“Fim do racismo é utopia generosa”, diz professor esfaqueado em ataque. Por Mauro Donato

Professor Juarez Xavier

Como são tempos de trevas e retrocessos, em pleno dia da Consciência Negra, o professor de jornalismo Juarez Xavier foi esfaqueado unicamente por ser negro.

Docente da Unesp (Universidade Estadual Paulista) na cidade de Bauru, Juarez foi ferido nos braços, costas e ombro por um homem que, antes, chamou-lhe de ‘macaco’.

Filho de uma empregada doméstica e que teve o pai assassinado, Juarez começou a trabalhar aos oito anos de idade, em uma banca de jornal. Hoje possui mestrado e doutorado em comunicação pela USP.

O professor conversou por mensagem com o DCM enquanto se dirigia para fazer exame de corpo de delito.

Imagem TV Tem

DCM: Como aconteceu o ataque?

Juarez: Eu tinha ido ao médico e estava atravessando uma avenida muito conhecida aqui na cidade quando o indivíduo, que vinha em minha direção, apontou ostensivamente um objeto, com gestos agressivos. Assim que passou por mim, chamou-me de ‘macaco’. Eu fui tirar satisfação e então percebi que o que ele tinha em mãos era uma faca. Ele veio pra cima e tentei contê-lo, mas não deu.

O senhor conhecia o agressor?

Não o conheço, nunca tinha visto. Só soube o nome dele durante a assinatura de um B.O. de “situação circunstancial ilegal”. Não faço ideia das motivações dele.

Qual a gravidade dos ferimentos?

São de média gravidade nas costas e no ombro. Precisei ainda receber pontos no braço. Não foram superficiais e foram muito próximos de regiões vitais como o pescoço.

Já havia passado por algo semelhante?

Difícil dizer, numa sociedade em que há racismo estrutural e tem dimensões institucionais, que um negro não tenha sofrido preconceito. A questão de menor valia, a discriminação, a segregação.

Então, claro, que já sofri e por isso sou militante antirracista. Faço parte da Coordenação do Núcleo Negro e presidente da Comissão de Averiguação das autodeclarações de Pretos e Pardos na universidade.

Milito, pois acho fundamental fazer o enfrentamento. Mas nunca tinha sido atingido fisicamente. Foi muito perturbador, mas mostra o clima que estamos vivendo no país.

O senhor percebe um clima mais hostil atualmente?

Sem dúvida. De intolerância, provocações, de estímulo à violência. Faz parte de um roteiro que está em curso desde 2016. As pessoas perderam a vergonha de expressar seu machismo, seu racismo, sua homofobia. A sociedade está estimulada por áreas do Estado.

Como o senhor avalia as atitudes como a do deputado que quebrou a placa com o nome de Marielle e do outro que vandalizou a exposição do mês Consciência Negra dentro da Câmara?

Você estimula a violência com ações como essas, ou estimula também ao negar qualquer providência para contê-las. Há pessoas que poderiam prender quem comete esses atos, mas não os prendem.

Alguém que diga que é ‘bobagem chorar porque alguns negrinhos foram mortos’… Parte da mídia endossa esses discursos e vai-se criando um clima de insegurança para esses grupos em situações vulneráveis. O momento exige que esses grupos se unam para manter a luta pela manutenção dos direitos obtidos nos últimos anos.

É fundamental não recuar, pois é momento de disputa acirrada entre civilização e barbárie.

O seu caso pode ser mais um a ser tratado como “injúria racial” e não crime de racismo. Como o senhor vê isso?

O que meu advogado tem mantido é o seguinte: não é injúria racial, é racismo. Ele referiu-se a ‘macaco’ para toda população negra e não especificamente a mim, pois não nos conhecemos. E não é lesão corporal, é tentativa de homicídio. As lesões foram próximas a áreas vitais.

O senhor está indo fazer exame de corpo de delito. Que medidas pretende tomar?

Eu e meu advogado estamos muito constrangidos pelo fato de ele estar solto. Hoje teve audiência de custódia. O agressor pagou fiança e saiu em liberdade. Alguém que coloca em risco a vida de outras pessoas, está em liberdade. Então iremos tentar alterar isso de ‘lesão’ para ‘tentativa de homicídio’ e de ‘injúria’ para ‘racismo’.

Estamos vivendo em um mundo com duas visões distintas: uma civilizatória, que implica respeito à diversidade, à afirmação dos grupos sociais que sempre viveram, historicamente, em situação de vulnerabilidade. Do outro lado está a barbárie, a negação absoluta de qualquer princípio de pluralidade. Pior: de destruição das diferenças. Por isso é importante não permitir que haja negligência em relação a isso. A situação atual é séria, extremamente grave.

O racismo um dia deixará de existir?

O fim do racismo faz parte das utopias mais generosas do gênero humano. Acredito que um dia vamos superar esse sistema de opressão que articula patriarcado, capitalismo, supremacia branca, que impõe violência contra mulheres, negros, pobres, lgbtqia+. E superar o racismo como mecanismo estrutural da sociedade. Quero acreditar nessa utopia.

 

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