
Por Edward Wasserman*
Influenciadores digitais compartilham ideologias políticas, muitas vezes patrocinadas, mas sem transparência sobre isso: Neste contexto, professor acredita que jornalismo pode ensinar lições sobre transparência para os influenciadores.
Influenciadores digitais, por meio de suas postagens no Instagram, Threads, TikTok e outras plataformas, criaram um universo imenso de notícias e comentários que muitas vezes supera a mídia tradicional em alcance e até em impacto.
Eles atuam no mesmo território do jornalismo e das relações públicas, mas a relação com essas práticas fundamentais, baseadas em fatos e defesa de causas, é tensa.
E quando se trata das regras que deveriam garantir a percepção de chonestidade dos influenciadores, eles têm demorado a agir, como mostra uma polêmica crescente sobre pagamentos não divulgados feitos a influenciadores freelancers.
Matéria da Wired expôs rede de financiamento de influenciadores
As redes sociais ferveram com postagens sobre uma reportagem provocativa que alega influência política indevida entre comentaristas online de tendência progressista.
Com o título “A Dark Money Group is Secretly Funding High-Profile Democratic Influencers” (Um Grupo de Dinheiro Obscuro Está Financiando Secretamente influenciadores Democratas Conhecidos), a matéria foi publicada na Wired, revista sediada em São Francisco e especializada em tecnologia, e escrita por Taylor Lorenz, uma repórter em destaque que construiu sua carreira cobrindo tecnologia para veículos como The Washington Post, The New York Times e The Atlantic.
O artigo focava na Chorus, descrita como um braço secreto do Sixteen Thirty Fund, cuja ampla atuação em apoio a causas progressistas somam mais de US$100 milhões de dólares por ano.
Desde o segundo semestre de 2025, relatou Lorenz, a Chorus recrutou e apoiou discretamente um grupo de influenciadores políticos liberais, com subsídios mensais que variavam de 250 a 8.000 dólares.
O quanto era rígido o controle que a Chorus buscava exercer sobre o que os cerca de 90 freelancers realmente produziam é um ponto um tanto obscuro e foi fortemente contestado nas reações ao artigo.
Mas o que parece claro, como jornalista e estudioso da ética na mídia, é que qualquer criador que oculte apoio financeiro enquanto comenta assuntos de interesse de seus financiadores está, implicitamente, apresentando-se falsamente como uma voz independente.
Eles não enganam menos do que um jornalista de negócios que cobre uma empresa na qual investe secretamente.
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Respostas furiosas desviam do tema principal
A reportagem da Wired afirmou que o programa de apoio aos influenciadores, chamado Chorus Creator Incubator Program, “tinha como objetivo fortalecer as mensagens democratas na internet”.
Analistas financiados recebiam regularmente instruções e participavam com legisladores e figuras públicas, organizados pela Chorus, sobre temas de relevância jornalística.
Segundo Lorenz, os influenciadores pagos também supostamente concordaram em avisar a Chorus com antecedência sobre entrevistas com fontes importantes, dizendo que “os criadores do programa devem canalizar todas as marcações com legisladores e líderes políticos por meio da Chorus.
Os criadores também precisam incluir a Chorus em qualquer engajamento organizado de forma independente com autoridades governamentais ou líderes políticos”.
E um grande sinal de alerta para qualquer pessoa preocupada com práticas éticas de comunicação: os influenciadores participantes estavam proibidos de contar a qualquer um sobre o dinheiro que recebiam.

Revolta nas redes sociais após denúncia.
A matéria da Wired claramente tocou em ponto sensível e desencadeou uma onda de postagens furiosas no Instagram, TikTok, Bluesky, YouTube, X, Facebook e outras redes sociais. Mas, apesar da intensidade das reações, os comentários evidenciaram o estado caótico da ética online.
