FHC enterra Alckmin e afirma que apoiará Haddad no segundo turno. Por José Cássio

FHC e Haddad

O ex-presidente Fernando Henrique Cardoso jogou a pá de cal sobre as pretensões presidenciais de Geraldo Alckmin.

Convencido de que nem reza brava salva a candidatura do colega de partido, tem dito a amigos, conforme noticiou o site Catraca Livre, que por exclusão vai de Haddad na eventualidade do petista disputar o segundo turno contra Bolsonaro.

Não é a primeira vez neste processo eleitoral que FHC se diverte escarnecendo de Geraldo. Primeiro, de forma irresponsável com o partido, insuflou a candidatura do apresentador Luciano Huck. Depois, deu corda a João Doria.

Em outra investida, tentou organizar uma frente de apoio à Marina Silva. 

Como nada deu certo, calou-se neste início de primeiro turno para agora vir a público novamente aproveitando a condição de guru diversionista predileto da mídia tradicional.

A despeito de toda crítica que se possa fazer ao ex-presidente, de uma coisa não se pode acusar FHC: ele não está sendo incoerente ao tripudiar de Geraldo.

As diferenças entre ambos vêm desde 2006, quando Geraldo tentou a presidência pela primeira vez. 

Na época, FHC batalhava pela candidatura de Serra, mas teve de engolir o ex-governador por força sua capilaridade junto à máquina partidária tucana.

O resultado desta eleição é um clássico das disputas presidenciais. Embalado pela mobilização do primeiro turno, que acabou elegendo Serra governador, Geraldo conseguiu na bacia das almas chegar ao segundo com Lula.

Abandonado à própria sorte, conseguiu a proeza de diminuir a votação na disputa final, num dos maiores micos eleitorais deste início de século. 

Dois anos depois, FHC e sua trupe “conspiraram” novamente contra Geraldo na disputa que deu a reeleição a Gilberto Kassab à prefeitura de São Paulo.

O troco veio em 2016. Geraldo, aproveitando que FHC apita muito na crônica política tradicional, mas quase nada na militância tucana, tirou do ex-presidente a chance de ver o pupilo Andrea Matarazzo concorrendo à prefeitura.

Geraldo daria aquela que seria a sua cartada de mestre para alcançar a presidência, sem saber que na verdade estava preparando para si o caldo de veneno do próprio estrupício que criou: tirou da cartola João Doria, um publicitário espertalhão, e conseguiu fazê-lo prefeito de São Paulo. 

Neófito em política partidária, mas atenado com as oportunidades de ocasião, o prefeito eleito logo notou que o ninho tucano não era lugar para bons amigos e que ali o que imperava eram os interesses pessoais de cada um.

Dali a trair Geraldo na primeira curva foi um passo.

Não emplacou o plano A da presidência mas não abriu mão do B: lançou-se na corrida ao governo do Estado e o que conseguiu, além de expor a mediocridade e atrapalhar a vida do padrinho, foi passar para a história com a pecha de traidor e ingrato – o que de pior pode existir na vida orgânica da política profissional.

É nesse ambiente de salve-se quem puder que FHC volta à cena para dizer do seu apoio a Fernando Haddad.

Ele que já sentou na cadeira de prefeito e passou pela humilhação de ver Jânio Quadros detetizar a peça antes de tomar posse, que conspirou contra democracia ao dar corda ao irresponsável Aecio Neves, que “comprou” deputados para garantir a sua própria reeleição e “vendeu” o patrimônio do Brasil, reaparece agora rifando o colega e se jogando no colo daquele que tem potencial para ser o novo presidente do país.

Lula, um conciliador por natureza, e Fernando Haddad, que também tem um temperamento ameno e preza por relações amistosas, talvez vejam a iniciativa com bons olhos. Afinal, trata-se de um apoio relativamente importante.

Porém, convém lembrar que FHC não é lá uma Brastemp no tocante às suas análises e decisões estratégicas. 

Vem errando feio faz tempo e não se pode tirar das costas dele o fato de, com seu apoio ao golpe de 2016, entre outras estripulias, nosso país se encontrar hoje à beira do abismo.

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