
POR GABRIEL SIQUEIRA
Um documento oficial obtido com exclusividade pelo DCM revela que uma milícia formada por policiais ligados a João de Deus continua operando em Goiás, cobrando mensalmente R$ 3500 de famílias de testemunhas que denunciaram os crimes do médium. O Ofício da Defensoria Pública do Estado de Goiás, endereçado ao Home Office britânico para apoiar um pedido de asilo, detalha o esquema de extorsão com nomes, valores e datas.
Segundo o documento, a milícia não oferece proteção — ela cobra para não executar os parentes das vítimas que fugiram para o exterior: “Todo mês cobram uma ‘taxa’, no valor de R$ 3.500,00 (três mil e quinhentos reais) para ‘manterem a vida da família da Rosa [nome alterado para proteger a identidade da vítima]’, em constrangimento para que não haja prosseguimento nas denúncias relacionadas aos crimes por ela testemunhados.”
João Teixeira de Faria, conhecido como João de Deus, cumpre prisão domiciliar desde abril de 2020 em uma mansão em Anápolis, após ter sido preso em 16 de dezembro de 2018. Condenado a mais de 370 anos de prisão por crimes sexuais contra múltiplas vítimas, ele foi transferido do presídio para casa própria por decisão judicial que considerou sua idade avançada e problemas de saúde.
Enquanto isso, segundo a Defensoria Pública, seu filho Sandro Teixeira “tem ameaçado nossas testemunhas, coagido, entrado na casa das pessoas”.
A transformação da milícia: de taxas sobre turismo para extorsão de famílias
Fundada em 1976, a Casa Dom Inácio de Loyola, em Abadiânia (GO), recebia milhares de turistas semanalmente em busca de “cirurgias espirituais” realizadas por João de Deus. Foi nesse local que os abusos aconteceram durante décadas. No auge das atividades, nos anos 2010, Abadiânia tinha mais de 80 pousadas, sempre lotadas, e milhares de turistas por semana.
A milícia de João de Deus lucrava com uma rede ampla: cobrava taxas sobre hospedagens, transporte, comércio de produtos “benzidos” e até tráfico humano. Com a prisão do “médium” em dezembro de 2018 e o fim do fluxo turístico, o esquema precisou se reinventar — e se tornou ainda mais violento. Era um esquema parecido com o do financista pedófilo Jeffrey Epstein, inclusive com personagens poderosos em comum, como Bill Clinton. O caso de João de Deus é citado nos arquivos Epstein, como noticiou o DCM.
Atualmente, a milícia cobra uma “taxa de sobrevivência” de famílias de testemunhas que denunciaram os crimes de João de Deus. Segundo o ofício da Defensoria, o alvo não são apenas as vítimas que conseguiram fugir para o exterior, mas seus parentes que permaneceram em Goiás, vulneráveis à ação de policiais locais.
Rosa, citada no documento da Defensoria Pública, está refugiada em Londres desde 2017, após ter sido estuprada, sequestrada e ameaçada de morte por milicianos ligados a João de Deus. Ela havia denunciado uma rede de tráfico humano e abusos sexuais de crianças em uma ONG chamada Casa da Juventude (CAJU), em Goiânia. No Brasil, ficaram sua mãe idosa e dois filhos menores de idade.
A Defensoria Pública confirma um mecanismo perverso que inverte a lógica do suborno tradicional. O ofício detalha que o irmão de uma criança vítima de abuso sexual por João de Deus relatou em depoimento reservado que “ainda persistem as ameaças e atuação criminosa por grupos de milicianos, integrados por policiais que residem no mesmo bairro”. A família manifestou “temor em formalizar denúncias, agora relacionadas a esta ‘cobrança’ por milicianos, enquanto não tiverem a certeza da conclusão do reconhecimento do asilo e da proteção” da mãe na Inglaterra.
