A filosofia na vida prática 3: como lidar com o medo da morte. Por Paulo Nogueira

Ilustração de José Guadalupe Posada
Ilustração de José Guadalupe Posada

Montaigne disse que quando queria lidar com o medo da morte recorria a Sêneca. Não por acaso. Raras vezes, se é que alguma, um filósofo se deteve de forma tão profunda e brilhante sobre a maior das aflições humanas: o medo da morte. Numa carta ao discípulo Lucílio, Sêneca (5 a.C. – 65 d.C.) escreveu uma frase célebre: “E por mais que te espantes, aprender a viver não é mais que aprender a morrer”. Sêneca pregava o desprezo pela morte. Não por morbidez ou por pessimismo. É que quem despreza a morte vive, paradoxalmente, melhor. Sobre sua alma não pesa o terror supremo da humanidade: o fim da existência. “Parece inacreditável, mas muita gente morre do medo de morrer”, escreveu Sêneca.

Pensar na morte, regularmente, é a primeira e maior recomendação de Sêneca. Os romanos tinham um provérbio ainda hoje lembrado e admirado: “Memento mori”. Lembre-se de que vai morrer. Não há como escapar dessa operação da natureza a qual estamos condenados desde o dia em que nascemos. E no entanto nos atormentamos o tempo todo por algo que com certeza, um dia, se realizará. Esse tormento contínuo nos impede de viver bem. Outro romano, Lucrécio, escreveu: “Onde a morte está, não estou. Onde estou, a morte não está”. Encontramos uma maneira similar de lidar com a morte nas filosofias orientais. O asceta Milarepa, uma das maiores figuras do budismo, vivia perto de um cemitério para jamais esquecer que um dia iria morrer.

Sêneca, em suas obras, evocou com frequência a bravura de personalidades histórias diante da morte. Sócrates, perante a perspectiva de tomar cicuta, manteve a calma e o humor. Consolou os discípulos em vez de ser consolado, episódio que Platão, o maior deles, registrou em sua obra-prima, Fédon. “Chegou a hora de partir, vocês para a vida, eu para a morte”, disse Sócrates na hora de execução de sua sentença, segundo Platão. “Qual dos dois destinos é melhor, ninguém sabe”. Outro exemplo sempre citado por Sêneca foi o do político romano Catão. Derrotado numa guerra civil, Catão passou sua última noite entregue a três tarefas. Primeiro, tentou salvar o maior número de seus seguidores. Depois, leu Fédon para encontrar inspiração e coragem. Enfim, atirou-se contra a própria espada.

Sêneca mostrou a mesma bravura das pessoas que tanto citou. Acusado de conspiração, recebeu de Nero, de quem tinha sido preceptor, a sentença de se matar. Na perpétua instabilidade da sorte, Sêneca passara de homem forte do reinado de Nero (antes que este ficasse louco) a renegado. Como Sócrates, confortou os amigos e familiares que o cercavam desesperados no momento derradeiro. Cortou os punhos e se deixou levar serenamente. Venceu o destino. Sua atitude desassombrada conferiu relevância às palavras que escreveu sobre a morte. Fez dele, para usar uma linda expressão de um sábio, um eterno amigo da humanidade, um jarro calmo de luz para quem queira se livrar da bruma paralisante que é o medo de morrer.