Exército verde-e-amarelo de Bolsonaro, tem inspiração no passado. Por Denise Assis

Publicado originalmente no Jornalistas pela Democracia

Por Denise Assis

Aos que olham de esguelha para o esquadrão “verde-e-amarelo” que costuma dar expediente aos domingos na Esplanada, em Brasília, ou nas principais avenidas das capitais do país, digo que convém não fazer pouco dele. Saibam que não são “loucos” nem “fanáticos” . Trata-se, isto sim, de militantes focados, bem treinados e dispostos a ficar ao lado do seu “mito” até as últimas consequências.

O estilo devotado da militância, com ideias “terraplanistas” e fascistas – é disto que se trata – não é novo. Estavam presentes na Alemanha nazista de Hitler (lembram da juventude hitlerista?), e no golpe de 1964, que tirou João Goulart do poder. Engana-se quem pensou na TFP – os defensores da tradição, família e propriedade. Estamos falando das senhoras da Campanha da Mulher pela Democracia (CAMDE), que marcharam de terço na mão, pela Av. Rio Branco, no Centro do Rio, fazendo um “V” com os dedos, seguidas por uma multidão calculada pelos jornais da época em 800 mil pessoas, ao lado dos generais vitoriosos. Eles tinham acabado de dar uma rasteira na liberdade do país. Elas, colhiam os louros de um meticuloso trabalho organizado por dois anos: 1962-1964.

A esta altura é importante lembrar que, usando das prerrogativas inerentes ao cargo de presidente dos EUA, o de conceder indultos a presos pelo Estado americano, a poucas horas de deixar a Casa Branca, a residência oficial que ocupou durante os quatro anos de mandato, Donald Trump beneficiou 73 pessoas. Na lista, incluiu o nome do seu ex-assessor e conselheiro, Steve Bannon. Certamente, ao fazê-lo, Trump levou em conta o espólio de 74 milhões de votos obtidos na eleição que pretendeu tumultuar e conduziu ao posto que era seu, o democrata Joe Biden.

Com esta montanha de votos no currículo, seu gesto nos faz pensar que Bannon está em seus planos futuros e por isto vai precisar que ele esteja livre. Steve Bannon é o arauto do fascismo e das ideias negacionistas e “terraplanistas” pelo mundo, e mentor de um dos filhos de Bolsonaro. Ele mesmo, Eduardo, o 02. Bannon orquestra esse exército de cerca de 24% de militantes inarredáveis de Bolsonaro, através de Dudu. Tal como aconteceu no passado, eles são responsáveis pelo trabalho de estímulo à militância

Os que hoje ostentam a camisa da seleção em manifestações gritando palavras de ordem e pedindo o retorno da “ditadura militar”, o fim do Supremo e o fim do “comunismo” – o que quer que entendam por isto -,  leem pela cartilha de Bannon, que um dia foi ensinada ao grupo de mulheres da alta sociedade Ipanemense, bairro da Zona Sul onde tudo começou. À frente da iniciativa estava Amélia Molina Bastos, mulher miúda, moradora da Rua Barão de Jaguaribe, um dos pontos nobres do bairro. No desfile, Ladeava o líder do movimento, Olímpio Mourão Filho e com os dedos indicador e médio espetados para o ar, colhia aplausos por ter organizado a “Marcha pela Família com Deus pela Liberdade”, dias antes daquele desfecho.

A grande maioria quando se refere à esta marcha, acredita que ela foi um evento, apenas, organizado por mulheres católicas. Não foi assim. D. Amélia, uma professora da educação básica, aposentada, iniciou a conspiração para a derrubada de Jango em sua sala de jantar, dois anos antes, em 1962. Ali nasceu a CAMDE, o braço feminino do Instituto de Pesquisas e Estudos Sociais (Ipês), incentivada pelo pároco da Igreja Nossa Senhora da Paz, Leovigildo Balestieri.

D. Amelinha costumava reunir um grupo de até 22 famílias em sua casa, para a reza do terço. Naquele dia estiveram presentes também Glycon de Paiva, braço direito do general Golbery do Couto e Silva, – um dos artífices do golpe -, e o general Molina, irmão da anfitriã. Pediram a palavra, expuseram a ideia da derrubada do governo e disseram que se as mulheres não entrassem para reforçar, eles estariam perdidos. Levaram fichas que foram espalhadas entre os presentes. A adesão à conspiração foi imediata.

Desde então, Amelinha, que já vinha sendo “cantada” pelo irmão para fundar o braço feminino da entidade, mas relutava, pensou: “Comunismo-ateísmo. Então, tenho que defender a Igreja”. E foi assim que se decidiu. No dia seguinte já estava com um grupo de mulheres visitando as redações dos grandes jornais, protestando contra a escolha de San Thiago Dantas como provável primeiro-ministro (estávamos no sistema parlamentarista) e distribuindo 52 mil cartas por todo o país, propalando a ideia. Daí por diante sua casa vivia de portas abertas para receber jovens forças-tarefas, que tinham a incumbência de enviar cartas e panfletos pelo Brasil a fora. Nesses panfletos, costumavam estampar frases do tipo: “Você sabe o que o seu filho está fazendo agora?” ou: “Você sabe se sua filha continua virgem?”

Qualquer semelhança com os seguidores da ministra Damares Alves não é mera coincidência. As ideias que reverberavam naquela época são as mesmas que circulam nas faixas e cartazes aos domingos, encimando ombros verde e amarelos. Embora continuemos a olhar pera este verdadeiro “exército” com menosprezo, saibam que o poder de organização deles segue os moldes de D. Amelinha. É claro que os tempos são outros. Eles também têm consciência disto. Não por acaso têm linha direta com o “gabinete do ódio” por whatsApp e poder de fogo de disparar toneladas de fake news por minuto. Embora o discurso seja o mesmo: “abaixo o comunismo”, o ritmo é alucinante e o volume, assustador. Cuidado com as “amarelinhas”, tá?

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