Exclusivo: Podemos, de Moro e Dallagnol, desvia recursos do fundo partidário para família dona da sigla

A dupla Moro e Dallagnol
A dupla que quer se aventurar no universo das urnas devia começar fazendo o dever de casa

POR ANDRÉ FLEURY*

Prestes a se filiar ao Podemos, com a pretensão de ser o ‘anti-Lula’ e após ser considerado suspeito, parcial e incompetente pelo STF nas condenações do ex-presidente, Sergio Moro assume a política embalado num samba de uma nota só: o combate à corrupção.

Conveniente, então, começar fazendo a lição de casa e apurar os escândalos envolvendo sua futura coordenadora de campanha, a deputada federal Renata Abreu, e o próprio partido que ela preside e ao qual o ex-juiz de Maringá promete se filiar na semana que vem.

Renata entrou no radar do Ministério Público Federal num caso escabroso de corrupção cometido pelo partido apenas dois anos atrás.

É um escândalo típico de legendas de aluguel como a que ela comanda.

Aconteceu numa pequena cidade do interior, Santa Cruz do Rio Pardo, quando um grupo de moradores de Cajamar e Franco da Rocha, na região metropolitana de SP, abriu uma comissão provisória do Podemos sem que ninguém nunca tivesse colocado o pé na cidade.

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A criação da sigla se deu em 26 de junho de 2019, segundo registros da Justiça Eleitoral. Juraci Barbosa, desconhecido na cidade, assim como os demais membros, foi eleito o primeiro presidente.

Embora sediado em Santa Cruz, os responsáveis pelo Podemos local abriram conta bancária bem longe dali, a 340 quilômetros, numa agência da Caixa Econômica Federal no Bairro do Limão, em São Paulo.

Fátima de Jesus Chaves ex-contadora do Podemos
Fátima de Jesus Chaves: caso clássico em que a emenda sai pior que o soneto

O negócio prosperou com a rapidez com que a Força Tarefa da Lava Jato cumpria as determinações de Moro quando o foco era perseguir Lula e tirar o ex-presidente da corrida eleitoral.

Aberta em 5 de agosto, a conta passou a movimentar recursos apenas um dia depois.

Em 6 de agosto foram depositados R$ 162 mil, e dois dias depois outros R$ 50 mil. Os repasses, todos provenientes do fundo partidário, se estenderam até novembro e totalizaram R$ 369 mil.

Documento de transferência de recursos do Podemos para o diretório de Santa Cruz
Documento mostra transferência do fundo partidário do Podemos por serviços contábeis prestados por Fátima Chaves

Não declarado à Justiça Eleitoral, o bom negócio acabou sendo descoberto por acaso, quando um ano depois o Podemos decidiu lançar candidato a prefeito na cidade e teve de prestar contas.

Descobriu-se, então, que os repasses foram integralmente repassados a terceiros – nenhum deles morador de Santa Cruz.

Uma das beneficiadas é a contadora Fátima de Jesus Chaves, assessora contábil do Diretório Nacional e ligada à família Abreu, controladora do Podemos.

Fátima embolsou R$ 229 mil sem prestar conta alguma. Só emitiu notas fiscais um ano depois, quando o caso explodiu e foi parar nos tribunais.

Uma das várias notas que apresentou diz que ela recebeu R$ 90 mil para orientar sobre documentação e dar 100 horas de palestras aos membros do partido. Não há indícios de que essa prestação de serviços tenha sido realizada.

A história não acaba aí.

A suposta sede do Podemos em Santa Cruz funcionava num endereço onde, na verdade, fica uma clínica de estética. Uma funcionária confirmou ao DCM que partido algum jamais funcionou naquele local.

A clínica de estética onde era para funcionar a sede do Podemos em Santa Cruz
A clínica de estética onde era para funcionar a sede do Podemos em Santa Cruz

Descobriu-se depois que a proprietária do estabelecimento é prima da contadora – fato que arrastou Fátima Chaves para o centro do escândalo.