Ataques ad hominem predominaram. Postagens acusavam Lorenz de ser mentirosa e hipócrita, afirmando que ela não tinha legitimidade para expor o programa porque, segundo admitido, também receberia financiamentos semelhantes. Alguns diziam que sua verdadeira motivação era sabotar a esquerda. Outros elogiavam o programa Chorus como uma tentativa valiosa de aprimorar as habilidades dos participantes e enriquecer seu conteúdo.
Ainda havia quem afirmasse que a Chorus não é intervencionista, que nunca designa pautas nem edita textos, e que representa uma correção tardia, oferecendo a influenciadores progressistas o mesmo tipo de apoio que a direita política já possui há anos.
Raramente, porém, os comentários abordavam o que deveria ser o cerne do problema: a ausência de um entendimento comum sobre as responsabilidades básicas que influenciadores online têm para com seu público. Essas responsabilidades não diferem das de jornalistas ou dos defensores profissionais: dizer a verdade.
Como disse Don Heider, diretor do Markkula Center for Applied Ethics da Universidade de Santa Clara, a Lorenz, com admirável clareza: “Se o contrato para receber dinheiro de um grupo de interesse específico diz que você não pode divulgá-lo, então é simples: você não pode aceitar o dinheiro”. Ou, como afirmou o influenciador Overopinionatedbrit3 no TikTok: “Se você está sendo pago, revele — ou você é um influenciador sendo influenciado”.
Uma obrigação de transparência
O princípio da transparência é consagrado entre profissionais de comunicação.
Desde suas primeiras versões, há um século, os códigos do jornalismo reconhecem que o conflito de interesses é talvez a ameaça mais tóxica à credibilidade dos repórteres e à confiança que buscam ao público.
A Public Relations Society of America baseou parte de seus esforços para profissionalizar a prática da defesa de causas na exigência de que os profissionais não ocultem apoios nem deixem de informar de que vêm as mensagens que transmitem, proibições que, infelizmente, nem sempre são observadas.
Um exemplo notório foi o uso de “analistas militares” na televisão pela CNN e outras emissoras durante a invasão do Iraque. Esses analistas eram, em geral, ex-oficiais de alta patente empregados por empresas de armamentos, cujos salários dependiam de manter boas relações com o Pentágono, mas que mesmo assim ofereciam aos espectadores da CNN supostas avaliações independentes da campanha militar dos EUA. Nada disso era revelado ao público.
Femi Redwood, que preside o grupo de trabalho LGBTQ+ da National Association of Black Journalists, foi uma das poucas pessoas, entre a enxurrada de comentários sobre a matéria da Wired, a focar na ausência de padrões éticos online.
Redwood definiu o problema como ” interseção entre notícia e influência sem a ética do jornalismo” e defendeu um código que tornasse explícitas as obrigações éticas dos influenciadores.
O mundo dos influenciadores é, reconhecidamente, um tipo de Velho Oeste. Até que ponto diretrizes éticas seriam adotadas universalmente e se as plataformas teriam disposição para fazer valer uma questão em aberto, mas crucial.
O apelo do caminho mais elevado
Mas o público das redes sociais pode estar aberto a essa discussão.
Os criadores de conteúdo online há muito afirmam ter maior independência intelectual e mãos mais limpas do que profissionais da mídia tradicional que criticam, aqueles que, segundo eles, estão presos às teias do viés institucional e da servidão material.
De fato, no momento atual, em que grandes organizações de mídia têm sido submetidas a um governo em Washington que usa as ambições financeiras de seus proprietários para impor disciplina ideológica, a capacidade dos influenciadores de reivindicar superioridade moral potencialmente parece ainda mais forte.
Mas o modelo freelance não garante independência. Ele pode apenas criar uma rede mutável de dependências e alianças totalmente invisíveis para o público atendido e uma fonte poderosa de corrupção.
A transparência é um remédio imperfeito. Mas deixar de adotá-la como expectativa mínima confere ao vasto universo online uma mancha moral fatal para a confiança.
*Edward Wasserman é professor de jornalismo na Universidade de Berkeley