Família de Guilherme exige justiça: ‘Torturaram meu filho. Deram um tiro na cabeça dele’, desabafa mãe

Joyce (à dir.) velou e enterrou Guilherme na manhã desta terça-feira; ao lado dela, uma sobrinha carrega flores levadas para homenagear adolescente| Foto: Caio Castor/Ponte Jornalismo

PUBLICADO NA PONTE

POR ARTHUR STABILE

Um grupo de aproximadamente 30 adolescentes entrou correndo na rua Rolando Curti, na Vila Clara, zona sul da cidade de São Paulo, por volta das 20h desta terça-feira (16/6). Eles despistavam policiais militares que os perseguiam depois do protesto em repúdio ao assassinato de Guilherme Silva Guedes, 15 anos, sequestrado metros a frente de onde os jovens viraram, na porta da casa de sua avó. Ao passarem pela residência, os amigos gritavam: “Obrigado, Guilherme! Vai com Deus, moleque”.

Desde as primeiras horas do dia a Vila Clara estava de luto. O sequestro e morte ocorreram no domingo (14/6). Foram cerca de seis horas, da 1h30 até o começo da manhã, entre o desaparecimento e a descoberta da morte de Guilherme. Nesta terça-feira, o dia começou com abordagens agressivas da PM aos moradores e o enterro de Guilherme, criando um clima de apreensão. Foi o segundo dia consecutivo de protestos cheios de revolta pela morte do garoto.

Às 8h, os familiares de Guilherme se encontraram no Cemitério Jardim da Luz, em Embu das Artes, cidade na Grande SP. “Torturaram meu filho, bateram muito nele. Deram um tiro no rosto. Eu quero justiça. Lutarei até o fim por justiça”, desabafou Joyce da Silva dos Santos, mãe do jovem.

A mulher se emocionou em vários momentos ao falar do filho, descrito como um rapaz tranquilo, carinhoso e extremamente preocupado em ajudar em casa. Parentes contam que ele trabalhava tanto com o avô, o auxiliando a exercer a função de pedreiro, quanto a mãe e a avó, que vendem marmitas.

“Que mundo é esse tão cruel que a gente vive? É, vai na paz, irmão, fica com Deus. Eu sei que um dia eu vou te encontrar”. Os trechos da música Espera eu Chegar, do MC Kevin o Chris, ecoavam no cemitério enquanto o corpo de Guilherme era levado para sepultamento. Vários fogos de artifício explodiram no céu como forma de homenageá-lo.

Dali, a família retornou à Vila Clara. Pouco depois de chegar em casa, Joyce foi até a Corregedoria da PM para ser ouvida. A suspeita da família é que dois vigias de uma empresa que presta serviços para a Sabesp teriam sequestrado Guilherme. Horas depois, o corpo do jovem foi achado em Diadema, cidade na Grande SP que faz divisa com a zona sul da capital.

Ponte conversou com o responsável pelo galpão, Oswaldo Marchetti. Segundo ele, houve uma invasão ao local na noite de sábado. No dia seguinte, o vigia, que trabalha para uma empresa terceirizada de segurança, não estava no local.

Foi quando, segundo ele, moradores estiveram no local para cobrar satisfação pelo desaparecimento de Guilherme. “Estamos sofrendo pressão. O vigia era terceirizado, mas vai explicar isso para as pessoas. Estão nos ameaçando, estamos tirando tudo daqui às pressas com ameaça de invasão”, afirmou o homem.

Ao lado do corpo de Guilherme havia um pedaço de pano semelhante a farda utilizada pela corporação com a inscrição “SD PM Paulo”. A Secretaria de Segurança Pública de SP afirmou, em nota, nesta segunda-feira, que não há policial assim identificado que atue na região.

Às 16h, as pessoas se reuniram em frente à casa em que Guilherme morava. Começou ali uma caminhada pela viela que os suspeitos de terem o sequestrado passaram antes de abordá-lo.

A ideia era ir até o galpão da empresa que presta serviços para a Sabesp, mas a avó do garoto, Antônia Arcanjo da Silva, pediu para que não. “Quem fez isso com ele não tem mãe, não tem pai, não tem filho?”, questionou a mulher, emocionada.

A manifestação seguiu para a Avenida Cupecê, interditando primeiramente o sentido bairro e, depois, a via em direção ao centro de São Paulo. Viaturas da polícia acompanhavam de longe, inclusive com blindado da Tropa de Choque.

Em diversos momentos, os puxadores do ato ressaltavam o caráter pacífico da ação. Houve uma pausa de 5 minutos, em silêncio, como forma de pedir justiça pela morte do garoto.

Já eram por volta de 18h quando o ato terminou. Nessa hora, um grupo superior a cem jovens começou a correr. Eles jogaram pedras em um ônibus, o que fez os policiais agirem e gerou a dispersão do grupo para dentro da Vila Clara.

A revolta continuou de forma similar ao primeiro protesto pela morte de Guilherme, ocorrido na noite de segunda-feira (15/6), quando a população revoltada queimou ao menos cinco ônibus como forma de chamar atenção para o crime. Em resposta, a PM agrediu moradores e os abordou de forma truculenta. Vídeos obtidos pela Ponte flagraram as agressões dos policiais.

Nesta terça-feira, os blindados e a Tropa de Choque agiram desde o começo. A população queimou lixos e jogou entulho para os veículos não passarem, enquanto a polícia usou diversas bombas e balas de borracha para dispersar as pessoas.

“Cenas lamentáveis”, diz ouvidor

O ouvidor da Polícia de SP,Elizeu Soares Lopes, definiu como lamentável a atuação da Polícia Militar no primeiro dia de protestos em repúdio à morte de Guilherme. “Teve uma intervenção depois, da polícia, na qual vimos cenas lamentáveis, cenas chocantes, não tem justificativa para um serventuário da lei agir daquela forma, com brutalidade. A intervenção policial tem de estar circunscrita à lei. Não pode haver abuso e não se pode tolerar violência por parte de quem tem a missão institucional de proteger vidas”, declarou.

Elizeu também disse que os policiais que foram flagrados nas abordagens estão sendo identificados e sofrerão consequências. Sobre a investigação do assassinato do garoto, o ouvidor disse que “tudo está sendo apurado”.Embora o secretário-executivo da PM paulista, coronel Álvaro Camilo, e a própria assessoria de imprensa da SSP-SP tenham negado, ao G1, o Departamento de Homicídios e Proteção à Pessoa confirmou que dois PMs são suspeitos de participação no crime. A nota enviada pela InPress à Ponte às 19h28 não respondeu o que a reportagem havia questionado — sobre a participação de policiais — e colocou apenas que “se confirmada a participação policial, as medidas cabíveis serão tomadas”.

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