Fábio Assunção, a tragédia da dependência química e os milhões que a Globo ganha com anúncio de cerveja. Por Nathalí Macedo

Fábio Assunção é um exemplo atual de estigmatização midiática do alcoólatra/dependente químico (quase uma Amy Winehouse, só que vivo e com menos talento).

O ator foi preso depois de dirigir bêbado e se envolver em um “acidente” de trânsito em São Paulo.

Apresentando traços de embriaguez, depois de bater em dois carros e se recusar a fazer o teste do bafômetro, foi gentilmente conduzido à delegacia, deve pagar fiança e responder em liberdade por embriaguez ao volante.

Não é a primeira vez: ele já esteve preso depois de uma briga, também embriagado, e tem histórico de dependência de álcool e cocaína. Em todas as prisões, a mídia e o público estavam lá, ora com línguas afiadas e câmeras a postos, ora com alguma empatia.

Em outra feita, preso por desacato depois de se exceder no álcool, gerou comoção ao dizer, algemado no carro da polícia: “Eu não sou criminoso”, reagindo à espetacularização de sua prisão, que foi culminado pela espetacularização de todo o resto da sua polêmica vida pessoal.

Se não está fácil pra Fábio Assunção, imagina para os dependentes químicos estigmatizados e atingidos em cheio por uma visão punitivista que não ajuda em nada, e que não podem dizer “eu não sou um criminoso”, porque ninguém ouvirá, e que não têm condições de bancar o próprio tratamento ou patrões tão complacentes quanto a Rede Globo?

Bom que ao menos Fábio Assunção possa dizê-lo, chamando atenção para um problema de interesse geral: a política de drogas no país e a estigmatização contumaz do usuário.

Punir dependentes químicos não ajuda, tampouco ser complacente: em vez de varrê-los para debaixo do tapete – como fez Doria na cracolândia -, o poder público e a sociedade civil precisam tratar o alcóolatra/dependente químico como alguém que precisa de ajuda, portador de uma doença tão séria que é problema de todo mundo.

A Globo exigiu que o ator fizesse tratamento por um ano numa clínica de reabilitação para sua permanência na emissora. Na época, ele abandonou as gravações de uma novela para cuidar do problema, mas logo que cumpriu a primeira etapa do tratamento, teve alta, voltou à telinha e recaiu nos vícios.

Agora, entre uma recaída e outra, tenta manter vivo o Fábio Assunção galã dos velhos tempos, no ar com a “supersérie” – Rede Globo, a senhora já foi mais humilde – “Onde Nascem os Fortes”.

A falta de seriedade com que o ator trata o próprio problema é sintomática: poucos levam a sério os próprios vícios.

Já a complacência da emissora ao admitir o velho galã antes de terminado o tratamento – e antes da reclusão midiática necessária para que qualquer tratamento funcione – é, no mínimo, hipócrita.
Exige tratamento – porque entende que alcoolismo é uma doença –, mas não se importa se ele foi concluído com alguma eficiência e continua ganhando milhões com anúncio de cerveja, inclusive na transmissão dos jogos de futebol.

Coerência, a gente vê por aqui.

Quem sabe depois desse episódio o ator e a emissora levem mais a sério o tratamento – e o afastamento da mídia, a essa altura, mais do que necessário – e se amplie a discussão sobre dependência química para o grande público.

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