Fernanda Montenegro não cabe no país do Janot. Por Nathalí Macedo

Alguns artistas são respeitados e reverenciados de modo tão divino e por tanta gente que, sabemos, não pode ser só pelo talento: é pela trajetória, pela existência política, pela contribuição à construção do que somos como cultura e como país.

Fernanda Montenegro é uma dessas artistas. Talvez nosso grande exemplo.

E não é pelos Oscar’s, Globos de Ouro e as dezenas de prêmios em festivais, e nem só por ter sido a primeira contratada na primeira grande TV do país, tampouco apenas pelo pioneirismo na teledramaturgia e pela atuação irretocável.

É pela lucidez.

E é diante dessa unanimidade que Roberto Alvim (quem?) – dramaturgo, diretor da Funarte e bolsonarista, segundo o Google (esse último detalhe diz muito) – resolve surgir acusando-a de sórdida e mentirosa em um post.

“A foto da sórdida Fernanda Montenegro como bruxa sendo queimada em fogueira de livros, publicada hoje na capa de uma revista esquerdista, mostra muito bem a canalhice abissal destas pessoas, assim como demonstra a separação entre eles e o povo brasileiro”

Criticado e repudiado pela classe artística, não retirou o que disse, e disse mais:

“Então acuso Fernanda de mentirosa, além de expor meu desprezo por ela, oriundo de sua deliberada distorção abjeta dos fatos”

Uma pergunta necessária antes de qualquer outra: de que maneira o desprezo de um sei-lá-quem abalaria qualquer milímetro da figura de Fernanda Montenegro?

Há uma coisa que quase não falamos sobre as críticas: quem critica procura frequentemente se nivelar a quem é criticado.

Quando Roberto Alvim, um sei-lá-quem, ofende uma mulher como Fernanda Montenegro, ele tenta convidá-la a um páreo que seria capaz de nivelá-los.

É como Frota xingar Chico Buarque de feio e burro no Facebook e esperar que ele responda.

Nossa grande bruxa, como esperado, não concedeu a sei-lá-quem a oportunidade de nivelamento. Não respondeu às ofensas: ela não precisa. Sua trajetória responde. Seus fãs, seus feitos, seus amigos.

Quanto ao dramaturgo bolsonarista, permanece em seu lugar: o de objeto de desprezo da classe artística e de todo brasileiro lúcido – um desprezo momentâneo, porque seu nome certamente voltará a cair no esquecimento em pouco tempo.

E durante os seus quinze minutos de fama, lembraremos que, no governo Bolsonaro,  como não poderia deixar de ser, o diretor da Funarte não entende nem de arte nem de Brasil.

O que Fernanda representa nunca esteve tão próximo do povo brasileiro: o ânimo de resistir.

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