‘Fascismo à brasileira’ de Bolsonaro e Guedes se alimenta das crises. Por Tiago Pereira

Foto mostra o presidente dos EUA, Donald Trump (à esq.), o chefe da Secom, Fabio Wajngarten (atrás de Trump), e o presidente Jair Bolsonaro durante um jantar em Mar-a-Lago, resort de Trump – Alan Santos – 7.mar.2020/Presidência do Brasil/AFP

Publicado originalmente no site da Rede Brasil Atual (RBA)

POR TIAGO PEREIRA

A peculiaridade do “fascismo à brasileira“, comandado por Jair Bolsonaro é o abandono do nacionalismo econômico, substituído por um “entreguismo” sem limite. A total subordinação não é, sequer, a uma outra Nação, mas a uma fração das elites norte-americanas. “O que há de pior nelas”, comandada pelo atual presidente republicano Donald Trump.

Os mais otimistas podem imaginar que, à medida em que a reeleição de Trump fica cada dia mais incerta, o “pesadelo neoliberal bolsonarista” pode estar com seus dias contados. Mas essa onda de destruição do estado brasileiro, bem como dos direitos dos trabalhadores, atende também a interesses internos. O que pode prolongar a agonia.

Antes da pandemia, a economia brasileira já vinha aos trancos e barrancos. O Produto Interno Bruto (PIB) teve retração de 1,5% no primeiro trimestre, segundo o IBGE. O que desmente o ministro Paulo Guedes, que dizia que o país estava prestes a “decolar”, não fosse o aparecimento do novo coronavírus. Agora, sem coordenação nacional no enfrentamento à doença, os efeitos serão ainda mais duradouros.

Para 2020, o Fundo Monetário Internacional (FMI) estimou queda de até 9% para o Brasil. Leda Paulani, professora do Departamento de Economia e da pós-graduação Universidade de São Paulo (USP), é ainda mais pessimista. “Muito dificilmente a gente tem um resultado negativo que seja menor do que 10%”, afirmou.

Sem estímulo

A pandemia, segundo ela, reforça o problema de “escassez de demanda agregada”. As políticas de austeridade adotadas ainda durante o governo Temer, com o Teto de Gastos, e aprofundadas por Bolsonaro, restringem qualquer possibilidade de investimento público. Por outro lado, em abril, a taxa de investimento privado caiu ao menor patamar desde 2000, segundo o Monitor do PIB, da Fundação Getúlio Vargas (FGV). O comércio global também sofre restrições severas.

“A economia não tem estímulo para crescer vindo de lado nenhum”, disse a economista em debate virtual, na última segunda-feira (13). Promovido pelo canal Geringonça SP, também contou com a participação do economista Andrés Fontana, e mediação do cientista político da Universidade de Brasília (UnB) Antonio Lassance.

“A gente já vinha num crescimento da desigualdade. Tudo o que se conseguiu nos anos Lula e Dilma já estava sendo revertido. E, agora, muito pior. O auxílio emergencial melhora um pouco. Mas a descoordenação da política de combate à pandemia, a inexistência de um ministro da Saúde, enfim, tudo isso vai piorar muito as condições de vida das populações mais pobres, aumentado brutalmente a miséria e a desigualdade no Brasil”, afirmou Leda.

Origens

Para Fontana, o Brasil e o mundo ainda vivem os desdobramentos da crise internacional de 2008. “Uma crise de proporções globais provocadas, justamente, por esse modelo neoliberal de capitalismo.” Mas, em vez da superação desse modelo, o que houve, na verdade, foi um aprofundamento das desregulamentações do mercado de capitais.

“A austeridade generalizada que resultou da crise de 2008/2009, essa socialização dos estragos produzida pelo capitalismo financeirizado, acabou criando condições econômicas para o renascimento do fascismo.”

As elites financeiras, depois de serem salvas pelos Estados, impuseram a eles a agenda de austeridade. Frente à elevação do endividamento público, a saída, segundo os ideólogos do mercado, é cortar. Essa mesma “ladainha” deve se repetir, no pós pandemia.

“Quando vejo o discurso desse ecossistema formado pelos meus colegas economistas de mercado, que são os porta-vozes das elites financerizadas, percebo que vamos ter mais um novo tsunami de argumentos em defesa da austeridade fiscal, de privatizações selvagens etc.”, disse Fontana.

É por isso que ele acredita que essa agenda neoliberal não cai, nem em caso de mudança na Casa Branca, que fragilizaria o consórcio Bolsonaro-Guedes-Trump. “Por mais estúpido que sejam esses argumentos, o que é preciso ficar claro é que a agenda não é do Paulo Guedes. É dessas elites brasileiras financerizadas, que não têm qualquer projeto para o país, nem nunca tiveram.”

Do pré-sal à Lava Jato

O que fez o Brasil se deslocar para o centro do tabuleiro geopolítico mundial, segundo Fontana, foi a descoberta do pré-sal, em 2006. A sanha das elites financeirizadas, contudo, foi acelerada pela crise de 2008. Desde então, o deep state norte-americano, em conluio com as elites locais, passou a mover a chamada “guerra híbrida” contra os governos petistas. A tomada de poder estava prevista para ocorrer nas eleições de 2014.

“Em 2009, já começou o treinamento de procuradores, juízes, Polícia Federal, pelo chamado deep state” – que inclui a CIA, FBI, parte do Pentagono e do Departamento de Estado. “Iria acabar na implementação das técnicas de lawfare aqui no brasil. Diriam que sou adepto da teoria da conspiração. Esse termo é muito antigo, mas ele tem sido muito frequentemente usado justamente pela CIA, para encobrir suas próprias conspirações.”

O cavalo selado

Leda afirma que Bolsonaro adotou o discurso ultraliberal por “conveniência política”. A partir daí, selou-se a aliança com as elites financeiras nacionais. “Todas as classes de alta renda, que têm muita voz e que acabam constituindo aquilo que chamamos de opinião pública, passaram a apoiar o governo Bolsonaro, com fascismo e tudo. Era muito claro que ele era um autoritário, que não presava pela democracia.”

Ela explica que essa a burguesia nacional financeirizada viu em Bolsonaro a possibilidade de reduzir o tamanho do Estado. Previdência, saúde, segurança, saneamento são alguns dos seguimentos sob controle do Estado, e que interessam a esses grupos. “Se o Estado sai fora, tudo isso torna-se ativos capazes de produzir lucro”.

Por outro lado, mais otimista que Fontana, Leda acredita que a pandemia põe “em xeque” o estado neoliberal. “O enfrentamento da pandemia exige saúde pública, universidade pública, ciência, Estado, SUS, tudo aquilo que o neoliberalismo e o bolsonarismo negam”, afirmou.

Assista ao debate:

O jornalismo do DCM precisa de você para continuar marcando ponto na vida nacional. Faça doação para o site. Sua colaboração é fundamental para seguirmos combatendo o bom combate com a independência que você conhece. A partir de R$ 10, você pode fazer a diferença. Muito Obrigado!