Fiocruz e Butantan sairão maiores que a mediocridade de governantes, diz fundador da Anvisa

O médico sanitarista Gonzalo Vecina Neto também é ex-presidente da Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) e ex-secretário municipal de Saúde de São Paulo. Foto: Reprodução/Youtube

Publicado originalmente no Brasil de Fato:

Por Lu Sudré

Ainda que permeada por disputas políticas, vaivéns e incertezas, a aprovação da vacina contra o novo coronavírus no Brasil parece estar próxima.

A meta da Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) é analisar os pedidos de uso emergencial dos imunizantes produzidos pela Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz) e pelo Instituto Butantan, entregues na sexta-feira passada (8), em até dez dias.

Em entrevista ao Brasil de Fato, Gonzalo Vecina, fundador e ex-presidente da Anvisa, avalia a atuação das instituições de saúde envolvidas neste processo, assim como a interferência e apropriação política que recai sobre ele – seja em nível federal ou estadual.

Segundo o médico sanitarista e referência na área, embora a Anvisa tenha sofrido pressão do governo Bolsonaro e de João Doria, governador de São Paulo, a atuação do órgão tem sido positiva.

“A Anvisa tem resvalado um pouquinho mas tem conseguido cumprir com a sua proposta com a sociedade brasileira. Em grande medida isso se deve aos servidores”, explica Vecina fazendo a ressalva de que, mesmo cumprindo com seu papel, ainda acompanha os processos com certo receio.

Um dos motivos que justificam essa insegurança é a indicação do tenente-coronel Jorge Luiz Kormann para a diretoria do órgão pelo presidente, reprovada de forma contundente por Vecina.

Kormann é crítico ferrenho da Organização Mundial da Saúde (OMS) e atualmente está internado em decorrência da covid-19. Seu nome ainda não foi avaliado pelo Senado.

Recentemente a Anvisa também foi alvo de inúmeras críticas por parte do governador de São Paulo ao solicitar que o Instituto Butantan enviasse documentos que estavam faltando para a submissão da Coronavac. Um procedimento normal em processos como este.

“De fato a lista dos documentos [requisitados pela Anvisa] são absolutamente imprescindíveis. Todos os 6 itens são fundamentais. É claro que o governador de São Paulo tentou polemizar. Inerguminice, idiotisse dele. Nesse caso, Bolsonaro e Doria são farinhas do mesmo saco”, critica o sanitarista.

Ele alerta que a sociedade brasileira deve acompanhar com a atenção os movimentos de Doria e de Bolsonaro, para que não haja mais danos à saúde pública brasileira e suas históricas instituições.

“O Butantan e a Fiocruz tem mais de cem anos cada um. A Anvisa é relativamente jovem, criada em 1999, mas ganhou uma respeitabilidade mundial e tem feito por merecer. Acredito que a cultura organizacional dessas instituições se sobreporá à mediocridade desses governantes.”

A segunda parte da entrevista com o sanitarista Gonzalo Vecina será publicada nesta quinta-feira (14).

Confira:

Brasil de Fato – Temos um contexto de disputa entre o governo federal e o paulista. Qual sua opinião sobre posturas técnicas que acabam sendo lidas como movimentos políticos? A exemplo da requisição adicional de documentos feita pela Anvisa para o Instituto Butantan para a continuidade da aprovação da Coronavac.

Gonzalo Vecina – Esse processo foi absolutamente normal. A agência solicitou documentos que não haviam sido entregues. A maior prova disso é que o Butantan, de maneira muito cordata, falou que estavam providenciando e que entregariam no menor prazo possível. Se tivesse sido diferente, o Butantan teria dito que não caberia. Mas ele não falou isso, concordou que os documentos deveriam ser entregues.

De fato a lista dos documentos são absolutamente imprescindíveis. Todos os 6 itens são fundamentais. É claro que o governador de São Paulo tentou polemizar. Inerguminice, idiotisse dele.

Nesse caso, Bolsonaro e Doria são farinhas do mesmo saco. Já a Anvisa e o Butantan estão tentando fazer seu melhor papel.

Eu não diminuiria a importância que sociedade esteja de olho, tanto no Bolsonaro como no Doria, para que eles não extrapolem e não consigam transformar um jogo político em detrimento da saúde pública brasileira.

Tanto a Anvisa, como a Fiocruz e o Butantan são órgãos brasileiros históricos que existiam antes de toda essa conjuntura e continuarão a existir. Esses desgastes podem trazer danos para além das gestões desses políticos?

Eles sempre podem ser tóxicos o suficiente para criar uma situação que se prolongue após os respectivos mandatos.

O Butantan e a Fiocruz tem mais de cem anos cada um. A agência é relativamente jovem, criada em 1999, mas ganhou uma respeitabilidade mundial e tem feito por merecer.

Acredito que a cultura organizacional dessas instituições se sobreporá à mediocridade desses governantes.

