
A professora de Direito Paula Zambelli Salgado Brasil tem 50 anos, quatro a mais que sua irmã, a ex-deputada Carla Zambelli. As duas tem aparência física e vozes semelhantes. Em 20 de outubro, Paula declarou voto em Luiz Inácio Lula da Silva.
Dois dias depois, Paula foi ao ato de uma frente ampla pela soberania organizada pelo grupo Direitos Já. Pesquisadora do tema, Paula Zambelli Brasil diz que não tem como fechar com o projeto entreguista de Flávio Bolsonaro.
Na família, somente Paula, o ex-marido e os filhos não embarcaram no bolsonarismo. Bruno Zambelli, seu irmão, foi reeleito deputado estadual em São Paulo pelo PL. A irmã Carla entrou como deputada federal em 2018 e se tornou a mulher mais votada no Brasil, pelo bolsonarismo e a extrema direita, em 2022.
Professora, Paula deu assistência para alunos na pandemia, enquanto sua irmã Carla retirou a máscara e aderiu às teses negacionistas de Jair Bolsonaro. Ela também fez críticas à irmã quando Bolsonaro vetou a distribuição de absorventes a estudantes e pessoas pobres em 2021.
Em sua primeira entrevista, Paula Zambelli explicou ao DCM como é sua relação com Carla e o que levou a levou a declarar voto no 13.
DCM: O que te levou a decidir declarar voto em Lula?
Paula Zambelli: Foi uma decisão bem pensada, tá? Quando decidiram que minha mãe concorreria no lugar da minha irmã, já sabia que ficaria mais calada no primeiro turno. Minha mãe não foi eleita. Com o resultado do primeiro turno, achei que estava na hora.
Eu sabia que teria que me manifestar em algum momento e estamos nessa história desde 2018. Sou a mais velha dos meus irmãos e é a Carla que é parecida comigo, pois eu sou mais velha que ela. Carla Zambelli já me imitou muito, chegando a mandar áudios.
Minha voz sempre foi parecida com a dela e eu nunca tive voz pública. Minha decisão de votar em Lula não é de hoje.
Meu medo sempre foi que isso parecesse um ataque à Carla. Isso nunca foi um ataque contra Carla Zambelli. É um posicionamento que eu decidi que precisa ser público.
Tive até dificuldades de gravar aquele vídeo. Tenho um iPhone com tela quebrada e cheguei a ser chamada de “comunista de iPhone”. Eu nem sou comunista. Sou a favor de um Estado social, que é diferente do que pensam os defensores de um Estado liberal. Conheço essas diferenças de conceitos.
Não postar nada, não me posicionar, sendo uma professora de teoria geral do Estado, de direito constitucional, sendo eu uma advogada, parecia que era se omitir. Posições políticas diferentes existem e esse é o lindo da democracia.
Joice Hasselmann declarou voto em Lula, sendo inimiga histórica do presidente. Parece que agora cada voto importa. Você fez por conta disso?
É por conta disso. Não foi só a Joice. Miguel Reale Junior, de quem minha irmã foi próxima no golpe contra Dilma, está gravando vídeos por Lula, após um trabalho pelas vítimas da covid.
Existe um risco. Com meu voto, eu queria acessar muitos alunos meus. Sou professora desde 2000 e peguei uma era muito democrática do ensino. Até 2015, não tínhamos exemplo de tentativas de golpes recentes e muito menos de intervenção federal. Passamos a ter.
Em 2016 eu me divorcio e a Carla passa a ter projeção pelo impeachment contra Dilma Rousseff. Eu falava para ela que isso é golpe parlamentar. A Carla assinou o pedido de impeachment e chegou a escrever livro na época.
Eu expliquei para a Carla Zambelli que era um golpe e ensinei como funciona um impeachment para ela. Quando ela tinha dúvidas sobre Direita, era comigo que ela tirava dúvidas.
Sua irmã foi se tornando mais extremista. Ela teve uma votação expressiva em 2018, a Joice denuncia o gabinete do ódio e ela meio que herda os votos, né? Eu entendo você omitir o Zambelli (e usar o sobrenome Brasil), por que virou sinônimo de Carla, não?
