Festival de cinema de Berlim censura pergunta sobre Gaza e Win Wenders se acovarda

Atualizado em 13 de fevereiro de 2026 às 15:36
O cineasta alemão Wim Wenders durante a coletiva de imprensa de abertura do júri do Festival de Cinema de Berlim. Foto: Reprodução/X

A transmissão ao vivo da coletiva de imprensa de abertura do júri do Festival de Cinema de Berlim foi interrompida nesta quinta-feira após um jornalista alemão fazer uma pergunta sobre o conflito entre Israel e Palestina.

A organização informou que a queda do sinal ocorreu por problemas técnicos e negou qualquer interrupção deliberada. Segundo a assessoria, a gravação completa da coletiva seria disponibilizada no site oficial, mas isso foi feito posteriormente.

O júri é presidido pelo cineasta alemão Wim Wenders e conta com o diretor nepalês Min Bahadur Bham, a atriz sul-coreana Bae Doona, o arquivista indiano Shivendra Singh Dungarpur, o diretor norte-americano Reinaldo Marcus Green, a atriz e diretora japonesa Hikari e a produtora polonesa Ewa Puszczyńska.

A coletiva marcou a abertura da 76ª edição da Berlin International Film Festival, também conhecida como Berlinale, sob direção de Tricia Tuttle. No início, as perguntas trataram de temas leves, como o que mais entusiasma os jurados no cinema.

O clima mudou quando um jornalista alemão afirmou que o festival teria demonstrado apoio a causas ligadas ao Irã e à Ucrânia, mas não à Palestina. Ele também mencionou o financiamento público do evento pelo governo alemão, que, segundo ele, apoia a campanha militar israelense em Gaza.

Durante a pergunta, que fazia referência ao que chamou de “genocídio em Gaza” e questionava se o júri apoiaria um tratamento seletivo dos direitos humanos, a transmissão foi cortada. O sinal permaneceu fora do ar enquanto Ewa Puszczyńska e Wim Wenders respondiam.

Tricia Tuttle afirmou que o foco da coletiva deveria ser o cinema. Ainda assim, Puszczyńska respondeu que a pergunta era injusta, argumentando que o papel dos jurados é dialogar com o público por meio dos filmes, e não determinar posições políticas individuais dos espectadores.

Ela acrescentou que existem diversos conflitos no mundo e que não seria adequado exigir uma posição uniforme dos integrantes do júri. Disse ainda que participa de eleições e manifestações como cidadã, mas que cada membro do grupo pode ter escolhas próprias.

Covarde, Wenders também tentou encerrar a questão: “Não podemos realmente entrar no campo da política. Temos que ficar fora da política. Somos o contrapeso da política, o oposto da política, temos que fazer o trabalho das pessoas — não o trabalho dos políticos.”

Histórico de tensões

Em 2024, houve pedidos de boicote ao festival por não ter condenado publicamente o genocídio em Gaza. Parte de cineastas árabes optou por não inscrever filmes.

A controvérsia se intensificou quando o documentário “No Other Land”, produção palestino-israelense sobre violência de colonos na Cisjordânia, venceu o prêmio de melhor documentário. Durante o discurso de agradecimento, o codiretor israelense Yuval Abraham acusou seu país de praticar apartheid.

À frente da edição de 2025, Tricia Tuttle publicou no site oficial um documento de perguntas e respostas sobre liberdade de expressão e antissemitismo, na tentativa de estabelecer diretrizes claras para o evento.

Dias depois, o cineasta de Hong Kong Jun Li foi detido após fazer um discurso pró-Palestina durante a exibição de seu filme “Queerpanorama”. O episódio levou à abertura de investigação policial e a pressões políticas para retirada de verbas públicas do festival.