A FAB e os 10.000 fios de cabelo de Renan

Com tanta coisa para implantar e ele escolheu - cabelo?
Com tanta coisa para implantar e ele escolheu – cabelo?

Flagrado usando jato da FAB para se deslocar de Brasília a Recife para implantar 10.000 novos fios de cabelo, o presidente do Senado Renan Calheiros se fez de rogado e atentou contra o bom senso, a decência, a moral e a lisura no trato com o bem público. A reação inicial ao clamor midiático foi também estapafúrdia: auscultar a chefia da FAB se o uso da aeronave oficial utilizada em seu deslocamento “teria sido imprópria ou indevida”.

Mesmo criança adentrando a adolescência saberia discernir entre o certo e o errado nessa situação. Funciona assim: bens públicos são bens do público brasileiro, bens privados são privados, é tudo preto no branco e não existem tons de cinza no intervalo de um a outro. A levar a sério tal reação, seria de se convocar uma minuciosa auditoria na gestão Renan Calheiros à frente do Senado da República. O objetivo seria descobrir o que há por trás dessa miopia presidencial em distinguir lícito do ilícito, moral do imoral.

Pelo jeito com que as coisas se encaminham no Senado é urgente o implante em sua gestão dos princípios que devem nortear a gestão pública e que estão inscritos no artigo 37 da Constituição Federal: Legalidade, Impessoalidade, Moralidade, Publicidade e Eficiência. A um rápido passar d’olhos vemos que a viagem para combater a calvície do senador alagoano não se enquadra em qusalquer desses princípios:

1. Não se reveste de legalidade pois que não há ato formal com justificativa para o uso da aeronova oficial, sendo requisitada a título de um evasivo “a serviço”.

2. Não se reveste de impessoalidade pois qualquer um dos demais 80 senadores ou, expandindo, qualquer um dos demais 200 milhões de brasileiros jamais teria acesso ao uso do jato da FAB com o intuito de “fazer cirurgia anticalvície” em hospital pernambucano.

3. Não se reveste de moralidade pois que ofende a este princípio em sua totalidade: em um país em que diversas cidades sofrem enchentes e inundações, com milhares de famílias desabrigadas apenas no estado do Espírito Santo, é totalmente imoral que recursos da União, do Governo Federal, do povo brasileiro sejam usados para fins tão mesquinhos e impróprios, recursos corretamente usados se destinados a socorrer as vítimas de fenômenos naturais.

4. Não se reveste de publicidade pois que não foi noticiado em qualquer dos meios de comunicação oficial do Senado – Jornal do Senado, TV Senado, Rádio Senado, Site do Senado ou em pronunciamento no plenário do próprio presidente da Casa ou mesmo de algum de seus pares.

5. Não se reveste de eficiência pois que por menos de R$ 1.300,00 se compraria um bilhete aéreo para cobrir o percurso Brasília/Recife e menos ainda para o percurso de volta, com destino a Maceió, local de residência do senador.

Ato contínuo, como o espetáculo medíocre precisa continuar sendo encenado, o mesmo presidente do Senado convoca rede de rádio e televisão para autolouvar sua gestão, segundo este, marcada por esses mesmos princípios constitucionais, alardeando economias milionárias, destroçando conquistas dos servidores da Casa – como o serviço médico, supressão adicional por desempenho auferido.

A questão que se impõe ao observador razoavelmente informado da cena política brasileira é:

Por quê acreditar na veracidade, propriedade, necessidade e correção de tais medidas divulgadas pelo senador Renan Calheiros? E se alguém, do alto de sua função republicana, necessita consultar o comando da FAB para saber se agiu certo ou errado ao requisitar aeronave da FAB para lhe transportar ao Recife com o intuito de implantar 10.000 fios de cabelos… como confiar na assertividade e na lisura administrativa de uma pessoa dessas?

Texto de autoria de Daniel Quoist

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