Zambelli virou sinônimo de Carla. A Carla foi crescendo, ganhou projeção política, foi aparecendo cada vez mais. Ela é uma pessoa que fala bem e ninguém tira isso dela. Foi a mulher mais votada de 2022, depois de romper com a Joice Hasselmann. Elas foram bem amigas.
Quando a Carla cresceu politicamente, eu estava com uma criança pequena para criar. Estava escrevendo meu doutorado. E era época de Lava Jato. E isso teve outras repercussões na minha vida.
Eu fui casada com uma pessoa que trabalhava em uma das empreiteiras. Acompanhei muito a Lava Jato porque sou uma pessoa muito resistente ao ativismo judicial que existe, essa condução de processo por juiz, um juiz que a gente vê claramente que é parcial.
A Lava Jato foi o germe do mal?
Agora é a professora de Direito falando. Eu tinha resistência ao Sergio Moro, enquanto minha irmã era uma pessoa que fazia vigília pelo Moro na Paulista, colocando velas e fazendo orações.
Sergio Moro foi padrinho de casamento da Carla. E eu fui ao casamento com o coronel Aginaldo, que é uma pessoa que prezo muito, gosto muito e sempre me tratou super bem.
Não sei se o Aginaldo vai ver essa entrevista, mas ele me abraçou no casamento e me disse: “Eu sei o quanto isso pesa para você, o quanto custa para você estar aqui, mas pra sua irmã é importante que você esteja. Então, obrigado”. As pessoas sabem das minhas diferenças com ela, para o espanto de zero pessoas.
🇧🇷 IRMÃ DA EX-DEPUTADA BOLSONARISTA CARLA ZAMBELLI (PL-SP) DECLARA VOTO EM LULA: “EU VOTO 13”
Paula Zambelli Salgado Brasil, advogada e professora universitária, anunciou em vídeo nas redes sociais que votará em Lula (PT) no segundo turno, no próximo domingo (25). Ela defendeu a democracia e afirmou que, apesar das divergências políticas, continua amando a família.
— Democráticos (@DemocratsBR) October 22, 2026
Carla Zambelli, que chegou a ficar presa na Itália, foi vítima do que ela plantou?
Acho que sim. Eu sei onde a Carla estava e sei os pronunciamentos que ela fez no 8 de janeiro de 2023. E todos os pronunciamentos foram para não quebrar nada. No dia ela estava em Fortaleza com os meus pais.
Acompanhei as redes sociais de todos os grandes bolsonaristas. Queria saber quem estava por trás disso. Vi as redes sociais do Flávio Bolsonaro, do Eduardo Bolsonaro e do próprio Jair Bolsonaro. E dei prints nos stories.
O Eduardo Bolsonaro tinha print e link sobre a compra de tanques de guerra. No do Jair tinha uma foto dele olhando para cima e afirmando que mais notícias estavam no Telegram. E tinha uma música no fundo. A música era uma sinfonia 64 ponto 2. Não era a toa.
É traição quando você fala da Carla?
Parece, mas não é. Eu amo muito a minha irmã. E parece que eu não gosto tanto do meu irmão Bruno, mas gosto dele também. Minha irmã Carla levou isso para uma live e levou isso para o pessoal.
Não é traição minha votar em Lula e na frente ampla.
Essa reação gerou uma onda de centenas de mensagens me xingando. Consigo me importar com pessoas que eu não concordo e quero que a políticas públicas sejam realizadas para beneficiá-las. Quero pensar no todos e no coletivo. E quero eleger quem pense no todo e no coletivo. Pensando nos indígenas por exemplo.
Eu quero preservar o que ainda temos. Eu tenho 50 anos e a Carla, 46. A gente vai viver mais tempo e eu não queria não conviver mais com ela. Eu tô sem dar um abraço na minha irmã há um ano e meio, não consegui falar. Ela ficou 10 meses presa na Itália.
Ela me mandou cartas de lá. Duas cartas incríveis e teve carta dura.
Bolsonaro vetou absorventes para meninas pobres e presídios. Isso me deu ódio e vontade de gritar. O Congresso colocou vetos e a Carla defendeu o Bolsonaro. Ali eu peguei no pé dela. Disse que ela não precisava dar esse tipo de lealdade.
Disse para ela: Se a sua lealdade estiver medida por votar em algo que você mesma não acredita para mostrar lealdade, desculpa, você está deixando de acreditar na democracia e em mais de um milhão de pessoas que votaram em você.