Filme “(Des)controle” escancara a explosão do alcoolismo entre mulheres no Brasil

Atualizado em 16 de fevereiro de 2026 às 23:07
Carolina Dieckmann em cena de “(Des)controle”

“(Des)controle” é um filme bem carioca Zona Sul, que aborda o alcoolismo e a pressão sobre as mulheres em uma sociedade machista, misógina e autoritária.

A história gira em torno de Kátia Klein, uma escritora de muito sucesso aos 45 anos, interpretada por Carolina Dieckmann, que enfrenta um bloqueio criativo e uma crise pessoal em sua família, protótipo de propaganda de margarina (no tempo que existia esse tipo de anúncio). O filme explora temas como dependência química, saúde mental e culpa materna, religiosidade e rituais de passagem.

A atuação de Carolina Dieckmann é notável, trazendo profundidade e humanidade à personagem com o drama de sua dupla personalidade. Ela consegue transmitir a luta interna de Kátia de forma crua e realista, sem apelar para clichês ou estereótipos.

Existe um verniz das produções Globo no formato do filme, que talvez filtre a chegada ao fundo do poço de um alcoólatra, algo que poucos cineastas souberam explorar e escancarar na grande tela, tal como Billy Wilder em “Farrapo Humano”, estrelado por Ray Milland. A direção de Rosane Svartman e Carol Minêm é boa, criando uma atmosfera emocionalmente carregada em (Des)controle.

O filme não é perfeito, com alguns personagens masculinos um pouco rasos e previsíveis, quase uns “bananas” nas mãos de suas iídiche mamas: Daniel Filho e Irene Ravache, Caco Ciocler e Carolina Dieckmann. Talvez seja exatamente o objetivo de Svartman e Minêm. No entanto, isso não tira o mérito da obra, que aborda temas importantes e necessários.

A trilha sonora e a fotografia também são ótimas, criando uma atmosfera que reflete o estado emocional da protagonista. As recriações das canções re-interpretadas por Assucena são ótimas e imprimem veracidade nos climas em que Kátia Klein desbunda seu lado libertário na noite carioca. Outra pérola da trilha sonora é cantada por Zé Rodrix: ” Mestre Jonas”, parceria dele com Sá, da dupla Sá & Guarabira. Assistam no cinema e esperem os créditos subirem; magnífica canção dos anos 70.

“(Des)controle” não é um filme difícil de assistir; tem humor e dor em doses equilibradas. Poderia ser mais visceral e dolorido pelo tema espinhoso que aborda, mas é necessário. Com alguns ajustes, passaria na Sessão da Tarde da Globo. Ele mostra a realidade de muitas mulheres que lutam contra o alcoolismo e a pressão social. A mensagem é clara: a recuperação é possível, mas é um processo difícil e solitário, para uma mulher, muito mais, por toda carga de preconceitos, possíveis cancelamentos e estigmas eternos.

O alcoolismo feminino no Brasil é um problema crescente. De acordo com dados do Sistema de Vigilância de Fatores de Risco e Proteção para Doenças Crônicas, o consumo abusivo de bebida alcoólica entre mulheres triplicou em 40 anos e praticamente dobrou nas últimas duas décadas, passando de 7,8% em 2006 para 15,2% em 2023.

A dependência de Klein é um caso de dupla dependência, em que ela se perde no álcool e na internet. Com uma biblioteca atrás, em seu escritorio, símbolo de conhecimento, ela se distrai com redes sociais, deixando de escrever. Tudo vira motivo para beber: sucesso, fracasso, alegria ou tristeza. A bebida e a internet a desviam de suas responsabilidades, criando um ciclo vicioso de procrastinação e dependência. Como esposa, é desafiador lidar com essa situação, sentindo-se impotente diante da destruição causada pela dependência quimica e negação da doença.

O consumo abusivo de álcool entre mulheres jovens e negras é maior, em 2023, 15,2% das mulheres brasileiras consumiram álcool de forma abusiva, em comparação com 27,3% dos homens. De 2010 a 2023, o consumo abusivo de álcool entre mulheres aumentou significativamente, enquanto entre os homens permaneceu estável.

As mulheres têm danos mais graves no organismo mesmo quando ingerem doses mais baixas de álcool, devido à metabolização diferente do álcool no corpo feminino. Fatores de risco incluem presença feminina em espaços sociais antes ocupados apenas por homens, marketing direcionado ao público feminino, vulnerabilidades de gênero, como sobrecarga do trabalho e responsabilidades financeiras. Consequências incluem aumento do risco de câncer, especialmente de mama, maior vulnerabilidade a doenças hepáticas, transtornos por uso de álcool, como ansiedade e depressão.

Existe uma analogia que é interessante, pois Kátia Klein, a personagem alcoólatra, está presa em um ciclo de imaturidade emocional, enquanto seu filho está prestes a entrar na vida adulta. O bar mitzvah do filho simboliza um rito de passagem, na cultura judaica, um momento de crescimento e responsabilidade que Kátia também precisa enfrentar em sua própria vida.

A diretora Rosane Svartman usa essa analogia para mostrar que Kátia precisa “crescer” e se tornar uma pessoa mais madura e responsável, tentando deixar para trás o alcoolismo e a dependência. É um tema delicado e interessante que adiciona profundidade à narrativa do filme.

No geral, “(Des)controle” é um filme que vale a pena assistir. Com uma boa atuação de Carolina Dieckmann e uma direção sensível, o filme é um retrato honesto e emocional de uma mulher lutando contra o alcoolismo em um mundo desigual e machista. É importante abordar esse problema com políticas públicas eficazes e apoio às mulheres que lutam contra o alcoolismo. ‎

Roger Worms
Roger W. Lima é músico, escritor e designer (https://www.facebook.com/roger.w.lima?fref=ts)