Filha de Trump tenta construir resort de luxo em área protegida na Albânia e é alvo de protestos

Atualizado em 9 de junho de 2026 às 11:29
Donald e Ivanka Trump. Foto: reprodução

Manifestantes tomaram as ruas de Tirana, capital da Albânia, para exigir o cancelamento de um resort de luxo supostamente ligado a Ivanka Trump, filha do presidente estadunidense Donald Trump, e ao marido dela, Jared Kushner. Os atos reúnem milhares de pessoas, com bandeiras albanesas, slogans contra a corrupção e cartazes dizendo que “A Albânia não está à venda”.

O empreendimento, estimado em 1,4 bilhão de euros, cerca de R$ 8,3 bilhões, está previsto para ocupar a ilha de Sazan e áreas próximas à costa de Zvernec, região que abriga flamingos, focas e ninhos de tartarugas marinhas. Segundo a BBC News, os manifestantes também exibem imagens de Ivanka e flamingos cor-de-rosa como parte de uma campanha que pede a ela e Kushner que “voltem para casa”.

A ilha de Sazan tem 5,7 quilômetros quadrados e fica no mar Adriático, na costa de Vlora, no sudoeste da Albânia. O local foi base militar estratégica durante a Segunda Guerra Mundial e depois integrou a rede de defesa alinhada à União Soviética nos anos 1950. Por esse histórico, ainda há milhares de bunkers, túneis subterrâneos e munições não detonadas espalhadas pelo fundo do mar e pela costa rochosa.

Em entrevista a um podcast nos Estados Unidos, Ivanka disse que ela e o marido encontraram a ilha por acaso. “Estávamos no barco de um amigo e paramos para nadar”, afirmou. Ela também disse que viu no local uma oportunidade de desenvolvimento. “Identificamos a oportunidade de ajudar a concretizar seu potencial e transformá-lo, mas com muita moderação e cuidado, porque o lugar é muito bonito”.

A fala provocou reações nas redes sociais, com comentários como “A Albânia não está à venda!” e “Tirem suas mãos”, acompanhados de emojis da bandeira albanesa. Os protestos ganharam força no fim de maio, depois da instalação de arame farpado bloqueando o acesso à praia de Zvernec, em frente à ilha de Sazan e próxima a uma área protegida.

Organizações ambientais também contestam o projeto. Em janeiro, 40 entidades pediram a suspensão dos planos, alegando risco de danos irreversíveis à biodiversidade. “Queremos que a construção seja interrompida e que as máquinas pesadas saiam da área protegida”, disse Joni Vorpsi, ecologista da PPNEA-Birdlife Albania. “Isso destruirá completamente essa região selvagem.”

O primeiro-ministro albanês, Edi Rama, apoia o plano e afirma que o empreendimento traria empregos e infraestrutura. O governo concedeu no fim de 2024 o status de “investidor estratégico” à Atlantic Incubation Partners, empresa ligada a Kushner. Esse enquadramento permite procedimentos administrativos acelerados e apoio de ministérios.

O sócio de Kushner, Asher Abehsera, afirmou que o projeto se concentra em “gestão responsável”, melhoria ambiental, geração de empregos e criação de valor para comunidades locais. A Trump Organization foi procurada pela BBC, mas não respondeu.

Rama disse que não há “nenhuma chance” de o empreendimento ser interrompido enquanto estiver no poder. Ele se declarou aberto ao diálogo e convidou os manifestantes a formarem uma delegação para discutir soluções, mas a proposta foi rejeitada pelos organizadores, que agora pedem sua renúncia.

A agência estatal anticorrupção da Albânia abriu investigação relacionada ao projeto, sem divulgar detalhes. Além da questão ambiental, há disputas sobre a propriedade das terras em Zvernec. O jornalista Vladimir Karay, da Balkan Investigative Reporting Network, afirma que conflitos fundiários são frequentes no país desde a transição caótica para a propriedade privada após o fim da era socialista.

Augusto de Sousa
Augusto de Sousa, 31 anos. É formado em jornalismo e atua como repórter do DCM desde de 2023. Andreense, apaixonado por futebol, frequentador assíduo de estádios e tem sempre um trocadilho de qualidade duvidosa na ponta da língua.