Flávio Bolsonaro bajula Milei e diz ter “inveja” da Argentina, afundada em crise

Atualizado em 29 de junho de 2026 às 9:00
Flávio Bolsonaro discursando em evento na Argentina

O senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) usou um evento sobre relações entre Israel e América Latina para bajular o presidente da Argentina, Javier Milei, acusar o presidente Lula (PT) de antissemitismo e dizer que o Brasil tem “inveja” da onda de direita em países vizinhos. O candidato à Presidência discursou na noite de domingo (28), em Buenos Aires, durante conferência promovida pela Israel Allies Foundation.

O evento, organizado em parceria com a American Friends of the Isaac Accords, reúne parlamentares e lideranças políticas em torno de uma agenda de aproximação com Israel. A entidade se apresenta como uma rede de articulação parlamentar pró-Israel e defende, entre outros pontos, o reconhecimento de Jerusalém como capital “indivisível” do país.

No discurso, Flávio afirmou que os brasileiros olham para o mapa da América Latina com “um pouco de inveja”. “Enquanto nossos vizinhos, um a um, escolhem a liberdade e a ordem, o Brasil ainda está preso ao passado. Somos a peça que falta nesse mapa”, disse o senador, ao prometer uma mudança em outubro.

O filho de Jair Bolsonaro também usou a pauta de Israel para acusar o governo brasileiro de fazer “lobby internacional a favor de terroristas” ao se opor, segundo ele, à classificação do PCC e do Comando Vermelho como organizações terroristas pelos Estados Unidos. “Me indigna profundamente ver meu próprio governo fazendo lobby internacional a favor de terroristas, a favor de narcotraficantes”, afirmou.

A crítica mais dura veio na sequência, quando o parlamentar associou o governo Lula a inimigos de Israel. “Hoje, o governo do meu país se alia com o Irã, contra Israel e contra os Estados Unidos. Se alia com o Hamas, aplaude o Hezbollah”, declarou. Ele também citou a comparação feita por Lula em fevereiro de 2024 entre a ofensiva israelense em Gaza e o Holocausto, episódio que levou Israel a declarar o presidente brasileiro persona non grata.

Flávio ainda criticou a adesão do Brasil ao processo movido pela África do Sul contra Israel na Corte Internacional de Justiça. Segundo ele, essa escolha levou a uma ruptura prática na relação bilateral. “Hoje, na prática, não há relação diplomática plena entre o Brasil e Israel. O Brasil está sem embaixador em Israel desde 2024”, disse.

O senador prometeu, caso seja eleito, receber no primeiro dia de governo as credenciais de um novo embaixador de Israel em Brasília, em gesto inspirado no presidente de Honduras, Nasry “Tito” Asfura. Também voltou a defender a transferência da embaixada brasileira em Israel para Jerusalém, promessa feita por Jair Bolsonaro em 2018 e nunca cumprida durante seu governo.

A fala serviu ainda como aceno direto a Milei. Flávio disse que o presidente argentino, ao lado de Jair Bolsonaro, deu “o primeiro grande empurrão” na atual onda conservadora da região. “Hoje, no Brasil, em vez de termos medo de terminar como a Argentina do passado, passamos a ter esperança de terminar como vocês hoje”, afirmou.

A exaltação ocorre apesar da crise persistente no país vizinho. A Argentina ainda convive com inflação anual acima de 30%, desemprego em alta, consumo fraco e fechamento de empresas sob o ajuste de Milei. Setores industriais também foram atingidos pela abertura comercial e pelo peso valorizado, enquanto o país voltou a registrar déficit em conta corrente no início de 2026.

Laura Jordão
Estudante de Sociologia e Política na Fundação Escola de Sociologia e Política e estagiária pelo Diário do Centro do Mundo. Adoro ciclismo, e busco estudar sobre mobilidade urbana e políticas públicas.