Outras vítimas e testemunhas também recebem cobranças de “taxas” similares — algumas pagam para que a milícia não execute parentes que ficaram em Goiás; outras pagam simplesmente para continuar vivas. O documento confirma ainda que coletivos de ativistas fazem vaquinhas para pagar a milícia e manter as famílias vivas.
“O custo de referida ‘taxa’ tem sido suportado por coletivos ativistas do Brasil e Europa, como COAME – Combate ao Abuso no Meio Espiritual e Grupo Vítimas Unidas, que também recebem ameaças graves denunciadas por diversas vezes nos últimos 3 anos e 2 meses que atendem a Rosa.”
Maria do Carmo Santos, psicóloga e presidente do grupo Vítimas Unidas, confirmou em entrevista ao DCM na noite de ontem (12/02) que a extorsão persiste em 2026. “A cobrança continua hoje. É uma taxa sequestro. Não é de quem deve dinheiro, é de quem pode abrir a boca”, disse. A própria Maria do Carmo foi incluída no Programa de Proteção a Defensores de Direitos Humanos do Conselho Nacional de Direitos Humanos (CNDdH) após receber e-mails detalhando como seria torturada e assassinada caso continuasse denunciando.
Sandro Teixeira: o filho que assumiu o comando
Sandro Teixeira foi preso em 2 de fevereiro de 2019 por coação e corrupção ativa de testemunhas. A prisão ocorreu poucos meses após a detenção de seu pai. Em 12 de março de 2019, foi solto após conseguir habeas corpus no Tribunal de Justiça de Goiás. Desde então, segundo relatos de vítimas e ativistas ouvidos pela reportagem, ele age como o novo gestor do terror.
“O Sandro é pior que o João. Mais frio, mais violento”, afirma Maria do Carmo. “O método é simples: eles chegam e tomam o que querem. Antes era com as pousadas cheias. Agora, é com a extorsão direta de quem pode denunciar.”

O caso de Ana (nome alterado para proteger a vítima) ilustra o método. Ex-empregada doméstica de João, foi ela quem indicou à polícia onde estavam escondidos as armas e R$ 1,2 milhão em dinheiro que levaram à prisão do médium. Após depor no Ministério Público de Goiás, em maio de 2019, Ana recebeu ligação de Chico Lobo, gerente da Casa Dom Inácio de Loyola e braço direito de João, que a ameaçou de morte. Ao que tudo indica, a informação vazou de dentro do MPE — minutos depois de ela sair do prédio.
Ana teve de fugir do estado. Ela relata que o neto foi torturado por capangas. O caso foi denunciado formalmente em 2019 ao MPF, MP-GO e Corregedoria, segundo a entrevista com Maria do Carmo. Não há registro público de investigação sobre essas denúncias.
Em janeiro de 2019, a ativista Sabrina Bittencourt entregou ao Ministério Público um dossiê completo com provas sobre o esquema de tráfico humano comandado por João de Deus. A ativista brasileira morreu em 2 de fevereiro de 2019, com a causa oficial apontada como suicídio.
Sete anos depois, não há investigação federal conhecida, nem denúncia criminal, nem arquivamento fundamentado sobre esses crimes específicos. Documentos internos do Ministério Público Federal mostram que o dossiê de Sabrina foi remetido ao MP de Goiás, em Abadiânia, e ali permaneceu sem transparência sobre qualquer avanço. Ativistas afirmam não ter sido
informados de nenhuma apuração efetiva sobre tráfico humano ou milícia. O MPF remeteu o procedimento ao MP de Goiás, em Abadiânia — a cidade que até hoje ainda é controlada por João de Deus e seu filho. As únicas condenações que prosperaram foram por crimes sexuais. João de Deus acumula mais de 370 anos de pena, mas todo o resto — milícia, tráfico humano, lavagem de dinheiro — permanece sem investigação pública conhecida.
Maria do Carmo resume: “O Estado brasileiro lavou as mãos. Prenderam o João para dar satisfação à mídia, mas deixaram a máquina de moer gente funcionando na mão do filho.”