Velha conhecida da família Abreu, Fátima iniciou sua prestação de serviços contábeis ao partido em 2011.

O contrato entre ela e a sigla foi assinado por José Masci de Abreu, pai de Renata Abreu, ainda na época em que o Podemos chamava PTN.

A contadora recebia R$ 3 mil mensais do PTN.

O contrato foi prorrogado sucessivamente até dezembro de 2019, quando Fátima se desligou do partido após aparecer em outros escândalos em nível nacional.

O Podemos jura que o caso de Santa Cruz é um assunto isolado e local, mas foge como o diabo da cruz quando questionado sobre a velha conhecida da família Abreu.

Foi sob a gestão contábil de Fátima que as contas do Podemos de 2014 foram contestadas pela Justiça Eleitoral.

O diretório paulista do partido ficava no Centro de Tradições Nordestinas, entidade comandada pela família Abreu e localizada no Bairro do Limão, onde está localizada a Caixa Econômica que abrigava a conta-corrente do diretório municipal da pequena Santa Cruz.

Talvez Moro não saiba, tampouco seu colega Deltan Dallagnol, que se exonerou do Ministério Público Federal para também seguir carreira no negócio da política. Mas nunca foi surpresa para ninguém que o Podemos sempre cumpriu papel de um bom negócio para os Abreu.

Não por acaso funcionários das empresas da família – fato apontado pela Justiça – pagaram serviços de táxi, por exemplo, com recursos do fundo partidário. Os mesmos empregados que foram encarregados de administrar o departamento financeiro da sigla.

Naquele mesmo 2014, a contadora Fátima Chaves, para além dos serviços contábeis, recebeu R$ 75 mil a título de “serviços de instrução”. A prestação de fato, segundo a Justiça, nunca foi comprovada.

Nota fiscal emitida por serviço prestado para a deputada Renata Abreu
Nota fiscal emitida por serviço prestado para a deputada Renata Abreu

Mesmo tão enrolada Fátima nunca foi alvo de desconfiança da família, que a manteve no quadro de funcionários até 2019.

Sua capacidade profissional é de tal modo eficiente que não se restringiu ao circuito partidário. Fátima também tirou nota fiscal para a Câmara dos Deputados.

Foi entre os anos de 2016 e 2017, quando a deputada Renata Abreu precisou de seus préstimos para serviços, entre outros, de “consultoria, pesquisas e trabalhos técnicos”. Gastou R$ 91 mil da sua cota parlamentar com a especialista.

Pagamento em duplicidade também não era empecilho para custear os serviços da eficiente prestadora: em março de 2017, por exemplo, quando Fátima embolsou R$ 9,5 mil da Câmara dos deputados, o Podemos lhe transferiu R$ 3 mil a título de atividades contábeis.

Não é de admirar que tanta estripulia com dinheiro público levasse a contadora de confiança da família Abreu às barras dos tribuinais. Fátima Chaves está prestes a ser investigada.

No mês passado, o juiz eleitoral Rafael Martins Donzelli rejeitou as contas do Podemos em Santa Cruz do Rio Pardo e determinou o envio dos autos ao Ministério Público Federal.

Na decisão, o magistrado deixa claro.

“A constituição do órgão partidário do Podemos em Santa Cruz do Rio Pardo serviu, única e exclusivamente, para o desvio de vultosos valores do fundo partidário”, escreveu.

A comissão provisória do partido na cidade bem que tentou se esquivar de eventuais condenações. Mas a emenda saiu pior que o soneto.

Meses após a suspeita das contas vir à tona, o partido apresentou uma “retificação” que, segundo seus membros, seria a prova de que os serviços prestados por Fátima foram efetivamente prestados em 2019.

Vídeo do Podemos virou piada

Vídeos institucionais apresentados mostraram obras que só foram feitas em 2020, como apontou a sentença de Donzelli.

“Observam-se gravíssimas irregularidades decorrentes da emissão das notas fiscais, ausência de comprovação da efetiva prestação de serviços e divergência do beneficiário dos valores”, registrou o juiz.

