Fachin “perdeu credibilidade” para código de ética do STF, diz ex-ministra lavajatista Eliana Calmon

Atualizado em 27 de janeiro de 2026 às 11:51
A ex-ministra do Superior Tribunal de Justiça Eliana Calmon. Foto: Reprodução

A ex-ministra lavajatista do Superior Tribunal de Justiça (STJ) Eliana Calmon avalia que a proposta de criação de um código de ética para ministros do Supremo Tribunal Federal (STF), apresentada pelo presidente da Corte, Edson Fachin, não deve melhorar a imagem do tribunal. Para ela, o momento é inadequado e a iniciativa nasce fragilizada.

“Não se faz um código de ética em um momento em que a magistratura está em crise”, afirmou à BBC News Brasil, acrescentando que a sociedade estaria “em chamas contra o Poder Judiciário”. Segundo Calmon, mesmo que aprovado, o código corre o risco de ser ineficaz.

“Ou estará de menos, ou demais”, prosseguiu. Na avaliação da ex-corregedora do Conselho Nacional de Justiça (CNJ), Fachin “perdeu credibilidade” para liderar o processo por ter legitimado decisões controversas de colegas ou permanecido em silêncio diante delas. “Por ter coonestado com muitas das atitudes adotadas pelos seus pares, ele perdeu a credibilidade”, afirmou.

Conhecida por ataques ao Judiciário, Calmon relembra que, em 2011, chegou a se referir a juízes como “bandidos que estão escondidos atrás da toga”, ao comentar tentativas de limitar o poder de fiscalização do CNJ. Primeira mulher a integrar o STJ, aposentou-se em 2013 e, aos 81 anos, atua hoje como advogada, consultora e palestrante.

Para a ex-ministra, o STF vive seu pior momento institucional. Ela afirma que a Corte deixou de respeitar o sistema de freios e contrapesos e que críticas ao tribunal são frequentemente tratadas como ataques políticos. “Chegamos ao fundo do poço”, declarou, ao dizer que opositores do Supremo são rotulados como “bolsonaristas e subversivos”.

Ministro Edson Fachin durante sessão plenária no STF. Foto: Brenno Carvalho/Agência O Globo

O debate sobre o código de ética ganhou força após críticas envolvendo o ministro Dias Toffoli no caso do Banco Master. Fachin chegou a divulgar nota afirmando que o STF “não se curva a ameaças ou intimidações”. Entidades como a OAB-SP e a Fundação FHC também apresentaram propostas semelhantes, enquanto o magistrado admitiu resistência interna ao código.

Calmon vê a iniciativa como uma tentativa de conter a crise de imagem. “É óbvio que isto, esse código de ética, é para ver se a população se acalma”, disse, avaliando que o efeito pode ser inverso. Pesquisa Genial/Quaest mostrou crescimento tanto da avaliação negativa quanto da positiva sobre o Supremo, com queda expressiva da percepção regular.

A ex-ministra também criticou a atuação de parentes de ministros e a relação entre advocacia e julgadores, citando “trambicagens” e práticas para influenciar decisões. Para ela, a perda de credibilidade do Judiciário alimenta esse comportamento.

“Na medida em que o Poder Judiciário não tem credibilidade, mais trambicagens são feitas”, completou, lembrando que juízes devem “não apenas ser corretos, mas também parecer corretos”.

Caique Lima
Caique Lima, 27. Jornalista do DCM desde 2019 e amante de futebol.