Enquanto alguém que esteve na presidência da Anvisa, como avalia a atuação do órgão e de seu papel na aprovação de um imunizante contra o coronavírus? Tendo em vista que entramos no segundo ano de enfrentamento à pandemia sem uma vacina.

Gonzalo Vecina – A Anvisa, embora tenha sofrido uma pressão muito grande por parte do governo e por parte do estado de São Paulo, da sociedade que está buscando as vacinas, tem se saído relativamente bem.

Mas tenho receio, não há dúvidas. O anúncio, por exemplo, de que um tenente-coronel estaria sendo indicado para ser diretor da Anvisa é um anúncio perigoso. Um tenente-coronel [Jorge Luiz Kormann] não tem nada a ver com a saúde, ao contrário. É um sujeito que em suas redes sociais tem emitido um conjunto de opiniões muito ruim do ponto de vista da saúde pública.

Eu espero, sinceramente, que este jogo de pesos e contrapesos que a democracia tem faça o seu papel e consiga não aceitar a indicação desse tenente-coronel. Ele terá que ser sabatinado no Senado.

Além de que, a lei que criou a agência exige que o diretor tenha larga experiência no setor. Ele não reúne as funções necessárias.

A Anvisa tem resvalado um pouquinho mas tem conseguido cumprir com a sua proposta com a sociedade brasileira. Em grande medida isso se deve aos servidores.

Espero que os diretores respondam a esse ambiente formado pelos servidores, pela cultura organizacional da agência, que garanta a segurança sanitária dos produtos, dos serviços, que estão sob vigilância da agência.

Muito se fala da interferência política na Anvisa. Considerando esse esforço dos servidores que o senhor pontuou, o que podemos identificar como escolhas técnicas ou políticas nesse processo [de aprovação da vacina]? Poderia acontecer de modo diferente?

Em qualquer lugar do mundo seria um jogo no qual teríamos essas consequências. Se não estivéssemos falando de política, estaríamos falando da capacidade da indústria de interferir nas agências. Não existe um mundo técnico e um mundo político ou vice-versa.

O mundo é uma mescla dessas coisas e é por isso que temos esses jogos de presos e contrapesos para que as organizações sirvam as sociedades para as quais foram criadas.

Não há nada no Brasil que não possa ocorrer em outras agências no mundo. Veja o Trump, nos Estados Unidos, que tentou em diversas ocasiões interferir no FDA [Food and Drug Administration, agência federal do Departamento de Saúde e Serviços Humanos dos Estados Unidos]. E não conseguiu.

São defesas que a sociedade tem dessa politização ruim. As pessoas falam da politização como se fosse ruim. A politização não é ruim, a má política é uma coisa ruim.

A política é uma coisa necessária pro homem, como forma de exercer o poder. Temos que criar defesas contra essa coisa da micropolítica, do populismo. Embora a sociedade brasileira ainda esteja em um processo de amadurecimento do ponto de vista democrático, está no seu caminho.

Veja que até uma sociedade como a americana, onde a democracia tem mais de 300 anos, sofreu um golpe como o dos últimos dias com a invasão do Congresso por conta de um alucinado que foi eleito democraticamente por aquela população. E o tal do jogo de pesos e contrapesos demorou para funcionar de maneira adequada.

Mas espero que as democracias continuem conseguindo resistir à sandice que de vez em quando vem à cabeça de algumas pessoas que acabamos, de alguma forma, escolhendo democraticamente.

Aqui no Brasil, o negacionismo que Bolsonaro defende na área de saúde interferiu no fato de não termos iniciado a vacinação até esse momento? Quais são os danos pra saúde pública com a figura do presidente?

Sem dúvida interferiu. Ele nega a importância da vacina, nega a importância da doença, a continua tratando como uma gripezinha, o que certamente ela não é. É uma doença gravíssima. Já causou mais de 200 mil mortes, muitas delas evitáveis se tivéssemos um governo presente no ano que passou.

Ao ser negacionista e negar a importância da vacina, ele produz um efeito até mesmo em outras vacinas. Isso é muito ruim. Estamos com uma perda na capacidade de vacinação desde 2016 e 2017 que é grave.

A cobertura da vacina de sarampo e de várias outras vacinas caíram por inação do governo federal. A inação do governo federal é muito grave, já que ele detém 50% do total dos recursos do SUS.

A posição negacionista é um exemplo ruim. Quando olhamos Angela Merkel e o próprio Boris Johnson na Inglaterra, que até pouco tempo era negacionista. Mas depois apareceu em todas as cenas acompanhando a vacinação.

“Nosso presidente é responsável pela geração de muitas mortes”.

Temos que pensar que nosso presidente é responsável pela geração de muitas mortes. Em algum momento essas questões deverão ser cobradas na Justiça. É inacreditável que ainda não tenham sido. O prejuízo que ele [Bolsonaro] está causando à saúde pública do país é imenso.

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