Feira do MST do Pará leva 20 toneladas de alimentos para o Círio de Nazaré. Por Catarina Barbosa

Pato, tucupi, maniçoba, farinha e outros itens que compõem a ceia do Círio estão à venda na feira. / Catarina Barbosa

Publicado originalmente no site Brasil de Fato

POR CATARINA BARBOSA

O mês de outubro movimenta a cidade de Belém, no Pará, com o Círio de Nossa Senhora de Nazaré. Comemorado no segundo domingo do mês, o Círio é considerado pelos paraenses uma espécie de natal antecipado. Segundo dados do Departamento Intersindical de Estatística e Estudos Socioeconômicos (Dieese), a estimativa é de que 2 milhões de pessoas circulem pela cidade.

Reconhecendo a importância do Círio, desde a última segunda-feira (8) é realizada no Mercado de São Braz, um ponto de grande movimentação da cidade, a III Feira de alimentos orgânicos do Movimento dos Trabalhadores Sem-Terra (MST). Cerca de 20 toneladas de alimentos saudáveis foram levados até o local para que as pessoas possam celebrar a ceia do Círio com itens sem conservantes e sem agrotóxicos. A feira termina nesta sexta-feira (11).

A produção foi trazida de 17 acampamentos e assentamentos do norte, sul e sudeste do Pará. São frutas, legumes, verduras e alimentos típicos do almoço do Círio, como o tradicional pato, o tucupi e a maniçoba, uma comida de origem indígena feita com uma erva chamada maniva e pedaços de porco.

A programação da Feira contou ainda com atividades culturais, entre elas, shows e debates sobre reforma agrária, questões de gênero e conjuntura política.

Para Raimundo Nonato Filho, da direção do MST/PA, a feira antes do Círio é uma forma de mostrar aos paraenses que a produção de alimentos saudáveis é uma realidade no Estado.

“Trazer alimento saudável para a capital paraense às vésperas do Círio significa dialogar com o conjunto da sociedade paraense, amazônida e brasileira como um todo, que estão aqui representados nesse momento. Dialogar no sentido de democratizar o acesso à terra, da necessidade de produzir outra matriz produtiva como referência para o campo em oposição ao agronegócio, que desmata, que polui, que queima e que devasta a nossa sociobiodiversidade tão divulgada no mundo”, afirma.

Segundo ele, a organização da feira envolveu 200 camponeses. “Nós estamos aqui representados por 17 municípios do Estado do Pará. São cerca de 200 camponeses, entre feirantes e contribuintes. Dispomos mais de 20 toneladas de alimentos das mais diversas espécies. Tem tucupi, tem o pato, tem a galinha caipira. Tem derivados: mel, queijo, farinha, tem diversos tipos de feijões, tem de tudo um pouco”, resume.

A dificuldade e o orgulho

Márcia Ferreira, de 34 anos, é uma das agricultoras presentes na feira. Ela mora no assentamento Abril Vermelho, que tem 15 anos e fica em Santa Bárbara do Pará. Para a feira, ela levou: feijão; acerola; banana; limão; batata doce; farinha; macaxeira; e cupuaçu.

Mãe de três filhos, Márcia é a responsável pelo sustento do lar. Na feira, o filho Davi dos Santos, de 14 anos, ajuda Márcia a administrar as vendas. Enquanto debulha feijões plantados por ela mesma, Márcia conta que durante os últimos dias trabalhou das 7h às 23h. Para ela, ofertar comida saudável é motivo de orgulho.

“É a gente mostrar um pouco do nosso trabalho, do nosso plantio, da nossa força. É uma emoção muito grande poder dividir junto com toda essa equipe, como a gente faz para chegar aqui, e o trabalho que a gente tem. Mas mesmo assim a gente não coloca dificuldade. A gente vem mostrar e vende com muito carinho”, diz.

Representando a parte do sul e sudeste do Pará estava Fabíola Pereira da Silva, de 39 anos, que mora no acampamento Dalcídio Jurandir, localizando em Eldorado do Carajás e ameaçado por uma liminar de despejo emitida pelo juiz Amarildo Mazutti, da comarca agrária de Marabá.

Para o local, ela levou queijo e doce de leite da comunidade, que produz 184 mil litros de leite por mês.

“Tem várias espécies de queijo. A gente tem o mel, que também é produzido lá. Nós temos também a produção de doce de leite, de doce pasta e doce em barra. Então, é muito gratificante e ao mesmo tempo é muito triste saber que a liminar de despejo ainda não foi suspensa, mas a gente vai permanecer, a gente vai resistir na nossa propriedade, até porque não é justo tirar a gente”, reforça.

Em seu ponto de venda, a agricultora tinha ainda um abaixo-assinado, que pede ao governo do Estado que não despeje dos moradores do acampamento. O documento será anexado a todas as outras ações dos advogados que estão lutando para reverter a determinação da Justiça.

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