Fagner está frustrado com Bolsonaro, mas bajula Moro e Guedes: em resumo, é um analfabeto político. Por Joaquim de Carvalho

Fagner

Na entrevista que deu a Pedro Bial, na madrugada de hoje, é altamente revelador que os depoimentos favoráveis a ele tenham sido dados por pessoas importantes que já morreram, como Jorge Amado e Ferreira Goulart.

Também foi citado Vinícius de Morais, que se encantou com Fagner no início da carreira deste e teria dito a Jorge Amado:

“Este Fagner é alguém que a gente deve estar seguindo, vendo o que ele vai fazer, porque ele vai fazer coisas grandes”, disse.

O programa também mostrou a parceria artística de Fagner com Belchior — os dois compuseram a música Macuripe.

Os depoimentos revelam que a importância artística de Fagner ficou em algum ponto do passado.

Hoje, ele é mais conhecido pelas escolhas políticas erradas que faz, como o apoio a Aécio em 2014 e a Jair Bolsonaro em 2018.

Às vésperas do segundo turno, divulgou um vídeo em que declarou:

“Amigo Jair, bom dia. Estou passando aqui para prestar solidariedade à sua candidatura à presidência da república, na confiança de que sua vitória trará para nosso país uma política voltada ao nosso povo, quer seja por sua imensa diversidade regional ou sua diversidade ideológica. Fraterno abraço, saúde, fé. Tamo juntos.”

Cinco meses depois da posse, ele se diz frustrado. Mas continua agarrado ao barco da direita, ao lembrar da amizade que tem com Sergio Moro e  elogiar o ministro da Economia.

“Adoro esse ministro, o Paulo Guedes”.

A entrevista serviu para divulgar a biografia do cantor, Raimundo Fagner — Quem me levará sou eu, lançada há alguns meses, mas que não figura em nenhuma lista de obras mais vendidas.

O livro, escrito por Regina Echeverria, é chapa branca, conforme a nota editorial:

“Perfeccionista, (Fagner) quis rever cada parágrafo, acrescentar detalhes, explicar uma ou outra passagem, dar crédito a todos os que fizeram ou fazem parte de sua vida e carreira”, revela o trecho da nota, não assinada.

O crítico Mauro Ferreira observou:

“Em bom português, a biógrafa revela Fagner na medida em que o biografado permite ser revelado nas 440 páginas do livro”, disse.

Fagner não vende discos como no passado, mas ainda faz muitos shows, que atraem sobretudo as pessoas mais velhas.

Músico talentoso — chegou a vender tantos discos quanto Roberto Carlos em alguns anos —, Fagner poderia ser maior, não fosse analfabeto político e, por isso, um artista desconectado das raízes de seu povo.

No início dos anos 90, ele estourou com o hit “Borbulhas de amor”, em que dizia querer ser um peixe para mergulhar em um límpido aquário.

Se esse aquário fosse a vida — não é, como ficou claro na entrevista—, Fagner veria que ficou na superfície.

E é por isso que hoje, se Vinícius de Morais e Jorge Amado o vissem bajular Moro e Paulo Guedes, teriam se arrependido de suas palavras.

O tempo revelou Fagner.

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