No mês passado, o ex-presidente da sigla, Juraci Barbosa, interpôs recurso à sentença e se prontificou a devolver os R$ 369 mil em quatro parcelas iguais.

O caso envolvendo a pequenina Santa Cruz só foi revelado porque políticos decidiram, como Moro e Dallagnol, se aventurar pelo universo das urnas.

Para regularizar a situação do Podemos no município, o então candidato a prefeito Murilo Sala apresentou uma petição à Justiça Eleitoral afirmando que havia assumido o partido e que, nos anos anteriores, apesar da comissão provisória, o Podemos não havia movimentado um único centavo de recursos financeiros na cidade.

Renata Abreu que está com Moro e é 'cidadã de bem', também é fã de Bolsonaro
Renata Abreu que está com Moro e é ‘cidadã de bem’, também é fã de Bolsonaro

Procedimento comum nos processos eleitorais, a Justiça então pediu o histórico bancário da sigla. Foi quando o escândalo veio à tona.

Até o momento não há ligações entre Murilo Sala e a antiga comissão provisória.

O candidato disse à Justiça que foi o diretório estadual do Podemos quem passou a informação sobre o partido não ter movimentado recursos.

De qualquer forma, Murilo também deverá ser ouvido no inquérito se este for acolhido pelo MPF, assim como os antigos membros da comissão provisória.

Partido que encampou as bandeiras do lava-jatismo – e que agora quer lançar Sergio Moro à presidência e Dallagnol deputado –, o Podemos, a se considerar seu histórico, está longe de ser um convento.

Dono de um império de comunicação, José de Abreu, assim como a filha Renata, ostentam uma folha corrida que merece análise crítica e reflexão.

Quem sabe está aí um caminho para a dupla que corrompeu os processos da Lava Jato e abalou as estruturas da Justiça e do MP começar a sua lição de casa.

O poder e os rolos da família Abreu

José e Renata Abreu em audiência com Temer na época em que o golpista usurpou a presidência
Renata e José Abreu com Temer no período em que o golpista usurpou a presidência

Há quem diga que Sergio Moro é um caipira atrasado e sem preparo.

Isso, porém, não deve servir de justificativa para fingir que desconhece o tipo de gente com quem está se metendo ao assinar com o Podemos para disputar a presidência.

Renata e o pai, José de Abreu, são conhecidos por circular no submundo da vida pública e social. São ricos e desqualificados.

Renata responde duas ações por ter enganado candidatas para preencher a cota de mulheres na eleição de 2018, a mesma em que Bolsonaro venceu ajudado por Moro.

As ações foram apresentadas pelo Ministério Público eleitoral de São Paulo  sob acusação de que o Podemos recorreu a candidaturas laranjas.

As candidatas afirmaram terem sido usadas pela deputada apenas para preencher a cota feminina.

Essas mulheres que denunciaram a presidente do Podemos ao Ministério Público afirmam que Renata prometeu distribuir igualmente entre as candidatas do partido 30% dos 36 milhões de reais destinados pelo fundo eleitoral.

Na hora da eleição, deixou todas à míngua.

A única que recebeu recursos vultosos foi Heida Woo, aquinhoada com R$ 700 mil.

Mas não pense que foi por razões ideológicas. O repasse se deu para, segundo a própria Renata esclareceu às correligionárias, quitar o pagamento de uma dívida de seu pai ao marido de Heida, o ex-politico William Woo.

Dono da Atual AM, José de Abreu é um multimilionário empresário do setor de radiocomunicação, com emissoras de projeção em todo o país, sediadas especialmente na capital e grande SP.

Vive às voltas com a Justiça, seja na condição de político ou empresário, tendo sido, inclusive, acusado de manter sua governanta na folha de pagamento do partido, com recursos do fundo partidário.

Um típico ‘cidadão de bem’, ao gosto de Moro e dos inocentes que acreditaram na Lava Jato e continuam seguindo o ex-juiz e agora pretenso candidato a mandatário número 1 do país.

*Colaborou: José Cássio