“Exibiam armas e falavam que eram da polícia”: enfermeiros denunciam ameaças em meio ao coronavírus. Por Donato

Homem aborda marido da presidente do Seepe

A confirmação do diagnóstico de Covid-19 para o médico infectologista David Uip, espera-se, deve servir de alerta ao Ministério da Saúde e a todas autoridades que estejam no comando de operações do combate a pandemia.

David Uip é nada menos que o coordenador do Centro de Contingência do coronavírus em São Paulo. Agora está em quarentena, quando mais seria necessária sua atuação.

A contaminação de alguém de alto coturno precisa ser didática. Quem está na linha de frente tem alto grau de exposição. E muitos já estão se contaminando.

É o que profissionais da saúde (médicos e enfermeiros) estão avisando desde a semana passada, no mínimo.

Faltam equipamentos de proteção individual (EPIs) e muitos servidores estão com medo ou mesmo já infectados.

A contaminação de médicos, enfermeiros e motoristas de ambulâncias tem se dado por escassez de máscaras, luvas, óculos de proteção, toucas e aventais.

O DCM ouviu uma enfermeira do Hospital Geral de Cidade Tiradentes, na zona leste da cidade.

“O que mais tem aqui é caso de corona. Não estamos conseguindo dar conta. Só tem chegado gente com sintomas aos montes e uma médica já está infectada”, disse ela, que pediu anonimato por receio de represália.

Esse cenário é generalizado e já causa revolta. Ainda semana passada o Sindicato dos Enfermeiros do Estado de Pernambuco (Seepe) havia ameaçado paralisar as atividades por falta de EPIs. Ela não ocorreu porque no sábado o Tribunal de Justiça entrou com a mão pesada.

Não só o TJ, diga-se. Quem denuncia está recebendo ameaças graves.

O DCM recebeu a seguinte mensagem do marido de Ludmila Outtes, presidente do Seepe:

“Dois homens visivelmente armados e à paisana bateram na porta da minha casa na noite de hoje. Perguntaram por Ludmila, minha esposa. Perguntei quem eram e se apresentaram como sendo policiais civis. Um deles exibiu rapidamente uma suposta identidade funcional de modo que não me permitiu ver o nome.

Entraram num carro gol branco e ficaram estacionados na esquina da rua onde moramos.

Depois, um segundo carro entrou no condomínio. Uma mulher e um homem. Se apresentaram como polícia e, exibindo armas, disseram que queriam falar com Ludmila.

Os enfermeiros estão na linha de frente do combate ao coronavírus. Os servidores não podem atender pessoas sem máscara, luvas, touca, óculos, sob pena de serem multiplicadores da doença. Colocando em risco a vida da população.

No lugar de mandar policiais ou milicianos ameaçarem os lutadores sociais, o governo precisa fornecer os equipamentos para os enfermeiros trabalharem.”

Os relatos de falta de equipamentos já ocorrem em São Paulo, Rio de Janeiro, Mato Grosso, Belo Horizonte, Porto Alegre.

As denúncias são de falta de protocolo (ordem de utilizar a mesma máscara por uma semana, quando o correto é por turno de algumas horas) e até mesmo orientação evitar o uso de máscaras para “não assustar pacientes”. É o que o Conselho Federal de Enfermagem tem recebido de queixas de seus profissionais.

Epicentro da doença no país, São Paulo sai na frente também nesse quesito. Só o Hospital do Tatuapé já tem 10 funcionários infectados, segundo o sindicato.

A infecção de profissionais da saúde é quase inevitável.

Na Itália, cerca de 9% dos casos confirmados são de médicos e enfermeiros. Já chegam a 14 os médicos mortos. Durante o último final de semana a França anunciou a morte de 3 médicos. E a Espanha, que tem tido um aumento vertiginoso no número de total de casos e mortes, já possui mais de 3.900 médicos e enfermeiros contaminados. São 12% do total.

Vale lembrar que a chanceler alemã Angela Merkel está em quarentena após ter contato com um médico infectado.

Ontem o Brasil alcançou 1.891 casos confirmados, com 34 mortos. Ainda não estamos nem no início da subida. Precisaremos de todos os profissionais que atuam na saúde em condições de exercerem seu trabalho. Não é possível que sejam submetidos a um risco maior do que já previsto. É criminoso isso.

Mas tudo o que o Ministério da Saúde conseguiu responder até agora é que “tem trabalhado para garantir os insumos”, mas “tem encontrado dificuldade para encontrar fornecedores”.

De confirmado, apenas uma compra superfaturada em 67% no valor das máscaras junto a uma empresa chamada Farma Supply, que não tem nenhuma experiência em fornecimento de material hospitalar.

As credenciais da empresa é que ela pertence a um certo Marcelo Sarto Bastos, militar aposentado, e bolsonarista fervoroso.

Socorro.

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