade na Penha não foi objeto de registro policial. Segundo ele, a Polícia Federal de Londrina o aconselhou a não fazer o registro.

Mas, se a Polícia Federal, já naquela época sabia do incêndio, por que não tomou nenhuma providência.

Na audiência em que ele conta esse caso, Moro e nenhum dos procuradores pergunta por que a Polícia Federal o teria orientado a não fazer registro do incêndio supostamente criminoso.

Se Hermes já tinha enviado e-mail, relatando ter sido vítima do esquema de Janene em 2008, por que ele só aparece para depor na Vara de Moro em Curitiba em 2014, o ano das eleições?

Não é preciso muito empenho para verificar que as declarações de Hermes deveriam ser tomadas com reserva.

Algumas empresas instaladas em São Paulo o acusaram de aplicar golpe antes de 2014, quando Moro tomou seu depoimento.

Émerson Manoel da Silva, dono da Labotec Ensaios, encomendou de uma das empresas de Hermes equipamentos eletrônicos. Pagou o equivalente a 210 mil reais e recebeu apenas três peças, que não valem 5 mil reais.

Émerson registrou boletim de ocorrência na Polícia e entrou com uma ação na Justiça para cobrar o valor pago. “Ele prejudicou muito a minha empresa”, diz Émerson. “Causou muito tumulto”, afirma. Émerson o define como uma pessoa de boa lábia, que “sabe enganar as pessoas”.

Segundo o empresário, Hermes apresenta soluções, “diz o que você quer ouvir”, mas não entrega o que promete.

Fachada da empresa vítima de Hermes: recebeu da Labotec e não entregou.

Na Justiça, o advogado de Hermes fez um acordo com Émerson, para devolver à Labotec o dinheiro que recebeu. Mas não cumpriu, e a ação continua tramitando, agora em grau de recurso.

Já na Justiça Federal em Curitiba Moro atendeu ao pedido de seus advogados e, na sentença que condenou Alberto Youssef, determinou que Hermes e a sócia, Maria Teodora Silva, recebam 1 milhão de reais, a título de reparação pelos danos sofridos.

Na sentença, Moro escreveu:

— O reconhecimento do direito de indenização também premia quem buscou afastar-se do ilícito e denunciá-lo às autoridades.  Fixo o dano mínimo por eles sofridos em um milhão de reais, considerando que foi o valor estimado da parte deles no empreendimento, em máquinas, marcas e capital intelectual, conforme previsão do “Memorando de Entendimento para Constituição de Sociedade e Outras Avenças” celebrado em 18/06/2008. O valor deverá ser corrigido monetariamente e acrescido de juros de mora desde então.

— O Brasil me deve muito – disse o empresário Hermes em algumas de suas entrevistas.

Moro também deve achar e decidiu recompensá-lo.

Reportagens desta série:

Exclusivo: como Sérgio Moro emparedou Teori e o STF para consolidar seu poder.

Banestado & Youssef: como Sérgio Moro agiu para não perder a Lava Jato.

 

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