
A transmissão ao vivo da coletiva de imprensa de abertura do júri do Festival de Cinema de Berlim foi interrompida nesta quinta-feira após um jornalista alemão fazer uma pergunta sobre o conflito entre Israel e Palestina.
A organização informou que a queda do sinal ocorreu por problemas técnicos e negou qualquer interrupção deliberada. Segundo a assessoria, a gravação completa da coletiva seria disponibilizada no site oficial, mas isso foi feito posteriormente.
O júri é presidido pelo cineasta alemão Wim Wenders e conta com o diretor nepalês Min Bahadur Bham, a atriz sul-coreana Bae Doona, o arquivista indiano Shivendra Singh Dungarpur, o diretor norte-americano Reinaldo Marcus Green, a atriz e diretora japonesa Hikari e a produtora polonesa Ewa Puszczyńska.
A coletiva marcou a abertura da 76ª edição da Berlin International Film Festival, também conhecida como Berlinale, sob direção de Tricia Tuttle. No início, as perguntas trataram de temas leves, como o que mais entusiasma os jurados no cinema.
O clima mudou quando um jornalista alemão afirmou que o festival teria demonstrado apoio a causas ligadas ao Irã e à Ucrânia, mas não à Palestina. Ele também mencionou o financiamento público do evento pelo governo alemão, que, segundo ele, apoia a campanha militar israelense em Gaza.
Durante a pergunta, que fazia referência ao que chamou de “genocídio em Gaza” e questionava se o júri apoiaria um tratamento seletivo dos direitos humanos, a transmissão foi cortada. O sinal permaneceu fora do ar enquanto Ewa Puszczyńska e Wim Wenders respondiam.
Tricia Tuttle afirmou que o foco da coletiva deveria ser o cinema. Ainda assim, Puszczyńska respondeu que a pergunta era injusta, argumentando que o papel dos jurados é dialogar com o público por meio dos filmes, e não determinar posições políticas individuais dos espectadores.
Ela acrescentou que existem diversos conflitos no mundo e que não seria adequado exigir uma posição uniforme dos integrantes do júri. Disse ainda que participa de eleições e manifestações como cidadã, mas que cada membro do grupo pode ter escolhas próprias.
Covarde, Wenders também tentou encerrar a questão: “Não podemos realmente entrar no campo da política. Temos que ficar fora da política. Somos o contrapeso da política, o oposto da política, temos que fazer o trabalho das pessoas — não o trabalho dos políticos.”
Don't ask about Palestine at the Berlinale!
Here's my question to the jury about selective solidarity of the film festival with the people of Iran and Ukraine vs. Palestinians. Wim Wenders (jury president) actually said: "We have to stay out of politics" #Berlinale2026 pic.twitter.com/09SZOzk3Nf
— Tilo Jung (@TiloJung) February 12, 2026
Histórico de tensões
Em 2024, houve pedidos de boicote ao festival por não ter condenado publicamente o genocídio em Gaza. Parte de cineastas árabes optou por não inscrever filmes.
A controvérsia se intensificou quando o documentário “No Other Land”, produção palestino-israelense sobre violência de colonos na Cisjordânia, venceu o prêmio de melhor documentário. Durante o discurso de agradecimento, o codiretor israelense Yuval Abraham acusou seu país de praticar apartheid.
À frente da edição de 2025, Tricia Tuttle publicou no site oficial um documento de perguntas e respostas sobre liberdade de expressão e antissemitismo, na tentativa de estabelecer diretrizes claras para o evento.
Dias depois, o cineasta de Hong Kong Jun Li foi detido após fazer um discurso pró-Palestina durante a exibição de seu filme “Queerpanorama”. O episódio levou à abertura de investigação policial e a pressões políticas para retirada de verbas públicas do festival.